quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um ano de troika e de política do Governo do PSD-CDS deixaram-nos um território mais debilitado e com mais e maiores desigualdades sociais, num país em recessão*


Um ano volvido, após o ataque à soberania e à democracia, temos o país em recessão, a dívida pública prestes a atingir 117% do PIB em 2013, o financiamento da economia estrangulado e o crédito mal parado com um aumento de mais 40%;

A taxa de desemprego atingiu números recordes com a destruição de mais 204 mil empregos e o desemprego a atingir mais de um milhão de trabalhadores. Mais de um em cada três jovens estão no desemprego, a emigração intensificou-se e reduziu-se a protecção social no desemprego.

Portugal mantêm-se como um país de salários cada vez mais baixos enquanto o salário mínimo continua congelado e a maioria das convenções colectivas não é revista.

O governo impõe a sua política de classe com a consolidação de um modelo de competitividade baseado em salários baixos e direitos mínimos e que irá comprometer o desenvolvimento do país.

A Administração Pública fortemente atacada com a imposição de medidas deliberadamente destinadas à redução dos seus recursos, a provocar a privatização de serviços, a degradar a sua qualidade e a provocar o desemprego dos trabalhadores é uma montra do modelo neo-realista que o governantes professam: cortes nas funções sociais (segurança social, saúde, educação) com consequências na diminuição da protecção social, na degradação dos serviços públicos e com fortes restrições no direito ao seu acesso.

A política de austeridade cega é responsável pela situação actual de recessão em toda a zona euro e particularmente em alguns dos países que mais contribuem para as nossas exportações.  

Esta política origina a destruição de empregos e o aumento do desemprego. No espaço de um ano perderam-se em Portugal, mais de 200 mil postos de trabalho, sendo o nosso distrito afectado com alguns milhares o que coloca a taxa de desemprego no Norte Alentejano a atingir os 18%.

Daqui resulta uma verdadeira catástrofe para o norte alentejano com o encerramento de centenas de pequenas e micro-empresas por falta de clientes e o abandono do distrito por parte de um significativo número de jovens, quase sempre os melhores preparados e dos que mais necessitamos.

A política de mais do mesmo que alguns setores persistem em receitar só irá agravar a situação que vivemos no distrito e no país. O caminho a prosseguir tem que ser invertido.

Estou entre os que entendem que só haverá futuro se  privilegiarmos o crescimento e o emprego assente em políticas de investimento público que possam garantir quer emprego no curto prazo, quer o retorno do investimento feito mesmo que a prazo largo e por isso defendo a necessidade de avançarmos com a construção da Barragem do Pisão, cuja validade está desde há muito confirmada, com a modernização e retoma do funcionamento da rede ferroviária, incluindo ligação em  alta velocidade entre Sines e a Fronteira e entre Lisboa Madrid por CAIA/Badajoz, a concretização da Plataforma logística do Caia e a melhoria da rede rodoviária no interior do distrito.

Defendo a valorização do trabalho e o esbater da nossa dependência do exterior seja no sector alimentar seja em bens e equipamentos e para isso entendo fundamental o regresso à exploração da terra e ao fabrico e comercialização dos produtos agro-alimentares e a  uma politica que aposte na industrialização do Norte Alentejano.

Defendo igualmente a renegociação da dívida no sentido de que devem ser revistos o prazo de redução do défice orçamental, a redução dos custos de financiamento, a discussão dos montantes e a trajectória de diminuição da dívida pública de forma a garantir que possamos, a par da sua contenção, atingir os patamares de crescimento necessários a combater o desemprego e a vivermos, também aqui, com a dignidade que merecemos.


