quarta-feira, 13 de julho de 2016



ictvr -VEMOS, OUVIMOS E LEMOS. NÃO PODEMOS IGNORAR!*

Em artigo publicado neste jornal (nº 481 de 22 de Junho) o ex- Diretor Técnico do ICTVR – Centro Internacional de Tecnologias de Realidade Virtual, vinha a público trazer-nos a “sua” verdade sobre o que levou ao desmoronar dum projeto que se acreditou ser capaz de alavancar a ascensão da cidade e da região a patamares de excelência nas industrias tecnológicas e criativas.
No seu longo artigo que justifica com a necessidade de contar a verdade sobre o princípio e fim do ICTVR aquele ex-dirigente procura justificar a sua participação e assume-se como vítima de um processo que levou à delapidação de alguns (muitos milhões), transformou em pesadelo o sonho de jovens quadros a quem fizeram acreditar que o seu futuro estava garantido na sua cidade e colocou em total desaproveitamento equipamentos e saberes de grande valia social e económica.
Algumas das afirmações proferidas que o autor diz serem apenas factos comprováveis e as muitas perguntas que nos deixa revelam-se de uma tal gravidade que deveriam ter originado um mar de desmentidos, de esclarecimentos e de promessas de processos na justiça.
Ao contrário e estranhamente (ou talvez não) o que assistimos é a um silencio ensurdecedor.
Responsáveis autárquicos (antigos e atuais), dirigentes académicos e empresários ligados ao projeto, forças políticas no poder ou na oposição, ou não leram ou fingem não saber o que ali foi afirmado ou insinuado.
E não foi pouco. O antigo Diretor Técnico do ICTVR afirma-se vítima de um processo que destruiu de forma deliberada um projeto que diz, tinha tudo para dar certo.
Denuncia o Executivo Municipal então presidido por Mata Cáceres de não ter oficializado as decisões tomadas para com o ICTVR e em particular o facto do direito do uso das instalações no espaço Robinson e do investimento assumido pela Câmara nunca terem sido analisados e aprovados quer na Câmara quer na Assembleia Municipal.
Acusa as autoridades académicas de compadrio com os que decidiram alterar o projeto inicial e depois, estrangular financeiramente o ICTVR e acusa ainda forças que não identifica, como protagonistas de uma campanha visando destruir a sua reputação profissional e pessoal.
Acompanhei o processo ICTVR numa fase em que este há muito deixara de ser uma oportunidade e se havia transformado numa enorme dor de cabeça. Então, enquanto administrador não executivo da Fundação Robinson, participei em algumas reuniões duma Comissão Administrativa que procurava ainda salvar do desastre algumas das suas componentes.
Recordo quer a informação que tínhamos de que o então Diretor Técnico havia abandonado as suas funções e se comportava como elemento hostil à sobrevivência do ICTVR, quer as tentativas e pressões de alguns dos sócios do ICTVR para que fosse a Fundação a assumir o ICTVR. Situação que o Conselho de Administração que integrava, sempre recusou.
Por tudo isto, ao ler o artigo da autoria do professor Gastão Marques esperei que o mesmo levantasse, no mínimo, um ruído parecido com o que desde sempre foi “oferecido” à Fundação Robinson.
Engano meu! Mesmo depois dos “esclarecimentos” publicados, a cidade mantem a mesma incompreensível postura de “assobiar para o lado”.
Onde estão as forças políticas da oposição (mas também da maioria) que afirmando-se preocupadas com os gastos públicos elegeram a Fundação Robinson como saco de pancada onde é possível descarregar todas as frustrações?
Onde estão os porta-vozes dessa cultura tão lagóia do diz que diz ou dos atos de heroísmo à mesa do café ou a coberto do anonimato nas redes sociais?
E, por onde andam os gestores do ICTVR, os nomeados pela Câmara e os outros? E os autarcas, particularmente o então Presidente Mata Cáceres acusado de ter escondido do município, ou pelo menos não ter levado ao assumir, das decisões por ele tomadas?
Aguardemos!

