segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Não Passarão!

 




E se Abril ficar distante
desta terra e deste povo
Nós temos força bastante
Prá fazer um Abril novo.

Os resultados eleitorais de ontem deixaram-me magoado e preocupado.

Frente ao televisor, bombardeado pela verborreia dos comentadores que se afadigavam a replicar a sua nefasta actuação nos últimos tempos e mais uma vez sem a presença da voz da candidatura que ao longo de centenas de horas ocultaram, deturparam e atacaram foi-me difícil resistir à reacção a quente e, por isso, quase sempre incorrecta.

Muitos amigos e companheiros não conseguiram resistir e aí estão a declararem-se envergonhados de serem alentejanos, a acusarem os seus/nossos amigos e vizinhos de traição às ideias, aos antepassados à nossa cultura e à nossa região.

Amplificam as mentiras e o ódio de quantos pensam ter chegado o momento para ocuparem o território e as nossas gentes com as políticas do ódio.

Vamos lá por os pontos nos is.

Quem se pode e deve envergonhar-se dos resultados eleitorais que na nossa região e quase na totalidade do país, reelegeram uma personalidade assumidamente de direita e colocaram em segundo lugar o megafone de quantos sonham com o regresso das ditaduras terroristas de capitalistas e agrários e semeiam o discurso do ódio e da divisão, são os que neles votaram e os que com as suas práticas tacticistas permitiram a eleição à primeira volta do representante da direita democrática.

Quem tem que se envergonhar (se tiverem vergonha) são os que trocaram o jornalismo pelo megafone, e a liberdade (a sua e a do país) por um qualquer cargo de manajeiro dos patrões, bem remunerado mas servil.

Eu, e muitos outros, a maioria dos que não desertámos, podemos e devemos sair à rua, já o fiz, de cara bem levantada.

Cara ao alto porque fiz o que tinha que ser feito. Porque com muitos outros, me empenhei esclarecimento possível, na divulgação das propostas, do candidato que apoio, no combate, sempre, pela liberdade e pelos direitos que a nossa Constituição garante.

Fiz ao longo da campanha eleitoral o que faço no dia a dia: lutar pelos direitos dos que aqui vivem e trabalham e tentei que juntos pudéssemos levar toda essa luta até ao voto.

Mas, sobretudo, cara ao alto porque hoje, amanhã e sempre cá estarei, cá estaremos, a combater as políticas xenófobas e do ódio, a exigir que o pós pandemia não seja tão letal como o vírus, a afirmar que a pandemia não se combate com o restringir das liberdade, que é fundamental valorizar o trabalho e os trabalhadores.

Cara ao alto porque aqui estamos a renovar a esperança e a confiança.

Envergonhados? Era o que faltava!

Aqui estamos orgulhosos e firmes na defesa do regime democrático e imunes aos profetas da desgraça e da divisão.

E, como diz a canção da resistência e um camarada hoje bem lembrou " cada fio de vontade são dois braços e cada braço uma alavanca.”

 

No pasarón!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

QUE NINGUÉM FIQUE PARA TRÁS!

 


Que ninguém fique para trás!

 

De novo com as liberdades “cassadas” enquanto crescem os números de doentes e mortes em Portugal e no mundo por acção de um vírus que, comidas as filhós e visionados os espectáculos do fogo preso, voltou mais robustecido.

Mais uma vez os governantes foram mais rápidos a cercear do que a garantir os nossos direitos constitucionais.

Iniciou-se um novo “sequestro” de pessoas e empresas enquanto no sector da saúde só as palmas e as palavras que o eleitoralismo impõe, chegam aos profissionais e aos serviços há muito exauridos de pessoal, meios materiais e organização e a necessitarem mais do que aplausos da coragem dos decisores.

O nosso território é nos dias de hoje a montra que nos mostra tudo o que de melhor e de pior se passa no país.

Aqui, como em todo o país, os trabalhadores e os serviços que garantem as primeiras linhas de combate à doença, continuam o combate diário para salvar vidas, a garantir-nos a produção e distribuição dos bens alimentares, a higienização e a limpeza, o ensino aos nossos filhos e a guarda e os cuidados aos nossos idosos, os que garantem a nossa segurança. Continuam a fazê-lo de forma abnegada, agora mais cansados e fragilizados pelas baixas que também a eles tem sido infligidas.