Diogo Serra

* artigo publicado no Jornal do Alto Alentejo

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Estão a pôr-se ao fresco

 Muitos dos que têm reclamado sacrifícios para o povo andaram, ao longo dos anos, a apoderar-se da riqueza que não lhes pertencia e a esvaziar os cofres do Estado, contribuindo ativamente para os problemas com que nos debatemos.
Nestes últimos tempos, em que tanto é necessário dinheiro para investimento (público e privado), prosseguem nas suas manipulações colocando interesses e riqueza a "salvo". Nos meios onde se fala destes processos, diz-se que "o povo nem imagina quanto dinheiro saiu do país em 2011". Sem criar pânico e agravar o problema, seria saudável que os portugueses tivessem uma noção real do que se passa.
É positivo que os cidadãos em condições de fazerem alguma poupança, e mesmo a esmagadora maioria dos empresários e detentores de capital, "não estejam a retirar o dinheiro do banco"; parece que continuam a fazer depósitos! Mas os maus exemplos propagam-se rápido e, quer no plano nacional, quer em países europeus em dificuldades, todos os dias assistimos a comportamentos perigosos e antissolidários.
Seria interessante que as "entidades europeias", que nos últimos anos impuseram ao povo grego humilhante austeridade geradora de desemprego, de pobreza e de uma queda do Produto Interno Bruto em 20%, informassem quanto dinheiro fugiu da Grécia, onde está e quem dele beneficia.
Portugal não caiu neste perigoso buraco em que se encontra porque "andamos todos a viver acima das nossas possibilidades", apesar de ter sido criada muita ilusão de riqueza, de o valor do salário ter sido substituído por "facilidades" no acesso ao crédito, e mesmo que franjas da sociedade se tenham, pontualmente, entregado a formas de vida associadas ao "desenrasca". Quando o trabalho não é valorizado e dignificado, desaparece a responsabilização a partir do trabalho.
As grandes causas internas da crise que vivemos - também existem causas europeias e mundiais - residem: i) na destruição criminosa do aparelho produtivo, em vários casos feita através de chorudos negócios em que o dinheiro, no todo ou em parte, não ficou no país; ii) nos gastos gigantescos feitos pelo Estado, por decisão dos governantes que facilitaram o enriquecimento dos grandes capitalistas dos negócios das parcerias público-privadas, das privatizações, da proliferação de "rotundas" e estádios de futebol, ou de grandes negócios do cimento armado; iii) nas chorudas recompensas trocadas entre os grandes acionistas das empresas, os "gestores de topo" e um amplo leque de ex-governantes, sendo claro que alguns destes trataram do seu futuro enquanto ainda governavam; iv) no facto de os meios financeiros destinados à modernização da economia, à educação e à formação profissional terem sido, em parte, desviados para fins particulares.
Não são surpresa as notícias vindas a público, nomeadamente na "Visão" de 24.05, que denunciam gigantescas operações de fuga de dinheiro (em alguns casos com passagem por operações de branqueamento) para contas em bancos suspeitos, através de processos de fraude absoluta, mesmo quando sustentados em "esquemas legais" ou de aparente legalidade. Como sabemos, a dimensão da legalidade está sempre na razão direta das "capacidades" técnicas dos grandes escritórios de advogados e da eficácia do sistema de justiça, sujeito a um emaranhado processual e aprisionado nos poderes e valores dominantes.
No domínio público esta será apenas a ponta do iceberg. Reafirmo: a crise que vivemos - observe-se as suas dimensões nacional, europeia e mundial - é provavelmente o maior roubo organizado da história da Humanidade. As suas consequências podem ser gravíssimas.
É preciso coragem nas denúncias das pressões - p.e. do ministro das inevitabilidades e seus acólitos -, dos compadrios, das chantagens, das mentiras de práticas privadas e da governação.
Detentores de capital põem-se ao fresco e deixam o povo a pagar a fatura, também porque os governantes entram na promiscuidade entre a economia e a política, submetendo o interesse público à ganância de umas centenas de portugueses, "nascidos para o arco do poder", que em vez de nos governarem se governam.

Artigo de Manuel Carvalho da Silva
no Jornal de Notícias de 2012-05-26

domingo, 29 de abril de 2012


Intervenção proferida na apresentação do livro “ SABORES COM POEMAS” de António Murteira.