Diogo Júlio Serra

Ex-Administrador (não executivo) da Fundação Robinson
*publicado no Jornal Alto Alentejo de 13 de Julho de 2016



41 anos depois continuam os sonhos e as lutas
 Diogo Júlio Serra *

No passado dia quatro cumpriram-se quarenta e um anos desde aquela noite de 1975 em que nas instalações da Delegação de Portalegre do Sindicato dos Bancários, na Praceta, reuniu sob a presidência de António Milheiro, bancário, António Serra, operário agrícola e António Ceia dos Reis, Corticeiro, a Assembleia Constituinte da União dos Sindicatos do Distrito de Portalegre, para discutir e aprovar os Estatutos e instituírem a organização sindical dos trabalhadores do distrito que se assumiria desde a primeira hora como a Intersindical do distrito de Portalegre.

Estavam presentes 4 sindicatos com representação distrital: Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do distrito de Portalegre, Sindicato dos Sindicato dos Bancários de Lisboa, Sindicato dos Operários Corticeiros do distrito de Portalegre e Sindicato dos Químicos do Sul, que representavam mais de 50% dos trabalhadores sindicalizados no distrito.

De fora, embora por pouco tempo, ficavam o Sindicato dos Lanifícios, o Sindicato do Metalúrgicos de Portalegre e o Sindicato da Construção Civil, mais os Sindicatos dos Rodoviários e dos Caixeiros e Empregados de escritório já então, “enamorados” do reformismo sindical que haveria de desaguar nos processos fraccionistas da Carta Aberta e dos que se seguiram.

Desta forma tomava corpo o desejo de constituir um organismo de direcção e coordenação da acção sindical que, também no distrito de Portalegre, se desenvolvia de forma intensa desde os últimos anos do Marcelismo mas com particular intensidade desde o 25 de Abril de 1974.

Tratava-se de dar enquadramento legal à estrutura organizada dos trabalhadores que no terreno dirigira a tomada dos sindicatos fascistas e garantira a gestão dos sindicatos pelos trabalhadores associados. Fora assim na tomada do Sindicato dos Operários Corticeiros, do Sindicato dos Caixeiros e Empregados de Escritório e fora igualmente esta estrutura a apoiar a acção de refundação dos sindicatos cuja actividade fora proibida pelo fascismo: Função Pública, Professores, Administração Local.

Fora ainda esta estrutura “informal” que apoiara a refundação do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e, através dele organizara os trabalhadores na luta por salários e por emprego e na constituição de inúmeras Unidades Colectivas de Produção Agrícola que promoveram uma Revolução dentro da Revolução

Fundada formalmente no apogeu da Revolução viveu de forma intensa o “processo da Reforma Agrária” e coordenou todas as acções sindicais de conquistas de direitos individuais e colectivos e, com a vitória da contra revolução politico-militar, dirigiu a luta em defesa das conquistas que Abril abriu.

Hoje, quarenta e um anos depois, com milhares de lutas travadas, com vitórias e derrotas no seu historial, mas sempre em estreita ligação com os trabalhadores e trabalhadoras deste distrito, a União dos Sindicatos entretanto renomeada como União dos Sindicatos do Norte Alentejano continua a afirmar-se como a maior e mais representativa organização social do distrito de Portalegre e a demonstrar a mesma firmeza e entusiasmo na defesa dos trabalhadores que representa e do direito de todos em trabalharmos e vivermos num território acolhedor e desenvolvido.

Eu que acompanhei o seu percurso, desde o nascimento até hoje e com particulares responsabilidades entre 1978 e 2015, sou disso testemunha.

Hoje, no dia em que comemora mais um aniversário a União dos Sindicatos do Norte Alentejano é companhia inquestionável de quantos aspiram a um futuro melhor, parceiro indispensável de órgãos do poder democrático e actor imprescindível na aplicação das políticas necessárias à região e ao país.

Que persista na sua acção.
Sempre, Sempre com os trabalhadores e trabalhadoras do Norte Alentejano!

* publicado no Jornal Fonte Nova de 12/7/16



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Da cultura industrial à indústria da cultura.

