quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PATRIMÓNIO INDUSTRIAL E OPERÀRIO, UM TESOURO POR DESCOBRIR

Património industrial e operário de Portalegre, um tesouro por descobrir.
A Cooperativa Operária Portalegrense!*


Portalegre foi, a partir do século XVIII, uma cidade de forte implantação industrial.
A Decisão do Marquês de Pombal em instalar aqui a “Real Fabrica de Panos” marca o início de um percurso que chegou até aos nossos dias.
Aos “panos” da Fábrica Real instalados no antigo Colégio dos Jesuítas, no Convento de S. Sebastião[1], seguiram-se diversas outras atividades, nos lanifícios e nos têxteis, na cortiça, no sector alimentar e, mais recentemente, a indústria de componentes para automóvel, os polímetros e os lacticínios.
Essa intensa atividade industrial e operária legou-nos um significativo património que pode e deve ser potenciado de forma a preservar as memórias e a garantir e melhorar a atratividade turística do concelho.
A cidade que durante décadas ostentou o título de capital industrial do Alentejo foi-o, de facto, no século XIX e meados do seguinte.
A aposta de uma família inglesa, os Robinson, na compra da “fábrica da Rolha” instalada no Convento de S. Francisco e a sua transformação numa moderna unidade industrial que detinha desde a matéria-prima até aos canais de exportação da matéria produzida, as rolhas de cortiça e empregava centenas de trabalhadores, cimentava esse título.
O peso da atividade industrial que transformou a cidade e o concelho, foi também “construindo” a consciência operária e a necessidade de organização. Primeiro a partir de organizações mutualistas e cooperativas, depois nas associações de classe.
Aos Montepios, entre os quais o integrado numa filarmónica, a Euterpe, e que chegou aos nossos dias, seguiram-se novas formas de organização: a Sociedade União Operária[2], a primeira organização não mutualista e com uma significativa participação operários corticeiros e a Cooperativa Operária Portalegrense fundada em 1878 por quarenta e um cidadãos de Portalegre dos quais quarenta eram operários corticeiros e o quadragésimo primeiro, guarda-livros da empresa onde todos trabalhavam – a Corticeira Robinson.
É esta entidade, ainda hoje em atividade, que queremos dar-vos a conhecer.
A Cooperativa Operária Portalegrense, fundada em 1898[3] para dar resposta às cíclicas faltas e carestia de pão, manteve-se ininterruptamente em atividade ao longo dos seus 118 anos.
A sua primeira atividade foi o transformar em pão a primeira saca de farinha comprada com o produto da quotização feita entre os seus fundadores. O lucro gerado foi aplicado em mais farinha e no fabrico e venda de mais pão.
Sete anos depois da sua fundação, inaugurava a sua sede, um imponente edifício onde se mantém até hoje e que ocupa todo um quarteirão da rua com o seu nome.
Ao longo da sua longa existência a Cooperativa Operária Portalegrense passou por momentos bons e menos bons, por períodos de maior ou menor dificuldade mas soube sempre afirmar-se como baluarte do associativismo operário e popular. Atravessou vários períodos da nossa história e contribuiu para a construção, em cada momento, dos caminhos do futuro. Fê-lo, sabendo estar sempre do lado certo da história.
Fundada nos últimos anos da monarquia foi centro difusor dos ideais republicanos e local de discussão e organização operária. Nas suas instalações fez-se história.
No salão da cooperativa ocorreram as reuniões constituintes das primeiras associações de classe e digladiaram-se os ideais do republicanismo, do socialismo e do anarco-sindicalismo. Afinaram-se estratégias e organizaram-se solidariedades enquanto as vendas da loja da cooperativa, durante décadas o maior “estabelecimento comercial” da cidade, garantiam o financiamento necessário às suas muitas atividades que incluíam, a partir de 1912, uma escola para os filhos dos operários da cidade.
O Salazarismo que impôs o encerramento das organizações operárias e sindicais[4] empurrou-a para a condição de “casa-abrigo” de quantos pugnavam pela defesa das condições mínimas de trabalho e de vida e a Cooperativa (era assim que todos a tratavam) assumiu-se como a única organização operária no concelho que mais direta ou mais dissimulada, mantinha viva a cultura operária da cidade.
A loja da cooperativa que comercializava todos os bens de primeira necessidade, alimentos e bens de uso familiar e manteve até ao fim a sua atividade primeira- o fabrico de pão, garantia os recursos financeiros para as diferentes ações e era também o braço solidariamente estendido às famílias que não tinham como pagar, a pronto, os bens de que necessitavam.
 O aparecimento dos super e hipermercados e os novos hábitos de consumo ditaram o fim da Cooperativa de Consumo deixando a parte social sem os meios necessários ao seu funcionamento. Apesar disso, a Cooperativa Operária Portalegrense manteve-se até hoje viva e atuante, assumindo-se como espaço de convívio e de memórias e olhando-se como peça essencial ao desenvolvimento que queremos para a cidade e para a região.
Hoje, quando já desapareceram muitas das instituições que nasceram no mesmo século e são notórias as dificuldades em preservarmos com dignidade o património edificado onde funcionaram: a fábrica Robinson, a Sociedade União Operária, ou o Teatro de Portalegre, é motivo de redobrado de orgulho para todos os portalegrenses constatar que apesar das dificuldades, a Cooperativa Operária Portalegrense mantem acesa a chama da solidariedade e do desenvolvimento para Portalegre.
Definindo novos objetivos e funções a Cooperativa Operária Portalegrense continua a ser o depositário das nossas memórias e um exemplo da solidariedade operária, apostando nas atividades inter-geracionais de cultura e lazer, intervindo no apoio aos idosos não institucionalizados, sem abdicar da sua condição de repositório da tradição operária da cidade.

