quinta-feira, 17 de março de 2022

RUSSOS FORA DA UCRÂNIA/AMERICANOS FORA DA EUROPA!

 


“Felizmente nasceram branquinhos e de olhos azuis…”

A invasão militar da Ucrânia pelas tropas da Rússia suscitou por todo o chamado “Ocidente” uma imensidão de condenações e uma verdadeira onda de solidariedades.

Mesmo no país de onde partiu a invasão as manifestações de condenação e em defesa da Paz se fizeram e fazem sentir. Independentemente das razões que as “justificaram”, a favor da guerra só os loucos ou os que vivem do negócio da guerra e a quem a guerra faz “o negócio prosperar”.

Em Portugal e em particular na nossa região também tem sido grande a mobilização das populações, seja para condenarem a guerra, seja para se/nos solidarizarmos com as suas vítimas e particularmente, as mulheres e as crianças que procuram garantir a sua segurança fugindo das zonas atacadas.

Os países vizinhos e toda a União Europeia, a Inglaterra e outros países não integrados afirmam a sua solidariedade e organizam-se para retirar do teatro da guerra e acolher os muitos milhares de ucranianos idosos, mulheres e crianças que necessitam e procuram acolhimento e paz.

“Felizmente” (dentro da tragédia que os atingiu) nasceram “branquinhos e de olhos azuis” e não verão, como outros, a sua tragédia ser aumentada por arame farpado, recusas de entrada e morte mais ou menos acelerada. Ainda bem. Para eles e, talvez, para os milhões de refugiados a quem tem vindo a ser negada, quer a entrada nos países da União Europeia, quer as condições mínimas de sobrevivência.

Por cá, no nosso distrito, também temos assistido e saudamos as evoluções significativas na solidariedade com as vítimas da guerra ou da fome. São diversas as instituições que por solidariedade, por “moda” ou por marketing passaram da indiferença à ação.

Ainda bem que evoluíram. Espero que o façam com sinceridade embora, por mais que o tente, não consiga esquecer que em 2002, quando em representação da União dos Sindicatos procurava defender e apoiar os ucranianos e outros deslocados dos países do Leste, só encontrava ao meu lado os dirigentes e técnicos da Cáritas e a irmã Emanuel, uma freira em que o coração e a coragem eram inversamente proporcionais ao tamanho do corpo.

Os outros, muitos dos outros, afadigavam-se a ganhar dinheiro à custa da sua desgraça. Fosse alugando a preços indecentes qualquer buraco a que chamavam habitação, fosse sugando-lhes a força de trabalho a troco de migalhas.

Que a evolução seja uma realidade. Tanto mais que agora é a guerra que os “empurra” para cá.

Tenhamos esperança embora agora como antes, o posicionamento face à guerra não seja uniforme:

Uns, onde eu claramente me incluo são pela Paz e contra a Guerra, seja onde seja, envolva quem envolver:

Outros, demasiados, são contra a Invasão da Ucrânia e contra os Russos;

Outros, muitos, são contra a guerra se ela estiver perto da nossa/sua porta;

Outros ainda, são contra as guerras se estas não forem apoiadas pelos Donos Disto Tudo: os senhores da guerra e da propaganda.

E por último, também temos por cá, os inconscientes. Os que dizem querer Paz mas promovem a escalada do ódio.

Que a preguiça em separar a propaganda da informação e a iliteracia ou o preconceito que impedem a opinião informada, não nos leve a apoiar um novo desastre!

Que também aqui nos empenhemos a fazer o que tem que ser feito: apoio solidário a todas as vítimas da guerra que são agora as mulheres, as crianças e os idosos ucranianos que a guerra empurrou do seu país; gritar pela recuperação da Paz e batermo-nos com firmeza contra a Guerra, esteja ela onde esteja, atinja quem atingir.