Dia 27 de Abril, no Mosteiro de S. Bernardo em Portalegre





Caras e caros amigas/os e convidadas/os

Uma palavra sobre o Autor.

Conheci o autor a 2 de Fevereiro de 1974 na redação do Semanário a Rabeca.

 Eu trabalhava no Jornal e o António veio a Portalegre trazer o nosso redator Eduardo Basso que havia sido preso pela Pide, em Évora, quando participava, no Café Arcadas, no encontro comemorativo da revolta do 31 de Janeiro.

Trocámos apenas umas quantas palavras. Viríamos a encontrar-nos mais tarde, muitas vezes, aqui em Portalegre, empenhados na concretização do sonho que nos unia.

Uma palavra sobre o Livro.

Comeres com poemas – para viver um grande amor não é (só) um livro de poemas, não é (só) um livro de comeres, nem é (só) um livro de viagens.

E isto apesar de nos envolver como um poema, de nos transportar pelos odores, pelos sabores e pelas técnicas da confeção dos nossos manjares, de nos envolver nas suas deambulações pelo Alentejo, por diversas capitais europeias, por África ou por outras paragens em que aportou.

Este livro é, como refere Ana Paula Amendoeira um manual poético para chegar a essa festa dos sabores e aromas em que a criatividade e necessidade dos alentejanos inventou para a sua gastronomia mas é também, como o refere Francisco Sabino, um livro de memórias gustativas, de estórias e de pensamentos… um compromisso de contar para não esquecer.

Comeres com poemas é, sobretudo, como o próprio autor o define, “Um livro de afetos. Mas é também um repositório de inquietações, uma contínua procura da verdade, um laboratório que procura descobrir e testar os caminhos possíveis para alcançar a felicidade.

Quando nos fala do contributo que o Alentejo pode dar para que possamos inverter a nossa gritante dependência alimentar, quando regista de forma sofrida o êxodo das nossas populações ou denuncia as politicas e os políticos que ao longo de 36 anos levaram Portugal à bancarrota o Autor não se afasta da sua condição de Alentejano, revolucionário, poeta, cidadão do mundo e muito menos se afasta da capacidade sempre demonstrada de acreditar que é nos povos e na sua luta que se hão-de encontrar as soluções.

A páginas tantas, utiliza mesmo uma resposta dada por um outro alentejano, de Campo Maior, quando questionado quando voltaríamos a ter festas do povo na vila raiana para reafirmar a sua convicção de são sempre os povos a decidirem o futuro.

Diz-nos o Autor.

…a região e o país terão reformas políticas para a criação de uma nova base económica, produtiva e democrática, para o emprego, a fixação e rejuvenescimento da população, quando o povo quiser.

O livro é também de comeres.

O autor transporta-nos numa imensidão de cheiros, sabores e cores pela riqueza da nossa gastronomia das entradas aos pratos de caça, das sopas aos enchidos, dos peixes à doçaria.

Coloca-nos à mesa embriaga-nos com os odores e os sabores da nossa terra independente de nos falar de uma açorda de alhos comida em S. Manços ou do caril de camarão à Índico feito pela bela Gutana num muceque da então Lourenço Marques.

Questiona-se e questiona-nos com a mesma simplicidade com que os alentejanos usam a taberna e o petisco para criarem a ambiência necessária à reflexão ou ao cante.

Mais que a apresentação dos oitenta comeres aprendidos e testados em vários pontos do mundo, mais que as afirmações de amizade e cumplicidade registadas e dos amores que se adivinham, o livro é também uma extraordinária demonstração de lucidez e capacidade de questionar os caminhos percorridos e um renovar do comprometimento de que continua empenhado em contribuir para a mudança no Alentejo e no  Mundo

 Ou não fosse o Autor um Poeta e, como tão bem os definiu (definindo-se) Federico García Lorca

... Eu sou revolucionário porque não há verdadeiro poeta que não seja revolucionário.