Diogo Serra

* publicado no nº 41da Revista Alentejo 









[1] Atual sede do Município de Portalegre
[2] O seu edifício sede, situado desde 1905 no Largo “da fonte da Boneca”, propriedade do município, ameaça ruir.
[3] Fundada em 29 de Abril de 1898
[4] Não só encerrou como penhorou todos os seus bens, incluindo os edifícios/sede

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os Pais, os Avós e os Enteados da Democracia

Pais, avós e enteados da Democracia!*
No momento em que escrevo tenho à minha frente alguns jornais nacionais e também o nosso Alto Alentejo que anunciam ou comentam a morte do Dr. Mário Soares.
Os elogios fúnebres tratam de enaltecer o seu percurso político e todos o apelidam como “ O Pai da democracia”, presumo que a portuguesa. É um facto inquestionável que o Dr. Mário Soares integrou o núcleo dos combatentes pela liberdade, opondo-se à ditadura salazarista e por isso foi preso e deportado.
Nesta semana em que ocorreu o falecimento do Dr. Mário Soares ficámos a saber (não pela comunicação social dita de referência, que o escondeu), que também falecera um dos muitos que durante a longa noite de terror deram a liberdade pessoal, a segurança, a família e muitas vezes a vida para abrirem caminho à liberdade com que sonhavam num país soberano, livre e democrático.
Este era operário. Trabalhador da Carris desde os 12 anos de idade, lutador antifascista, membro do Partido Comunista Português, pagou o preço que Salazar cobrava a quantos a ele se opunham, preço tanto mais alto se esses opositores fossem operários e comunistas.
Preso em 1959 e condenado a dois anos de prisão é um dos organizadores da fuga de destacados dirigentes comunistas do Forte de Caxias, a 4 de Dezembro de 1961, utilizando para o efeito o carro blindado de Salazar: José Magro[1], Francisco Miguel, Domingos Abrantes, António Gervásio, Guilherme de Carvalho, Ilídio Esteves, Rolando Verdial e o próprio António Tereso.
Também as redes sociais foram instrumento privilegiado para enaltecer o papel do Dr. Mário Soares na “construção” da democracia e foi aí que uma amiga colocou uma frase que me impôs a reflexão que aqui partilho convosco.
 “Não de preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se com aqueles que querem sepultar o que ajudei a criar.”