Da Cultura Industrial à Indústria da Cultura




     A vila de Portalegre que em 1229 pertencia ao concelho de Marvão, passou a sede de concelho em 1253.[1] A 23 de Maio de 1550, D. João III elevou-a à categoria de cidade quando esta já era, em conjunto com Covilhã e Estremoz, um dos principais centros da indústria de tecidos do país.
   Fruto das óptimas condições naturais e da “cultura industrial” existente, em 1772 o Marquês de Pombal instala aqui, no antigo Convento de S. Sebastião, a Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre.
     No século seguinte a cidade de Portalegre, então elevada a capital de distrito,[2] assiste ao acentuado declínio das suas indústrias têxtil e lanifícios e à instalação e florescimento da indústria corticeira às mãos de uma família inglesa, os Robinson.
     O século XX encontra a cidade de Portalegre já recomposta da grave crise que afetara a sua indústria e comércio, com uma população à volta dos 10 mil habitantes e dispondo de diversos serviços de apoio às condições de vida das suas gentes.
      A primeira metade do Século XX confirma Portalegre como cidade industrial, situação que se mantém e amplia quando da Revolução de Abril e continuará até 1986, ano em que Portugal passa a ser membro da Comunidade Económica Europeia.
     A indústria corticeira, com a Robinson Bros, os lanifícios, com a Fino’s, a Fibrafil e a Finicisa, o sector têxtil com a Invicar, os lacticínios com a Serraleite, o sector químico com a Houtchinson, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre e dezenas de outras de menor dimensão, garantem o emprego a uma comunidade operária já em diminuição mas ainda com enorme peso na vida da cidade e da região.
     Das intervenções do FMI e da adesão do país à CEE resultou o aumento da nossa dependência e tornou a nossa economia muito mais vulnerável às influências das economias altamente desenvolvidas.   
     A destruição da capacidade produtiva a troco de euros e autoestradas e o errático apostar na tercerização da nossa economia sem ter consolidado o nível secundário, aceleraram a destruição das nossas empresas, impuseram o fim da “Portalegre Industrial” e lançaram o concelho num perigoso trajeto de empobrecimento e letargia de que urge libertar-se.
     Com a insolvência e encerramento das unidades transformadoras tradicionais, milhares de famílias foram arrastadas para o desemprego e para a emigração e na cidade abriam-se autênticas crateras onde imperavam os resíduos e as “sucatas”, totalmente abertas à ganância do imobiliário ou à agonia dos caídos.
     Era esse o destino previsível do “espaço Robinson” – sete hectares de terreno, no coração da cidade, é assim que se encontra o espaço anteriormente ocupado pelas fábricas de Lanifícios e pela Invicar e será assim que continuaremos a ver a cidade se não soubermos/quisermos encontrar caminhos para além da reindustrialização que se deseja mas que não se prevê possível no curto e médio prazo.
     Como já sucedeu várias vezes na história da cidade o futuro construir-se-á se conseguirmos unir-nos na valorização das nossas potencialidades.
       Esgotada a fase da Cidade das Industrias tradicionais importará consolidar a cultura industrial da cidade e das suas gentes para projectarmos uma nova cidade capaz de substituir a sua cultura industrial por uma indústria da cultura e do conhecimento.