Fazem-no esquecendo as suas próprias dificuldades e problemas e fingindo acreditar que os meios humanos hão-de ser reforçados, que os meios matérias e o justo reconhecimento do seu labor (para além das palmas) também irão chegar.

No Norte Alentejano, como no país, alguns autarcas arregaçaram mangas e integraram-se no combate sem perdas de tempo ou discussões sobre o que eram ou não competências suas, mas também vimos os outros que mesmo cercados pelas dificuldades dos seus munícipes continuaram a assobiar para o lado ou, pior, a protegerem apenas a sua vaidade e os seus amigos.

Com o tecido produtivo a meio gás, com as micro-empresas, os empresários em nome individual e os trabalhadores por conta própria, que são a maioria dos empregadores, encerrados ou sem clientes e assim condenados a engrossarem a legião dos desempregados, a perda de rendimentos das famílias faz disparar o número de pedidos de apoio, nomeadamente de bens alimentares e faz emergir mais e maiores bolsas de pobreza.

O “xico-espertismo” também se fez notar. Desde logo pela mão dos que, quais aves de rapina, procuraram absorver a totalidade dos fundos e apoios disponibilizados a empresas e trabalhadores, se aproveitaram da situação pandémica para despedir todos os que por serem precários não lhes impediam a candidatura ao “subsidiozinho” apesar de saberem que, por serem precários, aqueles não teriam quaisquer apoios.

Também existiu o muito bom. Entre esses exemplos um sector que tem vindo a sofrer de grandes e injustas recriminações: as instituições que garantem a guarda e os cuidados dos nossos idosos, muitas delas locais de heroísmo.

O medo, a “injusta” situação de confinamento a que foram e estão sujeitos os seus utentes, a dor que as infecções e mortes verificadas e que continuam nos causavam e causam, levaram-nos mais vezes do que deveriam a desviarmos para eles as críticas e acusações que outros devem assumir. Por tudo isso, para quantos no distrito de Portalegre e nas outras regiões esquecidas (todo o interior) cuidam dos nossos idosos: direcções e todos os seus trabalhadores, uma palavra de enorme apreço. Tão forte quanto a acusação a quantos no governo e nas suas “sucursais” no território pretenderam fingir que não sabiam que os nossos lares não poderiam nunca aplicar, sem meios, os muitos planos de contingência que à distância foram rabiscando.

Fingiam e fingem não saber que enquanto mantiverem as formas de financiamento actuais (uma comparticipação fixa - e igual para todo o país- complementada com as pensões e reformas dos utentes) as instituições do interior com utentes que recebem pensões de miséria e familiares que recebem o salário mínimo, nunca sairão dos patamares da mera sobrevivência.

Agora, em que de novo é preciso o contributo de cada um para ajudar travar a doença e aliviar a brutal pressão sobre os estabelecimentos hospitalares, que saibamos todos resistir ao discurso do ódio, às pequenas vaidades que por vezes nos cegam e afirmemos a nossa condição de cidadãs e cidadãos solidários e actuantes.

Sim, e que não deixemos ninguém para trás!

 

Diogo J. Serra

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Do Grémio Planetário ao Grémio Transtagano

 


O Grémio Transtagano –uma instituição da cidade

Das diversas associações cívicas e culturais que ao longo do último século deram vida à cidade e ao concelho só a Sociedade Musical Euterpe, a Associação dos Bombeiros, a Associação Comercial, a Sociedade Musical Alegretense, a Cooperativa Operária e o Grémio Transtagano resistiram e, menos ainda, continuam com funcionamento regular uma vez que a Associação Comercial se encontra encerrada.

No passado dia 3 de Dezembro em Assembleia Geral, os meus companheiros do Grémio Transtagano concederam-me a honra de presidir a equipa que irá dirigi-lo no próximo mandato.

É uma honra, mas é também uma enorme responsabilidade. Não apenas por continuar a fazer caminho com uma instituição com mais de um século mas, sobretudo, para darmos continuidade ao lema que norteou todos quantos a dirigiram, desde os fundadores Capitão Nunes da Silva e Coronel Velez Caroço, ao último dos seus presidentes o Professor Doutor António Ventura: Defender a Cultura e os Direitos Humanos, servir Portalegre.