Nesse percurso, lembremos aos governantes nacionais a necessidade de cumprir e fazer cumprir a nossa Constituição. Lembremos aos governantes do Mundo a necessidade de cumprir os acordos e resoluções que apontam como caminho para a paz o desarmamento e o fim dos blocos militares!

E no que aos exércitos diz respeito, gritemos bem alto e sem medo:

Russos fora da Ucrânia/Americanos fora da Europa!

Ainda é tempo!

Diogo Serra

quarta-feira, 2 de março de 2022

A Formiga no carreiro vinha em sentido contrário!

 


A formiga no carreiro vinha em sentido contrário…

 

À guerra não ligues meia

Porque alguns grandes da terra

Vendo a guerra em terra alheia

Não querem que acabe a guerra

(António Aleixo)

 

Os tambores da guerra voltam a rufar na Europa. É tempo de justificada apreensão e sobretudo de reflexão sobre as razões de não conseguirmos aprender com os erros, os nossos e os dos outros.

Antes de continuar esta reflexão que quero partilhar com os leitores do Alto Alentejo importa recordar-vos dois factos históricos e fazer uma “declaração de interesses”.

Os factos históricos:

- A União das Repúblicas Soviéticas Socialistas terminou, em 26 de Dezembro de 1991 por erros grosseiros e em alguns casos traição dos seus dirigentes e pela ação persistente e coordenada dos inimigos do (penso eu) futuro da humanidade, tendo dado lugar a um significativo número de países que acabariam por se distanciar do projeto soviético e integrar-se no capitalismo dominante.

O PCUS – Partido Comunista da União Soviética acompanhou o movimento de desintegração territorial “nacionalizou-se” e em cada país prossegue a luta pelos ideais em que acredita fazendo-o como sempre e em cada lugar, face às necessidades e nas condições em que age. Assim, o Partido Comunista da República da Rússia é o partido que lidera a oposição ao regime autocrático de Putin, enquanto o Partido Comunista da Ucrânia, que viu serem perseguidos e assassinados os seus militantes e ser declarado “ilegal” assume na clandestinidade o que entende ser a sua obrigação para com os ucranianos.

Agora a declaração de interesses. Enquanto cidadão português, convicto que o capitalismo não é, como não o foram os sistemas que o antecederam, o fim da história e que o futuro será, um dia, “De uma Terra sem amos, a Internacional” entendo Putin e o seu sistema autocrático tão desprezível quanto os regimes que a mando dos DNT semeiam guerras, fome e morte ao sabor dos seus mesquinhos interesses e condeno, agora como sempre, a invasão militar de um Estado soberano.

Terminada a “introdução” passemos agora ao que aqui me trouxe. Identifico-me com todos os que de forma sincera têm vindo a público mostrar a sua preocupação face ao novo conflito bélico que estalou na Europa. Revejo-me nas preocupações de quantos exigem o fim imediato da escalada belicista e na solidariedade com as suas vítimas que são, nesta como em todas as guerras, os que menos ou nenhuma culpa têm das razões que, quem as ordena pensam existirem.

Consigo perceber que muitas dessas vozes não tenham estado em situações anteriores, igualmente graves, algumas delas também na Europa, tão despertas como hoje, porque já cantava o Ary, “quando um povo acorda é sempre cedo”.

Não consigo é perceber como alguns de nós, pessoas vividas, cultas, “sensatas”, se deixem enredar pelo preconceito e não consigam sequer diferenciar a informação da propaganda e da contra propaganda.

Preocupação com a situação no Leste da Europa, envolvendo operações militares de grande envergadura da Rússia na Ucrânia, muito para além da região do Donbass, é por mim (e já agora pelo PCP, partido em que milito) claramente partilhada mas tal situação não pode/não deve permitir esquecimentos e mentiras: que não houve desmembramento territorial de países na Europa, esquecendo a destruição da Juguslávia e a carnificina que se abateu sobre ela; que um país, excepto a Rússia, tenha reconhecido independências de territórios pertencentes a países terceiros, veja-se de novo o passado recente no Kosovo, na Sérvia…ou fora da Europa o reconhecimento de fantoches auto-proclamados presidentes como o Juan Gaidó ou a sra Jeanine Añez, após terem fomentado o derrube dos Presidentes eleitos.