    “Argumentos” não nos faltam. A cidade e o concelho são possuidores de potencialidades de desenvolvimento assente na utilização da sua arqueologia industrial, no riquíssimo património arquitectónico, na paisagem, nos saberes ancestrais das suas gentes e na capacidade das unidades de ensino aqui sediadas passarem para a cidade o conhecimento ali produzido.
   Importa transformar a sua arqueologia industrial em centros de fruição e de conhecimento, musealizando lugares e saberes, reabilitando espaços e edificado, ocupando-os e dando-lhes vida.
     O espaço onde funcionou até 2004 a Fabrica de Lanifícios que é agora um conjunto de edificações em ruínas e, face ao estado degradado das coberturas contendo amianto, uma ameaça para os portalegrenses, poderia ser transformado num centro de criação e formação dos têxteis, lanifícios e do vestuário e um ninho de acolhimentos a designers e criadores.
     O Espaço Robinson é outro exemplo de potencialidades que podem e devem alavancar o desenvolvimento da cidade.
    Aqui onde a secular Robinson ainda não foi totalmente desmantelada e foi constituída uma Fundação com a missão de salvaguardar o espólio industrial, preservar a memória da fábrica e garantir à cidade e às suas associações culturais a apropriação daqueles espaços, importa retomar o projecto original da Fundação e garantir-lhe os meios de financiamento necessário, abrindo-a a novos parceiros.
     No espaço Robinson dever-se-á instalar um centro nacional de conhecimento e de investigação sobre o montado, a produção, a transformação e novas utilizações da cortiça e avançar com os projectos iniciais da fundação de musealização da fábrica, de construir residências de jovens criadores e instalar ateliers de arte contemporânea.
     O facto de ser Portalegre uma das capitais mundiais da tapeçaria e residirem aqui as melhores tecedeiras do mundo[3], a existência do Museu da Tapeçaria - Guy Fino e da Manufactura das Tapeçarias de Portalegre colocam a cidade numa situação de privilégio na atractividade de um segmento de turistas com alto poder de compra e de apetências culturais que a região pode e deve preencher.
     Também a existência de inúmeros palácios e casas brasonadas, de igrejas e mosteiros, de museus - Museu Guy Fino, museu municipal, casa museu José Régio, museu de cristos e o seu funcionamento em rede, num casco histórico que importa reabilitar e divulgar, podem transformar a cidade branca[4] num museu a céu aberto e dar-lhe a atractividade necessária para a sua afirmação como capital cultural e turística da zona raiana onde se insere.
     A existência regular de eventos culturais de grande qualidade de que se destacam a feira da doçaria conventual e o JazzFest (este já na 13ª edição e que este ano mereceu ser premiado pela Entidade Regional de Turismo), são certificado de qualidade e instrumento de atractividade de públicos específicos e montra privilegiada da cidade e da região.
     O concelho profundamente rural onde Portalegre se insere, é detentor de um número impressionante de produtos classificados também eles fundamentais para o desenvolvimento da economia local. Para tanto, é fundamental dar-lhes a visibilidade necessária e dotar os artesãos que os fabricam das ferramentas necessárias à sua comercialização.
     Os estabelecimentos de ensino superior aqui sediados, sozinhos ou em parceria com os seus congéneres da euro-região onde nos inserimos e com as instituições representativas desses produtores são certamente, quem tem melhores condições para o conseguir.