O Grémio Transtagano que nasceu em 1916 com o nome de Grémio Planetário assumiu-se desde o nascimento como uma associação Recreativa e Democrática, defensora da Cultura e dos Direitos humanos. O seu nome e a sua acção estão ligados ao nome de Portalegre e desde logo através de uma das suas primeiras iniciativas: a instalação na nossa cidade do Monumento aos Mortos da Grande Guerra e, cem anos depois, às cerimónias com que assinalámos o centenário do fim da Guerra.

Nos últimos tempos e após a sua revitalização em 2016 (quando se cumpria o seu centenário), o Grémio Transtagano organizou conferências, exposições documentais e bibliográficas e nos últimos meses procurou, na medida das suas possibilidades, ajudar as instituições de solidariedade no combate à pandemia que nos atinge.

Lembro com enorme emoção duas iniciativas realizadas na sua sede, na Rua Tenente Valadim. A exposição documental sobre Mouzinho da Silveira e a Conferência Integrada nas Comemorações do Centenário do Armistício que teve como Conferencistas o Professor Bentes Bravo (o monumento aos mortos da Grande guerra) e o Professor Doutor António Ventura (do Grémio Planetário ao Grémio Transtagano) que contou com a presença da Sra. Presidente da Câmara e do Sr. Presidente da Comissão de Evocação dos 100 anos da Grande Guerra.

A situação pandémica que nos atinge e a necessidade de a combater tem imposto dificuldades acrescidas à vivência regular das populações e à actividade das instituições. O Grémio como quaisquer outras associações tem que saber reinventar-se para continuar o caminho.

Assim vai ser no próximo mandato.

Já em 2021 o Grémio Transtagano comemora 100 anos com a “nova” designação e quer comemorá-los dignamente.

As conferências, os debates e as exposições desenvolver-se-ão utilizando os meios e as técnicas que minimizem os riscos e os impedimentos de contactos próximos e, quando o for possível, estimulando o contacto directo e fraterno entre portalegrenses. E como sempre, afirmando-se sem dependências ou intuitos que não sejam servir a cidade e a região.

Diogo Júlio Serra


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

GATO ESCALDADO...

 

GATO ESCALDADO…*

No passado dia 26 foi assinado na nossa cidade um protocolo de colaboração entre o nosso Município, o Instituto Politécnico de Portalegre e a Softinsa/IBM que, visa instalar no Bio Bip, um Laboratório especializado em soluções tecnológicas para as Cidades Inteligentes.

Como portalegrense (por opção) e como autarca empenhado no desenvolvimento do concelho e na melhoria das condições de vida e de trabalho de todos os portalegrenses, não deixei de reagir com agrado ao anúncio da implantação de uma importante unidade, não apenas pelos empregos a criar mas também por poder vir a transformar-se num importante factor de atracção e fixação de jovens estudantes e quadros técnicos.

Penso, que terá sido essa a reação da maioria dos portalegrenses que ainda acreditam no futuro do seu concelho. E no entanto…

No entanto, passados os primeiros momentos de euforia, não consigo deixar de recordar outros anúncios e outras unidades que, também eles se nos anunciavam como projectos de futuro e geradores de desenvolvimento e modernidade e, nunca passaram de expectativas ou que rapidamente se transformaram em enorme problema.

São campainhas que gritam GAMEINVEST - o nome da empresa de edição de jogos de computador, sedeada no antigo edifício/sede do Município e que havia mobilizado a cidade, incluindo as poupanças de alguns pequenos comerciantes locais.

Campainhas que teimam em trazer-nos à lembrança que, esta cidade que já foi capital industrial da região e viu encerrar a maioria das suas unidades industriais, vê agora multiplicarem-se, não as empresas industriais que necessita mas aquilo que nuestros hermanos intitulam de semillero de empresas e que, face à ausência de empresas ou são os semilleros ou são as semilhas que não são adequados para que a seara dê frutos.

Desta vez pode ser diferente digo-me! Quero agarrar-me a essa ideia, mas como alicerçar essa vontade?

Porque desta vez para além da Câmara Municipal estarão também uma multinacional e o nosso IPP. Pois…

Não tenho quaisquer dúvidas sobre o empenhamento, a vontade e a seriedade de nenhum dos subscritores do protocolo e no entanto, por mais que o queira vem-me à memória as ilusões e as duras realidades que nos deixaram as decisões de multinacionais como a Johnson Control´s.