E porque os livros quando escritos deixam de pertencer aos seus autores e passam a pertença dos leitores, aqui temos este "Comeres com Poemas"  para degustar numa tarde de verão, bebericando um branco do Redondo ou de Reguengos ou, numa noite de inverno à lareira, com um tinto de Pias ou de Portalegre, se possível vivendo um grande amor.

E no que me toca, o desejo que também eu possa continuar a percorrer esse caminho que o autor define neste seu livro como “ o agarrarmos na picareta e ombro a ombro com os outros humanos, abrir caminhos em direcções que os velhos do Restelo dizem não ser possíveis…

D. J. Serra




sexta-feira, 13 de abril de 2012

Entre o verbo e a acção*


O Presidente do PSD e actual Primeiro-ministro (Chefe do Governo como faz questão de se afirmar) utilizou o discurso de encerramento do congresso do seu partido para mostrar ao país que conhece muitas das situações dramáticas vividas por um número cada vez maior de portugueses e portuguesas e que reconhece a necessidade de lhes ser dado combate.

Afirmou-se preocupado com o crescimento do desemprego – chamou-lhe chaga social, com a desertificação dos territórios de muito baixa densidade, com a necessidade de nessas regiões ( leia-se todo o interior), o Estado  não abandonar essas populações.

Gostei do que ouvi. Algumas daquelas afirmações não ficam longe das razões que aqui, no Norte Alentejano, vimos esgrimindo e foram bandeiras para a Greve Geral do passado dia 22 que também aqui foi cumprida.

O problema não está no discurso, apesar deste estar impregnado da ideologia do novo-riquismo que num dia esmaga os direitos e o emprego, para no dia seguinte se disponibilizar “caridosamente” a dar uma sopa aos espoliados. O problema está naquilo que o meu camarada Carlos Carvalhas designava com o colorido do seu sotaque beirão “ a distância entre o verbo e a acção”.

De facto quanto ao verbo estamos de acordo. O desemprego transformou-se numa chaga social que importa combater; os territórios de muito baixa densidade sofrem problemas graves de desertificação e as populações ficam cada vez mais afastadas dos serviços e dos bens que lhe são necessários; o estado não pode, também ele, abandonar essas regiões e essas populações…

O problema é a acção ou, a falta dela.

Recordemos o que tem sido a acção política do governo e os seus resultados no nosso território.

Quanto ao desemprego.

Nos últimos meses o desempregou disparou enquanto os desempregados viram ser-lhes retirados ou drasticamente reduzidos os apoios sociais que lhes são fundamentais. Hoje é o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) a confirmar que nos tempos de Passos Coelho o desemprego não parou de crescer. Em Fevereiro de 2012 o aumento em relação ao mês homólogo de 2011 foi de 7,9% e sabemo-lo, o número de desempregados no distrito aproxima-se hoje dos dez mil.

No mesmo período acelerou a destruição do aparelho produtivo, regressaram os salários em atraso, aumentaram as insolvências e a destruição de emprego.

Quanto às dificuldades nos territórios de baixa densidade e o seu abandono, ou não, pelo Estado.

No Norte Alentejano foram e continuam a ser encerradas escolas nas freguesias rurais e foram-lhes retirados os transportes públicos. Este governo, o governo “chefiado” por Passos Coelho deu continuidade e intensificou todas as malfeitorias anteriores tendo mesmo dado execução ao “assassinato” do transporte ferroviário com a extinção do serviço de passageiros entre Abrantes e a Fronteira e o fim do movimento no ramal de Cáceres.

Este mesmo governo encerrou serviços de saúde, diminuiu horários e valências e retirou o transporte aos mesmos doentes a quem empurrou para as urgências hospitalares e prepara-se agora para encerrarem juntas de freguesias e debilitarem todo o Poder Local Democrático enquanto estrangula o Ensino Superior e os focos de produção cultural sedeados no nosso distrito. É o responsável principal pelo acelerar da morte de muitos portugueses e portuguesas e também pelo acelerar da morte da nossa região.