Também a questão da ocupação militar ou do fomentar de golpes de estado, assassínios, etc… aqui nem precisamos de sair do teatro de operações desta guerra: o que soubemos, calámos, ou dissemos do Golpe de Estado de 2014, que derrubou o governo legítimo na Ucrânia e em particular de que o estimulou e de quem dele beneficiou.

Por último, quando alguns de nós se procuram munir de justificações comparando situações vividas nos meses que antecederam a 2ª Grande Guerra, talvez valha a pena informarem-se melhor sobre quem são e o que fizeram e fazem alguns grupos militares que os órgãos da propaganda Ianque procuram transformar em heróis.

Sim, eu sei e concordo que os silêncios e omissões não devem impedir-nos nunca, agora também, de condenar a guerra e os seus mentores. Condenar a guerra, prestar solidariedade às suas vítimas e, sobretudo exigir a PAZ!

O que importa, a meu ver, é empenharmo-nos todos, no apelo à desescalada do conflito, à instauração de um cessar-fogo e à abertura de uma via negocial para a resolução pacífica do conflito na Ucrânia e à resposta aos problemas de segurança colectiva na Europa, no cumprimento dos princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia.

E aqui, em Portugal, onde intervimos, penso que valerá a pena empenharmo-nos na exigência do cumprimento da Constituição da República Portuguesa e em particular no seu artº 7º, nº 2 “… a dissolução dos blocos militares e um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.”

NÃO À GUERRA! VIVA A PAZ!

Diogo Serra*

publicado no Jornal do Alto Alentejo de 2-3-22

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

FUUUUJAM! Vêm aí os Russos.

 



No pasarón!

Os tambores da guerra voltam a rufar. Malandros os Russos!

Milhares de soldados russos fortemente armados encontram-se em manobras no México junto à fronteira com os Estados Unidos da América numa clara provocação bélica com o argumento, falso, de que os Estados Unidos estão a concentrar muitas tropas junto a essa mesma fronteira embora no seu próprio país. O argumento destes, (os americanos) certamente falso é o de que estão a proceder a exercícios normais para garantirem a operacionalidade do seu exército.

Tão assustador como concentração das tropas é o alarido que os russos estão a provocar por todo o mundo de forma a branquearem as suas intenções que são, sabemo-lo todos, a invasão do Texas e o facto real dos EUA terem descoberto a presença de um submarino russo no Golfo do México.

Os russos tem vindo a desenvolver uma intensa campanha diplomática “gritando” que não têm qualquer intenção de invadir o Texas mas os Estados Unidos e o “mundo livre” recusam essa versão, tanto mais que é sobejamente conhecida a prática dos russos em invadirem e espingardearem outros países e povos: atente-se às invasões do Iraque, da Síria, do Afeganistão, do Vietname, de Granada, de Cuba (Baía dos porcos) e do Panamá e os apoios aos golpistas do Chile, da Bolívia, da Venezuela e de Portugal.

Os EUA e os seus aliados têm sobejas razões para desconfiarem das palavras dos russos, tanto mais que, todos conhecemos a propensão destes para “cercarem” os EUA com bases militares e armamento nuclear estacionado nos estados vizinhos: Novo México, Oklahoma, Louisiana.

Claro que “no pasarón”. Todo o mundo “livre” responderá energicamente a quaisquer tentativas dos russos invadirem o Texas. Mesmo Portugal não deixará de o fazer e se dúvidas houvesse aí estão as palavras inteligentes e firmes do nosso ministro dos negócios estrangeiros.