Foi proferida por um Militar de Abril, um alentejano de Castelo de Vide a quem um inquilino de S. Bento e Belém que condecorava pides recusou uma pensão e ilustra bem o sentir de quantos veem agora “fugir-lhes a paternidade” do 25 de Abril depois de terem sido impedidos de “educar a criança” nos valores e objetivos que presidiram à sua conceção.

Admito que a verdade do que vimos depende do ângulo em que nos posicionamos mas penso ser da mais elementar justiça que quem tem acesso aos instrumentos capazes de modelar consciências esteja “obrigado” a cumprir com as mais elementares regras deontológicas duma profissão que se intitula como “o quarto poder” e se abstenham de tentar reescrever a História.

E não confundamos. Não se trata de diminuir os mortos. Trata-se de censurar os vivos!

A persistirem na atribuição da paternidade a uns deverão homenagear (também) os milhares de Avós que a “criança” teve e os enteados (os militares de Abril) que em nome da “normalidade” foram mandados para os quartéis, para prisão ou para a disponibilidade!

Diogo Júlio Serra

* publicado no Jornal Alto Alentejo de 18-01-17

[1] José Magro, com familiares em Arronches e no Assumar viria a ser o primeiro dirigente do PCP a participar numa iniciativa publica em Portalegre no pós 25 de Abril. Foi ele o principal orador no Comício que o PCP organizou em Portalegre e que teve lugar no Cine-Parque.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ameaçados de morte em tempo de paz

Ameaçados de morte em tempo de paz*


O nosso território, cuja excelência é por todos reconhecida, vive há décadas sob ameaça de extinção.

Não estou a falar na falta de emprego para os nossos jovens, no isolamento a que somos sujeitos, nem sequer do contínuo e alarmante envelhecimento e despovoamento porque esses são, apesar de nocivos e persistentes, por demais conhecidos.

Refiro-me ao perigo real de um desastre nuclear com implicações catastróficas para o todo nacional mas, particularmente gravosas para quantos persistem em viver no Norte Alentejano (e na Beira Baixa) uma vez que coabitamos com uma Central Nuclear que já há muito ultrapassou o seu limite temporal e, porque não foi desmantelada como se impunha, se transformou numa séria ameaça para quantos à sua volta vivem e trabalham.

E esta ameaça não está em Chernoyl, ou em Fukushima. Esta convive connosco há algumas décadas.

Os menos atentos serão tentados a chamar-me alarmistas até porque, como bem sabemos, Portugal não possui centrais nucleares, esquecendo que apesar disso a mais perigosa Central Nuclear da Ibéria (porque já há muito ultrapassou o seu limite útil de vida) se situa aqui al lado, em Almaraz, paredes meias com o Rio Tejo e a uns meros 100 quilómetros das nossas casas.

Até agora, apesar de estarmos em risco muitos de nós fingíamos não saber da existência de uma Central que desde há tempos vêm acumulando problemas e aumentando os riscos de acidente não se envolvendo ou mesmo censurando os poucos que de forma militante, de um e outros lados da fronteira, persistiam em denunciar os perigos e exigir o encerramento da Central Nuclear.

De recordar que o Movimento Sindical de Classe e diferentes grupos ecologistas do Norte Alentejano e da Extremadura há muito organizam e participam em diversas iniciativas pelo encerramento de Almaraz.
Mas foi o serôdio despertar do governo português para com Almaraz que trouxe para a discussão pública a presença e continuidade deste perigo que sobre nós paira. E porquê? Porque o Governo de Rajoy decidiu autorizar a construção de um aterro para resíduos nucleares na Central de Almaraz sem previamente ouvir o governo português, conforme está obrigado.