Este governo que se move como gestor de interesses estrangeiros está a empurrar-nos para fora do nosso território e fá-lo perante a indiferença e o silêncio dos que eleitos por nós se afirmam não como representantes da região que os elegeu mas como capatazes do governo junto da população.

Durante muito tempo insurgi-me contra os que sabendo o que aqui se passava e tendo a obrigação de o denunciar trocavam tal obrigação por um lugar com visibilidade social e remuneração tentadora.

Tinha razão. Eles sabiam o que estava a acontecer.

O Presidente da Comissão Politica do PSD e “ Chefe do Governo” confirmou-o. Eles sabem, sempre o souberam, só não estão interessados em arrepiar caminho ou resolver quaisquer problemas que não sejam os seus.

O seu objectivo é, confirmamo-lo a cada dia, rigorosamente igual aos objectivos dos que os antecederam nas cadeiras do poder: gerir os benefícios que o poder lhes traz. Substituir boys rosa por boys laranja ou azul, distribuir benesses e lugares pelo aparelho partidário e posicionarem-se o melhor que podem para resistirem à mudança que um dia virá.

Por estas e por todas as inúmeras razões conhecidas a luta dos trabalhadores e da população é absolutamente necessária e acabará, como sempre, por os derrotar. 

Esperemos que o consiga em tempo útil para nós e para a nossa região.

Diogo Júlio Serra
* Artigo publicado no Jornal Alto Alentejo de 11-4-2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Voz dos Alentejanos no XII Congresso


Camaradas Delegados/as e Convidados/as

     O Alentejo vive hoje uma situação de recessão e estagnação económica e social resultante de trinta e cinco anos de política de direita que impuseram a destruição da base produtiva regional e a deslocalização e enceramento de empresas ali instaladas com o objectivo de sugarem os fundos disponibilizados pelos governos e pela comunidade.
Este resultado é agora brutalmente acelerado pelo pacto de agressão a que todo o país está a ser sujeito.
     O desemprego e a exploração atingem níveis só verificados durante o fascismo e o governo e os patrões preparam uma nova ofensiva visando colocar-nos na situação vivida há 50 anos atrás, quando com a luta intensa e abnegada de milhares de trabalhadores e trabalhadoras conquistámos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, a jornada de trabalho de 8 horas.
     Quando assinalamos 50 anos da conquista das 8 horas nos campos, governo, patrões e aliados, procuram impor-nos o que derrotámos em pleno fascismo.
     A lógica economicista e mercantilista que tem orientado os governos e que é agora intensificada pelos que impõem, e pelos que aceitam, o pacto de agressão, tem-nos imposto não apenas a redução dos salários e do emprego mas também uma brutal redução nos serviços públicos e um enorme desprezo pela cultura e pelos agentes culturais da região.
     As políticas de merceeiro com que o país e a região têm sido confrontados impuseram-nos o adiamento das infra-estruturas rodo-ferroviárias de que o Alentejo carece e mesmo, o desmantelar de vias seculares existentes, a troco de coisa nenhuma, como o são o caso recente do encerramento do transporte ferroviário de passageiros entre Abrantes e Espanha e o desmantelamento do Ramal de Cáceres.
     Também o Alqueva, sonho e bandeira de luta de décadas, é vítima da tacanhez de quem decide, a partir de fora, as politicas para o Alentejo.
     O empreendimento de fins múltiplos, garantia de desenvolvimento para toda a região, foi abandonado e põe-se agora em causa que possa haver regadio para milhares de há de terras já preparadas para culturas regadas. O aeroporto de Beja continua desactivado, Universidade e Politécnicos formam jovens que o governo destina à emigração e a riqueza patrimonial e paisagística não potencia o turismo porque não são garantidas as condições de acessibilidade, saúde, segurança e valorização do território que a actividade turística necessita.
     O poder local democrático, motor do desenvolvimento e garante das condições de vida até agora usufruídas está também ele, na mira dos mentores da agressão.
     A ofensiva colocaria as nossas populações ainda mais isoladas e empobrecidas e por isso, tem merecido o repúdio e a luta das populações e dos autarcas de que são exemplo as concentrações realizadas nas cidades de Évora e Beja.