Clarificada que está a nossa vontade em evitar mais uma invasão russa a um estado soberano e o nosso aplauso à clarividência do Ministro S.S. e às demonstrações de total independência do Governo Português  face ao invasor, é tempo de vos/nos recordar algumas situações que podem ajudar no momento do aplauso ou rejeição:

- A Rússia, a Bielorrússia, os Estados Unidos da América, a Ucrânia, os países que integram a União Europeia, estejam dentro ou fora do “braço armado do Capital” são, todos eles, países que integram, praticam e estimulam o Sistema Capitalista.

- A Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia já há muito não têm nada a ver com a União Soviética e o seu sonho de transformar o mundo numa Pátria sem amos, renderam-se ou foram reconquistados pelo capitalismo e nalguns casos a comportar-se ali, com a violência que o caracterizava nos tempos que antecederam a segunda grande guerra.

Assim, mais uma vez, os tambores da guerra voltam a rufar porque o sistema capitalista precisa da guerra para se manter à tona, para que alguns, poucos, continuem a acumular riquezas e poder mesmo que isso implique continuarem a fazer um caminho, como até agora, manchado de sangue.

Os senhores da guerra voltam à ribalta para um confronto, dentro do sistema capitalista, e mais uma vez para definirem se o poder dos actuais senhores pode e deve ser partilhado.

Que possamos evitá-lo. Que saibamos apagar o fogo em vez de o avivar.

Que países como o nosso que neste conflito não serão mais que vítimas “inocentes” não se comportem como mera claque de futebol, cega pelas cores do seu clube. Que os nossos S.S. – Santos Silvas tenham juízo ou vão embora, pelo seu pé ou empurrados.

Que o consigamos. Só assim poderemos aspirar a gritar (mais uma vez), No Pasarón!

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 



SEMEANDO NOVOS RUMOS!

“(…) Alentejo de esperança e de raiva, de muita labuta

de muitos sonhos e (algumas) conquistas.

Alentejo por aqui, dentro de cada um do nós Alentejo do nosso orgulho,

da nossa força, da nossa perenidade…”

Manuel da Fonseca

 

Quando este texto estiver nas mãos dos leitores do Jornal do Alto Alentejo já todos teremos conhecimento das decisões tomadas pelos cidadãos eleitores, estaremos a procurar compreender os resultados e, sobretudo a tentar perceber qual vai ser a tradução prática desses resultados para a sua região e para o país.

Não é essa situação no momento em que escrevo. Agora, no “imposto” dia de reflexão, quando os resultados das eleições está apenas no campo dos desejos, proponho-vos reflectirmos sobre as temáticas que as várias candidaturas trouxeram (ou não) à discussão e se elas são ilustrativas dos problemas sentidos.

Pessoalmente procurei reflectir no que cada uma das forças políticas e das candidaturas que promoveram ou apoiaram no nosso círculo eleitoral apresentou (ou escondeu) sobre a Regionalização do país e a criação do terceiro pilar do Poder Local Democrático, as Regiões Administrativas.

Esperei que as diferentes forças politicas em presença aproveitassem o momento eleitoral para nos colocarem quer a sua posição de partida sobre esta matéria, quer as propostas concretas para a sua implantação, agora que pela pressão dos autarcas, Presidente da República e Primeiro Ministro se viram “obrigados” a vir a terreiro reconhecer a sua necessidade.

Engano meu. As diferentes candidaturas que se apresentaram pelo nosso círculo eleitoral mantiveram os seus posicionamentos tradicionais: a CDU a reafirmar o seu propósito de continuar a bater-se pela sua concretização e as demais a fingirem que não sabem dessa necessidade.

Já as direções nacionais dos partidos até então com assento parlamentar não quiseram deixar de pronunciar-se, tanto mais que o próprio Presidente da República se viu “coagido” a lançar o tema em vésperas de eleição da nova Assembleia da Republica.