Diogo Júlio Serra

 Publicado na Revista  alentejo nº 40
Junho/Novembro de 2016



[1] António Ventura em texto escrito para o sítio da Câmara Municipal de Portalegre
[2] Em 1835, quando foram criados os distritos como divisões administrativas
[3]Afirmação de  Jean Lurçart, renovador da Tapeçaria Francesa
[4] Designação dada à cidade de Portalegre

quarta-feira, 22 de junho de 2016

ALDEIA GRANDE OU CIDADE CAPITAL?


Diogo Júlio Serra*


   Portalegre, cidade e concelho, atravessam um momento de profunda debilidade. O século XXI acelerou as situações de fragilidade que se vinham sentido nas últimas décadas do anterior e se caracterizaram pelo desmantelar das indústrias existentes, pelo definhar do comércio e das pequenas oficinas que sempre animaram as ruas da cidades e, pior, pelo desânimo que atinge as nossas gentes e tolhe os nossos autarcas.
   O desemprego instalou-se, os mais jovens foram obrigados a partir, Portalegre transformou-se numa cidade envelhecida, cada dia menos povoada, menos limpa, mais desleixada.
   A cidade deixou de ser a capital industrial do Alentejo e deixou, também, de ser a cidade branca.
   É um caminho que tem que ser invertido!
   A cidade e o concelho têm potencialidades bastantes para ultrapassar o mau momento que vivemos.
Não é a primeira vez que Portalegre se vê confrontada com dificuldades motivadas por falências e encerramentos de empresas e dificuldades financeiras do município. Sempre soube ultrapassá-las.
   O colapso da industria de lanifícios nos finais do século XIX originou desemprego em massa e foi pioneira de situações de salários em atraso e falências que agora voltamos a viver.
   A situação foi superada com o enorme contributo dos Robinson e da sua corticeira, entretanto desaparecida mas que pode, de novo, ser o motor para retomarmos os caminhos do progresso e bem estar.
   Assumindo como pouco provável que consigamos em pouco tempo a reindustrialização que reivindicamos é fundamental que olhemos, todos, para as inúmeras potencialidades que ainda detemos mas que teimosamente não transformamos em produtos para o desenvolvimento sonhado.
Desde logo o riquíssimo património que nos foi deixado pela Portalegre industrial que fomos. Uma cultura industrial, um valioso espólio de arqueologia industrial de que se destaca o espaço Robinson e a Fundação que o gere mas também os “destroços” da Lanifícios e Invicar.
   Outras potencialidades de que a cidade e o concelho dispõem são o seu rico património arquitectónico e a existência na cidade das melhores tapeceiras do mundo e da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.
   O espaço Robinson , um espaço com 7 há no coração da cidade e onde se mantém de pé toda a estrutura da secular fábrica  poderia/deveria ver ali instalado um centro de investigação do montado e da cortiça em sã convivência com a musealização da Robinson e tendo por vizinhas as muitas associações que teimam em continuar portalegrenses.
   A Manufatura Tapeçarias de Portalegre e a sua Tapeçaria ímpar poderão/deverão alavancar todo a politica municipal de turismo e assumirem-se como foco de atracção para um segmento de turismo culto, com poder-de-compra, interessado  e predisposto a “fugir” à oferta de sol e mar ou ao frenesim do litoral e dos grandes centros.
   As inúmeras casas senhoriais, os mosteiros e conventos, as suas capelas e igrejas fazem desta cidade um museu a céu aberto, complementado por uma rede de museus de que se destacam o Museu Municipal, o Museu de Tapeçarias, a Casa Museu José Régio e o espaço museológico da Igreja de S. Francisco.
   Com tudo isto o que nos falta?
  Falta-nos a vontade. Nenhuma das muitas potencialidades que detemos nos poderá valer se a vontade dos portalegrenses não conseguir impor, a cada um de nós, aos cidadãos organizados em associações e partidos e aos vários patamares do Poder Local a capacidade para descobriram pontos de união para nos tirar do pântano onde nos deixaram.
   Importa que o Município de Portalegre e as forças políticas que o compõem canalizem a discussão para encontrar formas de a Fundação Robinson retomar os seus objectivos fundadores e dispor dos meios materiais necessários em vez de continuarem a fazer dela arma de arremesso ao sabor dos seus interesses politico-eleitorais.
   Importa que a Administração da Manufactura e os vários parceiros que preparam a sua candidatura a Património Cultural da Humanidade não esqueçam que a Tapeçaria de Portalegre é o que é porque contou com a invenção do famoso nó,  com a visão empresarial da família Fino, com os cartões de pintores famosos mas também com o empenhamento e saber daquelas que Jean Lurçart apelidou de melhores tecedeiras do mundo e essas, estão no desemprego, a exercerem mil e uma actividades que nada têm que ver com os seus saberes e a receberem “aos bochechos” os salários que não lhes foram pagos em tempo útil.
   É difícil? É! Mas tem que ser feito.


*publicado no Jornal Alto Alentejo de 22/02/16

quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Era uma casa muito engraçada"

“era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada.”