Por essa razão o governo português anunciou ir apresentar “queixa em Bruxelas”.

Pessoalmente não posso deixar de apoiar a iniciativa bem como a postura do Ministro do Ambiente de recusar ir a uma reunião sobre uma matéria cuja decisão já terá sido tomada. Porém, não posso deixar de inquietar-me sobre a posição do Governo de Portugal se esta não visar mais longe que o simples arrufo de não ter sido consultado sobre a dita construção.
O que está verdadeiramente em causa não é a decisão do governo Rajoy de autorizar a construção do aterro ter sido tomada sem ouvir o governo português. O que está verdadeiramente é a necessidade de a Central de Almaraz ser encerrada e “limpa” como já há muito deveria estar.

O que está verdadeiramente em causa e no Norte Alentejano deveria lembrá-lo permanentemente é o direito que temos de trabalhar e viver no Norte Alentejano sem pender sobre nós o perigo de uma hecatombe nuclear.

É sobre isto que queremos que (também) o governo português tome uma posição enérgica junto de Madrid e de Bruxelas.

* Publicado no Jornal Fonte Nova de dia 11-01-2017

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Luto, a Luta e a Esperança!

O Luto, a Luta e a Esperança! (*)



     O 25 de Novembro deste ano não me trouxe apenas luto.
     Este ano e a par das comemorações do 25º aniversário do Instituto Politécnico de Portalegre, recebemos em Portalegre o IV Fórum do Interior e, com estes dois acontecimentos a presença da Coordenadora da Unidade de Missão e de Valorização do Interior.
     Ter a possibilidade de, em Portalegre, pensar e debater estratégias de desenvolvimento para o interior é só por si uma novidade merecedora de aplauso, tanto maior se tal “novidade” trouxer consigo a vontade de olhar de forma diferente o interior e os problemas que se nos colocam e se refletem no todo nacional.
     Como todos sabemos, e os portalegrenses melhor que ninguém, Portugal é hoje um país profundamente desequilibrado territorialmente, e nunca como hoje, as desigualdades entre a estreita franja do litoral e todo o resto do território nacional foram tão acentuadas.
     As dificuldades decorrentes da interioridade deixaram de ser exclusivos dos distritos do interior, para chegarem a praticamente todos os municípios que não pertencem à orla costeira, mesmo que pertençam a distritos do litoral.
     Após mais de 25 anos e 74 mil milhões de euros de Quadros Comunitários de Apoio, a coesão territorial não é mais do que uma miragem. Não só se mantém as enormes desigualdades como serão ampliadas, face à tendência de crescimento da concentração em alguns poucos concelhos do litoral, da população, do emprego, do tecido produtivo e da criação de riqueza.
     Por outro lado os últimos quatro anos, de profunda depressão económica e social, vieram agravar os problemas crónicos com que a maior parte das regiões do país já se deparavam e que no norte alentejano eram e são particularmente gravosas: mais baixos salários e menor poder de compra, reduzidos níveis de emprego e pouco qualificado, elevado desemprego, dificuldades no acesso aos serviços públicos, a cuidados de saúde e à rede de escola pública, difíceis acessibilidades, envelhecimento da população, êxodo das camadas mais jovens quer para as grandes cidades do litoral, quer para o estrangeiro, crescente desertificação.
     Os municípios de regiões como a nossa têm não só uma menor capacidade de arrecadar receita própria, mas sofrem também de forma mais dolorosa os impactes das políticas traçadas para acelerar o empobrecimento das pessoas e dos territórios, o que também influencia a qualidade de vida dos munícipes, a decisão sobre onde residir e a capacidade de atracão de outros, pessoas e investimentos.
     A resposta a estes problemas requer uma estratégia integrada e alargada – procurando responder às dificuldades nos planos económico e social –, ao mesmo tempo que atende às especificidades concretas de cada região. Têm de ser envolvidos todos os órgãos do poder central e local, e consideradas a análise e as propostas dos actores locais.
     Uma estratégia de real combate às desigualdades territoriais não pode, porém, estar desligada de uma mudança profunda de políticas, no sentido de atrair e consolidar investimento produtivo, de promover mais emprego e emprego de qualidade, de aumentar salários e pensões, de reforço das funções sociais do Estado e de realização de investimentos públicos necessários ao país, não só em infra-estruturas de transportes e mobilidade, mas também de reabilitação e valorização urbanas, e de melhoria da resposta dos serviços públicos (nomeadamente nos sectores da saúde e da educação).
     É ainda fundamental, a meu ver, que se retome a discussão em torno da Regionalização e, no caso concreto do Alentejo se possam encontrar formas intermédias entre as condições políticas existentes e as necessidades efectivas e a vontade expressa pelos alentejanos.