Das posições vindas a público e apesar das roupagens que as vestiam é fácil constatar que todos os partidos que construíram e votaram a Constituição da República se posicionam favoráveis à criação de serem discutidas as formas de descentralização politica e administrativa da governação do país. Dos partidos com grupo parlamentar, só o CDS não “aplaude” a Regionalização, na mesma linha do seu posicionamento face à Constituição que a consagra e que, como é sabido, votou contra.

Feita a constatação olhemos agora, com o olhar dos alentejanos, para a alteração, positiva, do posicionamento político de quantos, partidos e personalidades, estiveram por diversas vezes (demasiadas) em confronto com os defensores da Regionalização e com a vontade das populações que os elegiam.

Registemo-la e passemos à fase seguinte. Procuremos de imediato partir para a construção de convergências no desenho da Região Administrativa do Alentejo, das suas competências e da sua governança.

Há já trabalho (muito) feito. O acervo documental saído de cada Congresso sobre o Alentejo, que realizámos entre 1985 e o presente são a prova das potencialidades da Região e uma poderosa afirmação da vontade de milhares de homens e mulheres de contribuir para um Alentejo de progresso e bem-estar.

Em cada um dos Congressos realizados, que percorreram cada um dos distritos do Alentejo – do primeiro realizado em 1985 em Beja ao último que efetivámos em Castelo de Vide foi sempre sublinhada a importância da regionalização como um instrumento fundamental para a definição de uma verdadeira estratégia de desenvolvimento.

Que seja agora!

Diogo Serra


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 


“ Como está Sr. Contente

Como vai Sr. Feliz

Diga à gente, diga à gente…”

 

Durante alguns minutos espreitei o debate, anunciado como duelo decisivo, com que todas as estações televisivas em canal aberto distorceram a democracia entrando na campanha para promoverem os principais partidos do centrão dos interesses.

Não querendo detalhar as razões que em minha opinião justificam o tratamento de favor feito a essas forças políticas gostaria de trazer ao debate público algumas reflexões sobre temáticas que para quem vive e trabalha na nossa cidade e região deverão estar no topo das nossas preocupações, tendo à cabeça o facto de um distrito como Portalegre eleger apenas dois deputados no conjunto dos 230 que compõem o Parlamento Português.

Atentemos nesta realidade olhando-a de forma mais abrangente e tomando como área de análise toda a Região Alentejo. Neste amplo território que representa 1/3 do território Nacional são eleitos 3,7 % dos deputados e quantas vezes mais preocupados com os interesses do seu grupo do que com as necessidades e aspirações dos cidadãos e territórios por onde foram eleitos.

Há depois e a acrescer a esta situação, um conjunto de meias verdades ou puras falsidades que penalizam e dificultam a saída destes territórios (o Alto Alentejo mais que os restantes) do fosso para onde (n)os atiraram: São os esforços sem olhar a meios para o fomentar da bipolarização procurando garantir que a opção dos portugueses seja entre o Sr. Contente e o Sr. Feliz e que estes se mantenham como fiéis representantes do centrão (da política e dos negócios) que nos tem empobrecido desde 1976.

Com a campanha centrada não no esclarecimento e nas propostas de cada força política mas no espectáculo e no espalhafato e com a comunicação social diminuída na sua independência, seja pela dependência económica, pela dependência hierárquica aos grandes grupos financeiros, pela impreparação dos seus quadros (cada vez mais constituídos por batalhões de precários) ou pelo somatório de todas essas condições, os eleitores ficam reféns da opinião de uns quantos comissários que, usando o título de comentadores nos entram em casa a dizer-nos que o que ouvimos não foi o que ouvimos mas sim o que eles dizem que devíamos ouvir.

E assim, nos impigem que as eleições são para eleger o Primeiro-ministro e nos põem a opinar sobre a bondade do Sr. Contente ou as falhas do Sr. Feliz porque dizem-nos, será um deles a ser eleito primeiro-ministro no próximo dia 30.