A alegria de ver nascer e os custos de ver morrer uma outra Semente, a Associação ICTVR - Centro Internacional de Tecnologias de Realidade Virtual, dita então (como agora) como um instrumento fundamental para nos garantir o futuro e que resultava também de uma parceria, entre o município e o politécnico (uma das suas escolas) que sabemo-lo, dolorosamente nem um nem outro conseguiram evitar.

Que a minha memória seja apenas e só memória. Que o Laboratório a instalar no Bio Bip atinja os objectivos anunciados e esperados. Que tal infra-estrutura seja um factor de atractividade de investimentos e quadros. Que Portalegre volte a ser um território de futuro e a nossa cultura operária seja entendida com recurso. Que deixemos de estar confinados face aos ventos de reindustrialização que parecem soprar por toda a Europa.

Mas como diz o ditado popular, gato escaldado de água fria tem medo!

Diogo Júlio Serra

* publicado no Jornal Alto Alentejo de 9-12-2020

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Quando o futebol e a política se cruzam...

 


Quando o futebol e a política se cruzam…*

Os amantes do “desporto- rei” facilmente recordarão casos de futebolistas que nos escalões juvenis se mostravam como jovens talentos a quem “todos” auguravam o estatuto de estrela e, depois, chegados a séniores não ultrapassavam a mediocridade ou simplesmente desapareciam.

Todos eles, também não terão dúvidas em apontar alguns nomes de “craques” com posturas que os nossos “hermanos” designam de “peseteros”.

Felizmente, reconhecemo-lo todos, a grande maioria são profissionais sérios e competentes e são muitos os que, apesar das obrigações profissionais, continuam com “amor à camisola”.

Na política, mais concretamente na política local (dentro de partidos tradicionais e dos agrupamentos que gostam de fingir que o não são) também é comum assistirmos a manifestações de igual teor. Também por cá temos vindo a assistir a manifestações de alguns que enquanto “jótinhas” se apresentavam como craques e, chegados a sénior, apesar de estarem permanentemente em “bicos de pés”, não conseguem ultrapassar a mediocridade. Igualmente, também aqui, se têm manifestado posturas “peseteras” com a mudança de clube ao sabor dos ventos e…das perspectivas “peseteras”.

Mas também no governo da Polis, a maioria mantém uma postura de enorme respeito pela “coisa pública” e entre esses, é numeroso o grupo dos que se continuam a jogar “por amor à camisola”.

É com estes últimos (existentes em todos os grupos políticos) que os portalegrenses contam para que consigamos ultrapassar a gravíssima situação sanitária que vivemos, os seus nefastos resultados e a crise social que já se vislumbra e que tenderá a prolongar-se, mesmo depois de ultrapassada a pandemia actual.

Importa pois que, estes “jogadores“ verdadeiramente empenhados na governança deste território, com visões táticas diversificadas, consigam concordar na estratégia necessária ao futuro da cidade e do concelho. E que neste “jogo da vida” mesmo jogado sem público nos estádios possam ser apoiados por cada portalegrense.

No momento que escrevo (sábado) a informação disponível diz-nos que num distrito com 357  infectados covid, activos, 163 são conterrâneos nossos e que o nosso Hospital Distrital atingiu a ocupação total de camas covid, apetrechadas com ventilador para combater os casos mais graves. Que os trabalhadores da saúde, estão esgotados e alguns deles também infectados. Que não estamos a conseguir salvaguardar os nossos idosos, institucionalizados ou não. Que o desemprego cresce e com ele, a pobreza que entrou já em muitos lares.

E todavia, continuamos a ver quem por desconhecimento ou má formação persiste em pôr-se como centro do mundo, não acatando as orientações das autoridades de saúde, persistindo nas festarolas e nas “tampinhas de Whisky” infectando-se e infectando outros, incluindo cuidadores e técnicos de saúde, e contribuindo assim, para o encerramento de locais de trabalho, instituições de apoio a idosos e a crianças e serviços hospitalares.

Mas é, ainda, um tempo de esperança. O país e a região foram/serão dotados de meios financeiros avultadíssimos que poderão, assim os homens o queiram, ajudar na minimização das dificuldades actuais e no investimento necessário a projetar-nos para patamares diferentes daqueles,  onde as politicas centralistas dos governos centrais e a cegueira politica de diversos actores locais nos impuseram.