Diogo Júlio Serra


(*) publicado no Jornal Fonte Nova de 6/12/16

sábado, 3 de dezembro de 2016

Vê(s) moinhos, são moinhos!

Vê(s) moinhos, são moinhos
Vê(s) gigantes, são gigantes!

A morte de Fidel Castro, ocorrida 60 anos depois do dia em que com outros 81 valentes saiu do porto mexicano de Tuxpan, com o objetivo de derrubarem o ditador Fulgêncio Baptista, desencadeou, como era expectável, uma onda de comentários sobre El Comandante, mais favoráveis ou mais críticos, conforme o posicionamento politico-ideológico ou o conhecimento de quem os formulava.

Para uns, onde eu me incluo, partiu o símbolo último do romantismo revolucionário e sobretudo o dirigente que assumiu a hercúlea tarefa de garantir a um pequeno país conquistar e manter a sua independência e ter conseguido enfrentar e vencer o poderoso vizinho do norte.

Para outros, prisioneiros do seu posicionamento politico-ideológico ou incapazes de se demarcarem dos que os media do sistema lhes servem, alguém que manteve um poder não legitimado por eleições ditas livres, que impunha ao seu povo uma pobreza confrangedora, que prendia os seus opositores, etc…etc…

Depois nas franjas os que o endeusavam e recusavam aceitar que não teria só virtudes e do lado oposto a “brigada fascista” que repetindo os argumentos fabricados no Estados Unidos e repetidos até à exaustão na “little cuba” inventam, fantasiam e mentem tendo como objetivo supremo branquear o fascismo e exaltar o seu supremo marco em Portugal, um tal António de Santa Comba Dão. Estes, de facto, não contam.

É entre os que veem diferente porque estão em posições diferentes mas querem com seriedade ver “ a verdade” que vale a pena “conversarmos”.

Nos últimos dias, pessoalmente ou através das redes sociais, tenho trocado argumentos com alguns dos meus amigos: amigos de verdade não das redes sociais. Procurei retirá-los das trincheiras para onde o preconceito ideológico ou tão só a propaganda do sistema capitalista que nos tolhe, os tem empurrado.

Falam-me que em Cuba não existem muitos dos bem de consumo que “temos” no Ocidente e é verdade, mas esquecem os cinquenta anos de bloqueio imposto pelos Estados Unidos de forma ilegal e condenada pela maioria dos países.

Contam-me que Fidel, e agora Raul, são Chefes de Estado sem serem eleitos pelo voto direto dos seus concidadãos, esquecendo ou fingindo não saberem que o Chefe de Estado Cubano, como o Chefe de Estado dos Estados Unidos e muitos outros, é eleito não por sufrágio direto mas por um colégio eleitoral. Esquecem inclusivamente que aqui ao lado os últimos três Chefes de Estado chegaram ao poder não por voto (direto ou indireto) mas pela vontade de “alguém”: o primeiro pela Gracia de Deus, o segundo pela Gracia de Franco e o terceiro e atual, pela Gracia do pai.