Esquecem-se, querem que o esqueçamos, que estas eleições são para eleger 230 deputados para a Assembleia da República e que será a sua composição que definirá quem irá ser Primeiro-ministro e formar governo e será depois a sua apreciação a definir, se esse governo será ou não viabilizado.

Esquecem-se e querem que o esqueçamos quando 2015 ainda ali está bem visível na nossa memória.

Mas para nós tão ou mais importante que o sabermos quem irá formar o próximo governo é o sermos capazes de garantir que no Parlamento tenhamos a voz que nos tem faltado. Que o distrito de Portalegre possa ter voz pela palavra e pela acção dos deputados por aqui eleitos.

Mais, ou tão importante, do que dizem em campanha é garantirmos que entre os apenas dois que este território elege esteja quem possa e queira ser a Voz de todo nós.

A campanha ainda não começou (no dia em que escrevo este texto) e já nos prometeram tudo. Mesmo aquilo que recusaram há poucos dias, casos dos montantes do salário mínimo, a redução do horário de trabalho ou as promessas ciclicamente prometidas e esquecidas como as estradas que continuamos a não ter, a linha do Leste a dezenas de quilómetros da cidade capital do distrito e a funcionar pouco melhor que quando foi estendida até Badajoz, e isso foi no dia 24 de Setembro de…1863, a Escola da GNR que já nos levou várias medalhas municipais que não obtiveram retorno, etc,etc, etc…

Agora o tempo é de não nos limitarmos a escutar as promessas mil vezes repetidas e exigir que todos os actores locais (políticos, económicos e sociais) exijam e se exijam dar Voz ao distrito de Portalegre.

No território e na Assembleia da República serem/sermos a VOZ de Todos nós!

Diogo Serra

(publicado no Jornal do Alto Alentejo de 19-01-22)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

O (novo/a) REI SOL!

 


Le soleil c’ est moi!

A afirmação com que titulei o presente texto é atribuída a Luís XIV, rei de França do Século XVII e considerado pelos historiadores como o expoente máximo do absolutismo.

A frase veio-me à memória ao ler a declaração de voto apresentada pela Sra. Presidente da Câmara Municipal de Portalegre na reunião de 13 dezembro e a sua afirmação de que foi ela e não o partido por quem se apresentou e é dirigente, o PSD, quem ganhou as eleições que lhe garantiram a presidência que detém.

A frase não pode ser retirada do contexto, dir-me-ão. A Presidente de Câmara queria tão só ressaltar que não fora a CLIP (de quem procura apoio para governar) mas a Dra. Adelaide Teixeira quem perdeu (para ela) a Câmara Municipal da cidade capital do distrito.

Será assim? Posso acreditar, mas o que de imediato me veio à memória foram os “reinados” de outro “rei sol” que abandonou o barco quando este ameaçava naufragar e que fora, recorde-se, eleito pelo mesmo PPD que agora (parece) ser rejeitado pela Presidente de Câmara em exercício.

Mais, o que restou da gestão desse outro “Luís XIV” e da “regente” que deu seguimento a essa governação “absolutista” foi a total paralisação da cidade e do concelho, com a “natural” perda de gente e de qualidade de vida dos que teimam em ficar.

Foi também a razão da vontade de mudar que levou a que uma grande parte do eleitorado do concelho optasse por mudar embora, infelizmente (é a minha opinião) proporcionando uma volta de 360º e com tal atitude trocando a gestão PSD que substituíra a gestão PSD, por uma nova gestão do PSD.

Confuso? Talvez. Mas na verdade nos últimos 20 anos o Município de Portalegre foi presidido por um “Rei Sol”, um “Rei Sol – feminino) e agora, de novo no feminino, le soleil c’est MOI!