A nossa cidade e concelho podem (e devem) agora aproveitar este envelope financeiro e os ventos de reindustrialização que percorrem a Europa, para voltarem a ser a Capital Industrial que já fomos e que a nossa cultura industrial poderá potenciar.

Não nos percamos na “baixa política”, arregacemos as mangas e façamos da unidade na acção a força que a densidade populacional nos nega.

  Haverá um tempo para assacar responsabilidades pelo que cada um fez, ou não fez, mas o tempo, hoje, é de ganhar esta batalha.

Diogo Júlio Serra

*publicado no Jornal do Alto Alentejo de 18-11-2020

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

... É a hora!

 



SE É A DIFICULDADE QUE AGUÇA O ENGENHO…É A HORA!*

A tomada de posse, no passado dia 29 em Coimbra, de Ceia da Silva como Presidente da CCDR Alentejo encerra um período de propaganda e enganos com que o governo central procurou mascarar a sua dificuldade em abrir mão de quaisquer migalhas do seu poder “absolutista”.

Abre-se agora uma nova etapa para a Região Alentejo que, volta a ter na Presidência da CCDR um regionalista confesso, uma personalidade empenhada na promoção e valorização do Alentejo e de cada uma das suas sub-regiões.

Infelizmente, como bem o sabemos, de pouco serve termos um Regionalista a presidir a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento quando esta se mantém como um instrumento das políticas centralistas e ferreamente controlado pelos governos “de Lisboa”. Todavia e apesar disso, o trabalho desenvolvido pelo actual Presidente nas estruturas que presidiu e o seu apego à acção directa fora dos gabinetes, leva-nos a alimentar a esperança de que também ali, lhe seja possível, para nosso bem, “roubar” poder ao poder!

Não vai ser fácil, reconheçamo-lo. A “democracia” acabou no momento da tomada de posse porque, é a legislação que o consagra, nesse momento deixa de estar “ligado” a quem o elegeu – os autarcas do Alentejo – e responde directamente ao governo centralista e centralizador que o pode demitir se e quando o entender.

Posto isto, é tempo de nos virarmos para aquilo que depende de nós.

No nosso distrito e na nossa cidade, o tempo tem que ser agora. Um tempo de trabalharmos, todos, para garantirmos que não vamos continuar arredados do esforço de modernização e de desenvolvimento e poderemos, agora, ver minimizados alguns dos principais constrangimentos com que há muito nos debatemos e cuja parte mais visível, é a constante perda e envelhecimento da nossa população.

As propaladas políticas de desenvolvimento e os envelopes financeiros que as suportam, não podem continuar a passar-nos ao lado. As infraestruturas tantas vezes prometidas e sempre esquecidas não podem repetir-se. A escola de formação da GNR, o empreendimento de fins múltiplos do Pisão, a electrificação total da Linha do Leste e a sua vinda a Portalegre, a modernização e apetrechamento dos hospitais distritais e a construção do Hospital Central do Alentejo e as necessárias vias rodoviárias há muito reclamadas têm que ser conseguidas.

Só assim estaremos em condições de beneficiar dos ventos que apontam para a reindustrialização da Europa, voltando a ter, no distrito e no concelho, a capacidade produtiva capaz de aproveitar a cultura industrial que ainda hoje mantemos.

Para tanto, é fundamental conseguirmos unir esforços de todos os actores locais, fazer da unidade na acção a força que, a distância dos centros do poder e a escassez populacional não nos garante.

É fácil? Claro que não! Mas é possível, assim o queiramos.

Diogo Júlio Serra

* publicado no Jornal Alto Alentejo de 4-11-2020

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Erradicar a pobreza? Pois...

 



ERRADICAR A POBREZA? POIS…

No passado dia 17 assinalou-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, num tempo em que esta não para de aumentar.

Desta vez, fruto da pandemia que nos atinge, não vimos por cá nenhuma daquelas manifestações propagandísticas com que alguns nos procuram hipnotizar e outros entendem poder expiar a sua própria culpa.

Entretanto são diversas as instituições a denunciarem as desigualdades crescentes:

A FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura denuncia que 690 milhões de pessoas (1 em cada 10 pessoas que habitam o nosso planeta) padeciam de fome em 2019 e que este ano se lhes juntarão mais 130 milhões, estudos recentes evidenciam que a fortuna dos muitos ricos cresceu apesar da crise sanitária à escala global.