Persistem em elencar carências enquanto escamoteiam (porque não desconhecem) que Cuba consegue hoje, e apesar do bloqueio, ser reconhecida pelos seus enormes êxitos:
a)      Único país da América Latina sem desnutrição infantil; (UNICEF)
b)      Único país Latino-americano sem problemas com drogas; (ONU)
c)      Taxa de Escolarização:
Primária – 100%
Secundária – 99,7%
(UNESCO)
d)     É o país latino que menos viola os direitos humanos; (Amnistia Internacional)
e)      É o único país do mundo com desenvolvimento sustentável; (WWF)
f)       Tem um sistema de saúde melhor que o dos países mais ricos/”desenvolvidos do Mundo”.

Por fim, esgotados os argumentos restam os factos e, contra factos não há argumentos. Afinal há sempre mais um. Pois, conseguiram tudo isso, mas a que preço. Não são livres…

E dizem-no assim, como se eles/nós o fossemos.

Livres como nós? Bem, de facto, alguns de nós (poucos) têm tudo. Os outros (a maioria) têm tudo menos a possibilidade de o adquirir.


Diogo Serra

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Não gostam? Temos Pena!


NÂO GOSTAM? TEMOS PENA!
Numa acção bem orquestrada os diversos “opinadores” da direita politica e dos negócios afadigam-se em fazer-nos acreditar que os trabalhadores e os seus sindicatos estão rendidos ao que apelidam de “geringonça” e, por isso, acabaram as greves e outras acções de luta!
Fazem-no, não para valorar as políticas de travagem do esbulho e roubo aos trabalhadores e ao país mas para nos “venderem a ideia de que os sindicatos são feudos dos partidos de esquerda, particularmente o PCP, e são estes quem define a agenda política dos sindicatos e dos trabalhadores.
A seu reboque, por deliberada intenção ou por falta de cuidado, são vários os meios de comunicação e jornalistas que publicam estas estórias como se de verdades se tratassem.
A nossa região não fica de fora dessa cabala e, nos órgãos de informação ou nas redes sociais são vários os jornalistas que embarcam nessa “cantiga”.
Todavia, trata-se de uma posição não apenas mentirosa mas de um cinismo sem vergonha.
É mentirosa, como bem sabem os “opinadores” e os seus mandantes, porque o movimento sindical de classe nunca foi nem é “pau-mandado” de ninguém. É mentirosa porque como, os mesmos, bem sabem, nos últimos tempos foi necessário dar continuidade à luta para garantir e conquistar direitos.
Por todo o país, e também no nosso distrito, os trabalhadores reconhecem e saúdam que o governo saído da vontade expressa nas urnas e corporizada na Assembleia da Republica, tem vindo a travar e inverter as políticas de empobrecimento e roubo definidas e aplicadas pelas diferentes troicas.  
Todavia nunca deixaram de afirmar que é necessário ir mais longe na reposição de salários e de direitos e no desmantelar das negociatas e das intenções com que o governo PPD/CDS colocou nas mãos do capital empresas e sectores importantes para a recuperação económica do país e preparava o desmantelamento de serviços públicos fundamentais para darmos corpo à democracia que conquistámos.
Não se ficaram pela retórica. No país e no distrito os trabalhadores têm estado empenhados em vastas e importantes lutas. Os trabalhadores não deixaram de lutar, também no nosso distrito, mesmo quando os órgãos de informação não veem, não ouvem, não publicam!
Só nos dois últimos meses estiveram em luta, cumprindo greves ou vindo à rua, os trabalhadores dos refeitórios e bares nos hospitais Distritais de Portalegre e Elvas (greve), os enfermeiros (greve), os professores (ações em tribunal ), os dirigentes a ativistas da USNA em defesa do transporte ferroviário, (manifestações na estação da CP em Portalegre) e estão convocadas greves dos trabalhadores da Valnorte , dia 31, dos trabalhadores da EUREST nos Hospitais de Portalegre e Elvas, dia 1 de Novembro e, dia  18 de Novembro, Manifestação Nacional da Função Publica.