Mas, afirmou-o Manuel Alegre e cantou-o magistralmente o Adriano: Há sempre uma candeia, dentro da própria desgraça… e por isso insisto em acreditar que do absolutismo que se anuncia possamos ver nascer algum Versalhes. Possamos deixar de ter uma cidade em decadência e até, sonho dos sonhos, aspirar a que, a tão falada e necessária reindustrialização possa trazer até nós, alguns efeitos das bazucadas disparadas em Lisboa traduzidos em investimento produtivo, em capacidade de transformar o que de bom aqui produzimos, na possibilidade de mantermos os nossos jovens e atrairmos novas gentes.

Uma cidade que já ostentou o título de capital industrial do Alentejo, que viveu e cresceu a ouvir as sirenes da Robinson, da Fino’s e da Finicisa. Uma cidade que assistiu às metamorfoses desta última até chegar à actual Selenis, que viu nascer e partir a Johnson Control’s, pode e deve exigi-.

Uma cidade rica em produtos agroalimentares certificados que já teve no seu seio a mais importante marca no sector do Leite, a Serraleite entretanto sugada pelo capitalismo reinante, que criou e mantém as fabulosas Tapeçarias de Portalegre e as melhores tecedeiras do mundo e que mantém no seu ADN a cultura operária, pode e deve sonhar que é possível ultrapassar “este cabo das tormentas” e navegar com ventos e mar calmo até ao destino que merece.

E, também, como o escreveu o poeta e nos cantou Adriano, porque temos em nós a cultura operária, contra ventos e marés …há (haverá) sempre alguém que resiste, há (haverá) sempre alguém que diz não!

Diogo Júlio Serra

Publicado no Jornal do Alto Alentejo de 5-1-2022


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

NATAL DA MINHA INFÂNCIA.

 

NATAL É (COMO E) QUANDO O HOMEM QUISER

 


Ora ao Deus Menino 

em palhas deitado

a comer toucinho

todo lambuzado!

 

Zumba, zumba, zumba

Dá-lhe, Dá-lhe, dá-lhe,

Toca-lhe a Zabumba

Qu’ hoje é Noite de Natal!

 

Esta uma das cantigas que grupos de homens e rapazes munidos da “zabumba” para o acompanhamento musical entoavam pelas ruas da vila, com paragem a cada porta até esta se lhes abrir e lhes ser oferecido o pastel ou a filhó e, muitas vezes o copo de tinto acompanhado por pão e “marrã frita”[1].

Desde o anoitecer até à missa do galo, as cantigas e as paragens sucediam-se de forma ininterrupta.

Ao bater da meia-noite era a hora da missa do galo. Praticamente só frequentada por homens e rapazes e motivo de muito trabalho e preocupação para o Senhor Padre.

Era assim a parte pública do Natal em Arronches. As luzes apenas as dos “velhos” candeeiros espalhados pelas diferentes ruas da vila e, nalguns anos, da grande fogueira a arder no Largo da Cadeia.

Mas o Natal era muito mais que a parte trazida à rua nas vozes dos cantadores e no roncar das Zabunbas.

Muitos dias antes, no seio da família e em particular entre os mais novos, o nervosismo do Natal, fazia-se se sentir.

Nas famílias de maior tradição católica era a construção do Presépio na Igreja o maior factor de mobilização. Era necessário procurar e recolher o musgo, escolher e aprimorar as imagens, garantir a iluminação acertada.

A construção do Presépio era também “obrigatório” em cada núcleo familiar. A sua construção e decoração mudava conforme o escalão social e principalmente económico, de cada família. Só o simbolismo, o musgo e os pequenos espelhos que se transformavam em lagos ou ribeiras, eram comuns a todos eles. As imagens, de Jesus, de José e Maria, dos Reis Magos. As figuras do buro e da vaca, o estábulo e outros adereços iam desde os de cerâmica e de tamanhos maiores ou menores, aos desenhados em cartão e recortados, dos feitos pelas mãos habilidosas de pais ou irmãos mais velhos, com arame de fardo ou em cortiça sempre sob o entusiasmo barulhento dos mais novos de cada casa.