No país a construção/aprovação do Orçamento de Estado tem lugar num tempo em que a pandemia infecta e mata a cada dia que passa enquanto diminui drasticamente, fruto do desemprego, da diminuição dos salários e pensões e da destruição dos pequenos negócios, o rendimento dos trabalhadores e das famílias com as estatísticas a revelarem que 1 em cada 10 trabalhadores empobrecem a trabalhar.

A nossa região e o nosso concelho são, por características próprias, dos mais atingidos pela perda de rendimentos e pelo empobrecimento.

Conforme tem vindo a ser denunciado pelos responsáveis sindicais e de diferentes entidades de solidariedade, os números do desemprego registado não param de crescer, o trabalho precário e mal pago, as reduções de horário e de vencimento, o regresso dos salários em atraso atingem fortemente as famílias, levando a um aumento muito significativo dos pedido de ajuda de bens alimentares e de apoio para pagamento da renda e dos seus consumos.

Nesta situação de alastramento da pobreza para a maioria são ainda mais condenáveis quer os aproveitamentos dos que dela se servem para aumentar fortunas mas também as posturas dos que podendo, nada ou pouco fazem para minorar o empobrecimento.

Atendamos às posturas, diferentes, com que a pobreza (que todos dizem querer erradicar) é encarada.

A nível global só a voz do Papa Francisco consegue fazer-se ouvir "Persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo económico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra parte vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados". (Carta Encíclica Fratelli Tutti)

No país e quando o governo de António Costa se afadiga no convencimento aos partidos à sua esquerda da imprescindibilidade de ser aprovado o Orçamento, o que deste se conhece é que ao contrario do propalado é um orçamento de austeridade. “Um O.E. que aumenta os impostos em 2.839 milhões€, que congela pensões superiores a 659€ e que aumenta as de valor inferior apenas entre 2,6€ e 4,2€ por mês e só para entrar em vigor em 1/8/2020, que congela novamente os salários dos trabalhadores da função pública, que reduz a despesa com a educação e não reforça as transferências para o SNS, em que o investimento público é insuficiente pois é pouco superior ao consumo de capital fixo, é certamente um orçamento de austeridade. (Eugénio Rosa, economista)

Na nossa cidade e concelho, onde desta vez não foi possível o show off com árvores vestidas de malha ou quaisquer outras “invenções”, a situação é ainda mais gritante com o  aumento do desemprego, a precariedade e diminuição dos salários, a perda de rendimentos dos pequenos comerciantes e prestadores de serviços obrigados a encerrar ou que viram diminuir drasticamente as vendas e rendimento.

Uma situação que veio agravar e muito, as precárias situações de muitos portalegrenses.

Esperar-se-ia que o Governo do Concelho reagisse criando as condições de apoio necessárias ao minimizar de tão graves situações.

Não foi assim. O Executivo CLIP mais, (muitas vezes) o ombro amigo que o ampara, não só não avançaram com medidas como foram sistematicamente chumbando as propostas para alivio das famílias, ali levadas por vereadores da oposição: a suspensão da cobrança de água ou do estacionamento de superfície, a implementação de subsídios de risco para funções essenciais (como a recolha de lixo, a limpeza urbana, os transportes públicos, ou a manutenção do espaço público, entre outras...), os apoios às associações culturais e desportivas, os apoios escolares em computadores para o ensino à distância ou na aquisição de livros de fichas no regresso às salas de aula, etc...

Não há dinheiro, costuma dizer-se. Não é o caso!

Na primeira reunião de Outubro o saldo de tesouraria era de 3 milhões e, conforme tem sido amplamente denunciado a Câmara de Portalegre decidiu adquirir três imóveis por mais de 200 mil euros para “alugadar” a uma empresa da cidade a quem desde 2005 vem pagando a renda de armazéns que esta ocupa.

Para que nem sequer aceitou distribuir à população mascaras sociais ou prescindir de qualquer parcela dos impostos em benefício dos portalegrenses, apoiar em quase meio milhão de euros uma só empresa é ilustrativo de quem o faz.

Isto surpreende-me? Não. É a luta de classes!

 

Diogo Júlio Serra

* publicado no Jornal Alto Alentejo de 21-10-2020