     A “modinha” infantil aplicar-se-á ao edifício, propriedade do município, situado no Largo Serpa Pinto e há muito adquirido para ali se instalar o arquivo municipal?
     Não! Não é possível cantar enquanto se desmorona um edifício que é testemunho vivo da história recente da nossa cidade e um marco importantíssimo da história do movimento operário de Portalegre.
     Para os mais novos o edifício em ruínas existente no “ Largo da Boneca” será só mais um entre outros existentes na zona histórica da cidade. Outros recordá-lo-ão como sede do Estrela e lembrarão as tardes e noites ali passadas em sessão de fervor clubista ou praticando os inúmeros jogos de salão ali disponibilizados.
     Para os menos moços a recordação será a da Sociedade Vintém assim designada sem que muitos conhecessem a razão de tal denominação. Só os mais idosos e interessados conheceriam que a designação estava ligada ao custo da quota que os sócios disponibilizavam. Mas adiante, os estudiosos da história da nossa cidade, os estudiosos ou simples interessados da história do Movimento Operário e dos inícios da sua organização em Portalegre sabem que ali, dentro daquelas paredes agora em ruína total, se instalou em 1905, a primeira associação não mutualista nascida na nossa cidade, a Sociedade União Operária.
     Esta Associação, fundada em 1896 sob a égide de George Robinson e de seu cunhado Pedro Castro da Silveira, foi a primeira associação não mutualista a nascer em Portalegre e apresentava como objetivos  “o recreio, a confraternização, a instrução e a ilustração”[1].
     Os estatutos da Sociedade União Operária – S.U.O. permitiam a inscrição de associados de todas as classes sociais mas só aos operários era permitido serem sócios ordinários e votarem e serem eleitos para os órgãos sociais. Os restantes, sócios honorários, não tinham direito a voto nas assembleias gerais nem acesso aos órgãos sociais.
     A S.U.O. viria a ter uma enorme adesão da população operária de Portalegre e foi a partir das suas instalações que se organizaram as primeiras manifestações e desfiles comemorativos do 1º de Maio, ainda no século XIX.[2]
     Quando nos deparamos com a situação de ruína a que o edifício chegou não podemos deixar de condenar a nossa própria inércia perante o destruir das nossas memórias.
     É verdade que já houve intervenção do município para evitar o desabamento do telhado mas após essa intervenção não só não se conhecem quaisquer projectos para o edifício como se assiste (agora a céu aberto) à sua acelerada decomposição.
     O velhinho edifício sede da S.U.O. ( e também o antigo Teatro  Portalegrense) mereciam uma maior atenção dos Portalegrenses e em particular do seu município que, no caso da S.U.O. é igualmente o proprietário do imóvel.
     São conhecidos os constrangimentos financeiros por que passa a Câmara Municipal de Portalegre mas essa situação não pode justificar tudo e particularmente o alheamento dos portalegrenses.
     Em 1896 não foi o município quem assumiu a constituição da S.U.O., foram os operários de Portalegre e algumas das figuras tutelares da vida associativa.
     Um mês depois de constituída a associação já tinha 450 associados. O seu financiamento fazia-se “vintém a vintém”.
     E hoje?
   Cento e vinte anos depois da sua constituição não temos condições para nos quotizarmos (população, empresas, autarquias) e não deixarmos cair a sede da primeira Associação não Mutualista da cidade de Portalegre?

Diogo J. Serra

*Publicado no Jornal Fonte Nova de 31-05-16

[1]  António Ventura, Portalegre – Roteiros Republicanos, Ed QUIDNOVI,2010
[2] As Primeiras manifestações públicas ocorreram no Teatro Portalegrense mas, após a fundação da SUO passaram a ser organizadas na sua sede ou, no caso dos desfiles de rua, com partida e chegada às suas instalações.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Consenso não é Rendição!



Consenso não é, não pode ser, rendição!

A Senhora Presidente da Câmara usando da palavra na sessão solene do Dia da Cidade chamou a atenção para a necessidade de consensualizarmos posições em defesa do concelho e da região.

Chamou a atenção para a inexistência de consensos na Assembleia Municipal para que possa ser aprovado o Orçamento Municipal que, disse, já foi por duas vezes à Assembleia Municipal e tem sido "chumbado".

Sendo uma afirmação verdadeira, duvido que corresponda a uma preocupação verdadeira.

É um facto que o Orçamento Municipal de 2016 já foi presente para aprovação, em duas ocasiões distintas, na Assembleia Municipal mas em nenhuma delas o documento apresentado e aprovado pela Câmara Municipal, correspondia  ao mais ligeiro consenso entre as diferentes sensibilidades politicas presentes quer na Assembleia Municipal quer no Executivo Municipal.

Uma e outra vez o documento apresentado havia sido aprovado na Câmara Municipal não por consenso mas por imposição da vontade da força dominante - o CLIP e particularmente o colectivo de vereadores a tempo inteiro. Os restantes vereadores haviam votado contra, utilizando em ambos os casos o mesmo argumentário: não só não estavam de acordo com o documento como na prática o desconheciam porque nunca haviam sido chamados a contribuir na sua elaboração. 

Na Assembleia Municipal cuja composição inclui quatro forças políticas diferentes e um deputado dissidente do CLIP e onde não há ao contrário do que sucede no Executivo Municipal uma força maioritária o Orçamento, assim elaborado, não passou.