Mas estas posições são igualmente dum enorme cinismo porque partem dos sectores que até há pouco acusavam os sindicatos de procurarem destruir o país com as suas lutas, apelidavam de não patriotas cada um e cada uma que usava reclamar os seus direitos, acusavam a  FENPROF de mandar no Ministério da Educação e juravam serem impossíveis quaisquer politicas que divergissem das que impunham o esbulho aos trabalhadores e ao país.
Infelizmente para eles (escrevinhadores e particularmente os seus mandantes) a verdade é bem diferente dos sonhos que teimam em manter: são os trabalhadores e o seu movimento sindical quem define a sua agenda politica: as exigências e reivindicações, os aplausos e as críticas e, as formas como estas revestirão.
Não gostam? Temos pena!


Diogo Júlio Serra

sábado, 12 de novembro de 2016

Pão e Circo?







Na Roma Imperial calavam-se as bocas com pão e circo.
Em Portugal, no século XXI, basta o circo!

“O pão que sobra à riqueza
Distribuído pela razão                                          
Matava a pobre à pobreza
e ainda sobrava pão!”
(António Aleixo)

O país, a nossa cidade também, viveu mais um dia que os “ricos” decidiram dedicar à erradicação da pobreza.Um pouco por todo o lado foi visível a azáfama com que pessoas e instituições pretendiam assinalar a data.

Na nossa cidade foi possível ver com gente dentro, algumas das ruas que já foram movimentadas mas que agora são espelho da agonia que também a cidade vive.

Ruas e praças enfeitadas com corações e bandeiras, discursos e passeios coletivos centraram a atenção dos transeuntes e dos muitos, crianças, jovens, idosos institucionalizados ou altamente fragilizados que voluntariamente ou por indicação de quem “manda” estiveram, naquele dia, na rua.

Todos e todas, personalidades e instituições aproveitaram a data para repudiarem a situação de pobreza que se abate sobre um número crescente de famílias em Portalegre, no País e no mundo e para reafirmarem o seu empenho em combater tais situações.

Todos estavam sinceramente empenhados em tão nobre objectivo?

De entre os que discursaram (Presidente da Câmara, Presidente da Rede Anti pobreza, Diretor Distrital da Segurança Social) todos trabalhadores por conta de outrem, quais percebem “de verdade” o que é a pobreza de que falam?

Têm a noção do que é (sobre) viver com uma pensão de 245 euros, com o RSI (80 euros/mês), com o salário mínimo Nacional (485 euros mês) tantas vezes repartido por todo o agregado familiar?

Têm a noção do que é o estigma do estar desempregado e estar diariamente submetido à invisibilidade e/ou à humilhação?
Têm a noção da violência que sofrem os milhares de trabalhadores que também aqui sobrevivem com o salário mínimo ou veem em cada ano o seu salário contratual ser absorvido pelo salário mínimo?

Estão disponíveis para apoiar as justas reivindicações de quem trabalha no sentido de ser garantida a contratação coletiva e cumprida a decisão (antiga) de passar para 600 euros o Salário Mínimo Nacional?

Conseguem dormir sabendo que nas instituições que dirigem os trabalhadores auferem um salário que em média não ultrapassa os 500 euros (caso das IPSS) e muitos deles são desempregados “obrigados a trabalhar” pelo subsídio de desemprego mais umas moedas e o almoço? ou, no caso dos funcionários  públicos, terão este ano, de novo, um salário inferior ao que receberam em 2010?


Será que todos queremos mesmo erradicar a pobreza? Ou para alguns ela deve ser mantida e aumentada por ser ela (a pobreza) a garantir a continuação do seu Bem – estar?