A Noite de Natal era para todos motivo de grande atenção e também ela se distinguia de acordo com as posses do cada um. A Ceia mais ou menos farta incluía sempre a “marrã frita” antecipadamente cortada e colocada a marinar em pimentão e massa de alho até ao momento da fritura e as filhós e os pastéis que mães e avós amassavam e recheavam na grande mesa junto à chaminé e o pai ou o avô fritavam no tacho com azeite bem quente colocado no meio do lume sobre a trempe de ferro.

Ao mesmo tempo e ao mesmo lume, a grande cafeteira de barro com água a ferver esperava que lhe fosse acrescentado o pó de café, de mistura ou puro, adoçado depois com açúcar branco ou louro, conforme as posses.

Apesar da brasa que ainda incandescente fora atirada para dentro da cafeteira para fazer juntar as borras no fundo da cafeteira, a mãe ou a avó tinha o cuidado de coar o líquido através de um guardanapo de pano branco para que só o líquido fosse distribuído.

Igual em todas as casas a “zabumba” previamente preparada pelo pai ou outro adulto da família que havia previamente ido colher um rebento de cana a um qualquer canavial nas margens da ribeira e havia guardado com a pele do coelho bravo, que fora almoço ou jantar em dias anteriores e a panela de barro que deixara de ser usada na cozinha ou que a mãe “emprestara” para o efeito.

Com toda a família na chaminé à volta do lume bem aceso comiam-se as iguarias, tomava-se um licor que a avó fizera e todos cantavam ao Menino acompanhados pelos homens e rapazes que tocavam a zabumba.

A noite terminava em tempos diferentes conforme a idade.

As crianças, feitas as despedidas, e colocado o sapatinho ao canto da chaminé para que o Menino Jesus as premiasse com uma prenda iam para a cama onde a excitação sobre se iriam ou não ter alguma prenda, fazia atrasar o sono.

Os adultos continuavam a “Ceia” por mais algum tempo esperando que as crianças adormecessem e os rapazes regressassem da missa do galo para distribuírem pelos sapatinhos as prendas “do Menino Jesus”: um chocolate, uma peça de roupa um brinquedo construído em ferro, cortiça ou madeira, por um Pai mais “artista” e, para alguns mais sortudos…aquela boneca de cartão comprada às escondidas na última feira ou sorte extrema, aquela boneca que abria e fechava os olhos contrabandeada pelo doador ou adquirida ao contrabandista que todos conheciam.

No outro dia, para a criançada era o ponto alto da festa. Saltar da cama e correr para a cozinha ver o que tinham no sapatinho eram ritual por todos assumido.

O desenrolar dos “embrulhos” e o admirar e exibir das pendas e o distribuir de beijos pelos adultos eram a recompensa que todos os pais e avós tinham direito.

Em minha casa, também assim era. Lembro ainda como me senti o mais sortudo dos “gaiatos” no ano em que ao lado da sapinho com o pai natal e o coelho de chocolate estavam dois enormes embrulhos que continham uma carroça em tamanho pequeno feita pelo meu pai (mestre carpinteiro) e um cavalo de cartão, montado num estrado de madeira munido de pequenas rodas de ferro, adquirido em segredo na última feira de Maio e guardado até poder ser agora equipado com a carroça, objecto da minha enorme alegria e vaidade que me levou em desfile, a casa de todos os familiares exibindo-os por toda a vila.

Era, ainda, um Natal mais de comunhão que de comércio. Era mais que o Dia em que a Igreja Católica comemora o nascimento de Jesus, o Dia da Família. De todas as famílias!

 

Diogo Júlio Serra



[1] Marrã frita – independentemente do sexo do animal esta proteína (toucinho e presa) depois de devidamente temperada e frita passa a feminino e o seu nome é, desde há muitas décadas: marrã frita.