Todavia logo na primeira votação a bancada da CDU deixou dito que se houvesse disponibilidade do executivo (da maioria que impôs aquela versão) para ouvir e consensualizar propostas das outras bancadas rapidamente poderíamos ter o Orçamento aprovado.

Não foi esse o entendimento da maioria que a Senhora Presidente lidera. Alguns meses depois o Orçamento chumbado, sim o mesmíssimo documento que havia sido rejeitado, voltou à Assembleia para, como seria de esperar, ter o mesmo resultado. 

O discurso da Senhora Presidente parece indiciar a vontade de fazer diferente. Se assim for, se houver disponibilidade para sentar à mesa e seriamente proceder á elaboração do orçamento possível, as diferentes forças políticas, a inexistência de orçamento será rapidamente suprida.

Vai uma aposta? 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Escola Privada? Sim. Claro! Mas têm que pagá-la, certo?


O Ministério da Educação anunciou recentemente que está a decorrer um estudo para evitar o pagamento desnecessário a escolas privadas.

Pretende-se, diz o Ministério, deixar de contratualizar com uma série de estabelecimentos de ensino privados, serviços que a Escola Pública pode e deve garantir.

Este anúncio levantou de imediato uma onda de “indignação” entre os donos dessas escolas e originou a “saída da toca” da direita trauliteira e da “Igreja dos negócios” uns e outros colocando no terreno todo o vasto manancial de meios de que dispõe. Do púlpito à comunicação social, do seio das famílias beneficiadas aos proprietários dos colégios as campainhas tocaram a rebate e eles aí estão de novo no combate em defesa dos seus mesquinhos interesses.

Para quem assiste a partir do Alto Alentejo à infernal barulheira que a direita trauliteira e os megafones e ”paineleiros” que mantem na comunicação social, a que se junta a parte da igreja católica que não entendeu ainda o pensamento do Papa Francisco, todo este frenesim é motivo de apreensão e desilusão.

Para quem, como nós, persiste em viver e trabalhar no distrito de Portalegre e não desiste de lutar para que as populações do interior e as deste distrito em particular tenham tratamento igual aos restantes portugueses, não consegue deixar de notar o cinismo de quem vem agora mostrar preocupação com os direitos das crianças, com o perigo de professores caírem no desemprego ou, pasme-se, com os direitos adquiridos pelos colégios que foram vivendo à custa dos dinheiros públicos.

Onde estavam esses sentimentos e preocupações quando os próprios ou o governo que os representava encerraram no nosso distrito 65 estabelecimentos de ensino: 14 do pré-primário, 42 do primeiro ciclo, 8 do segundo ciclo e 1 do secundário?

Onde pairavam as preocupações agora tão extremadas quando o primeiro-ministro de então, o mesmo politico que agora tão preocupado está, aconselhava os professores a saírem do país?

Onde estava a igreja (a parte dela que não compreende o pensamento do Papa Francisco) quando eram os pais, os professores e as autarquias a denunciarem que o encerramento das escolas obrigava crianças de 6 anos a levantarem-se de madrugada e só regressarem a casa já noite?

Onde estavam os megafones e opinadores quando a direita no governo rasgava os direitos adquiridos pelas crianças e lhes roubava o subsídio, os direitos adquiridos pelos pais e os colocava no desemprego, os direitos adquiridos pelos avós e os obrigava a trabalharem mais tempo e lhes retirava partes da reforma para a qual contribuíram ao longo de uma vida?

Falemos verdade! O que dói à direita trauliteira e ao coro de opinadores que a servem, é o estar provado que, ao contrário do que afirmavam, há outros caminhos para Portugal. O que não conseguem ultrapassar é a derrota que lhe foi infligida e a perda do poder e das benesses que tal poder lhes permitia.

Quanto à igreja (a parte que não quer aprender com os ensinamentos do seu/nosso Papa), a sua integração no “coro dos vencidos” é menos por não perceber a justiça da medida, mas por colocar o seu papel de proprietária à frente das suas obrigações pastorais.

A uns e outros, que Deus lhe perdoe porque eu não sou capaz!

*  Publicado no Jornal Alto Alentejo de dia 18-05-16