Camaradas Delegados e Convidados
     O Movimento Sindical e os trabalhadores e trabalhadoras do Alentejo têm vindo a bater-se pela necessidade de politicas desenvolvimentistas que permitam a fixação da população, a consolidação e diversificação do aparelho produtivo regional e o aumento da participação regional no PIB nacional.
     Temos vindo a propor e a reivindicar as politicas capazes de potenciarem vontades e actividades económicas que pelas condições naturais, pelos saberes do nosso povo, pela centralidade da região no contexto ibérico, possam garantir o crescimento económico e o desenvolvimento social.
     Temo-nos batido por um novo Rumo para o país e para o Alentejo.
     Esse caminho só é possível se for travado o desmantelamento do débil tecido produtivo regional, se em lugar de se permitirem ou estimularem os encerramentos de empresas e a destruição dos postos de trabalho, houverem apostas sérias na consolidação e crescimento das actividades económicas que podem ali ser desenvolvidas em pé de igualdade ou melhor que em qualquer outro ponto do território nacional, se conseguirmos defender e valorizar o trabalho e os trabalhadores, se derrotarmos as intenções e os interpretes do grande capital internacional.
     Para o conseguirmos importa reforçar a nossa organização e em particular a nossa capacidade de intervir em cada local de trabalho e em cada ponto do nosso território.
     O Programa de acção em discussão aponta quer os eixos fundamentais para o desenvolvimento do país e das regiões quer os caminhos necessários ao reforço da nossa acção organizada e ao aumento da luta que é imprescindível ser travada.
     Todo o capítulo 5 e a aposta clara na Acção Sindical Integrada são disso exemplo.
     No Secretariado Inter Regional do Alentejo, estrutura da CGTP-IN que integra as três Uniões Distritais da Região, entendemos ser absolutamente necessário melhorar e incentivar a reivindicação nos locais de trabalho, esclarecer e mobilizar os trabalhadores nas empresas e serviços e afirmar a contratação colectiva como direito inalienável dos trabalhadores.
     Sabemos também que tal só será possível com o reforço da organização sindical de base e com o entendimento que o sindicato é sempre onde estiverem os trabalhadores, independentemente do seu número e do local onde fica situada a sede.
     O Programa de acção tem nele inscritas todas estas preocupações e define linhas de trabalho que podem (e devem) garantir o uso eficiente dos recursos e permitirem um aumento da participação dos trabalhadores na vida sindical. Por isso receberá o nosso apoio.

Camaradas Delegados e Convidados

     Os alentejanos e o seu Movimento Sindical têm estado presentes de forma empenhada em todas as grandes e pequenas lutas que tem vindo a ser travadas, dentro e fora da região. Lutas que visam derrotar as políticas de destruição do aparelho produtivo, da precarização do emprego e da desvalorização do trabalho e dos salários e que destacamos: as lutas em defesa do poder local democrático, as lutas das populações pelo direito à saúde e em particular as travadas em Vendas Novas e Avis, e a participação empenhada e eficaz na greve geral de 24 de Novembro.
     Não vamos parar!
     É a nossa história – do povo e da região -  que nos ensina que ali naquelas “terras de  pão” sempre a tirania (fosse qual fosse e partisse de onde partisse) encontrou a resistência necessária a impedir o seu desenvolvimento e a garantir-lhe a derrota.
     É a necessidade de garantirmos as politicas e as medidas que sabemos serem fundamentais para inverter a situação para onde nos empurraram, que nos exige que continuemos a luta contra a exploração, as desigualdades e o empobrecimento na região e no país.
     Hoje e aqui, reafirmamos quer a necessidade de se garantirem os meios e as politicas necessárias ao desenvolvimento da nossa agricultura, incluindo a implementação de uma nova Reforma Agrária com a entrega da terra a quem a trabalha, ao implementar de uma politica de reindustrialização da Região, de acções coerentes de melhoria da nossa atractividade turística, da melhoria do ensino e da formação profissional, e da valorização do trabalho e dos trabalhadores, quer o nosso empenhamento para implementar e desenvolver as decisões do nosso congresso.
     Porque assim construiremos o Alentejo que sonhámos!
     Porque assim consolidaremos um Portugal Desenvolvido e Soberano, com trabalho e com direitos.
     Viva o XII Congresso
     Viva a CGTP-INTERSINDICAL NACIONAL!




sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


O ano anterior mostrou-se extremamente penalizador para a maioria dos norte alentejanos.
O desemprego atinge cerca de 10 mil trabalhadores e trabalhadoras e foram encerradas empresas fundamentais para o futuro deste território.
Os trabalhadores e os seus sindicatos bateram-se ao longo de todo o ano contra as injustiças e os resultados das politicas que a partir do governo central nos tem vindo a ser impostas e se é um facto que as perdas de direitos e de condições foram agravadas não é menos verdade que foi a acção dos trabalhadores que, pelo menos, atrasou a sua implementação ou obrigou a recuos significativos dos governos e dos (seus) patrões.
É, por isso, perfeitamente compreensivel a leitura feita pela União dos Sindicatos do Norte Alentejano acerca do papel dos sindicatos e dos seus trabalhadores na defesa dos direitos e das condições de vida que ainda se conseguiram manter.
Para 2012 o tempo não será de grandes avanços ou de facilidades. Para os trabalhadores e os seus sindicatos vai ser um tempo de resistência mas, como foi decidido no Plenário de dia 11 de Janeiro não poderá ser um resistência à mudança. Bem pelo contrário o que se impõe aos trabalhadores e às suas organizações é a resistencia para mudar:mudar de modelos de desenvolvimento, mudar de politicas e, em muitos casos mudar de políticos.
É este o desafio que 2012 nos coloca.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ALENTEJO TERRA DE LUTA!


Estala um movimento grevista dos assalariados rurais do Alentejo, como protesto contra a falta de cumprimento, por parte dos agrários, dos salários que haviam sido tabelados três meses antes. Em Évora, o movimento generaliza-se rapidamente, alastrando a outros trabalhadores, difundindo-se de igual modo pelas povoações do distrito e alargando-se a Beja. Face à persistência dos grevistas, o Governador Civil, Paulino de Andrade, mandou encerrar a Associação dos Trabalhadores Rurais, registando-se prisões de vários grevistas, os elementos mais activos, ao mesmo tempo que fazia avançar a cavalaria contra os trabalhadores em greve. Os delegados das associações operárias decidem proclamar a greve geral. As autoridades encerram as sedes de outras associações operárias, registando-se confrontos entre os grevistas e as forças da GNR e do Exército, de que resultaram vários feridos e um morto.
In Fundação Mário Soares – Arquivo & Biblioteca


A 1 de Janeiro de 1912 eclodia em Évora a segunda Greve Geral dos Rurais do Alentejo (a primeira tivera lugar em Junho do ano anterior), como resposta ao não cumprimento pelos agrários dos acordos firmados três meses antes.

Esta greve e a brutal repressão que se abateu sobre os rurais de Évora, teve uma importância enorme na sociedade portuguesa de então pois desencadeou uma onda de solidariedade por todo o país levando à proclamação da Greve Geral e à confirmação da ruptura entre a Republica, recentemente proclamada, e os operários organizados.

Portalegre não ficou indiferente a estes acontecimentos.

A 20 de Janeiro, na Cooperativa Operária, realiza-se uma assembleia convocada pelas associações de classe dos Corticeiros, Manufactores de Calçado e Alvanéus, destinada a apoiar os trabalhadores em greve, seguindo-se uma manifestação para o Governo Civil[1].

No decorrer dessa manifestação são presos 8 trabalhadores: Gervásio Augusto Madeira, António Teixeira, Manuel Esquetim, Carlos Pereira Ramos, Joaquim Maria Carrapiço, António Soares, Francisco Cabecinha e Domingos Baptista, mantidos em prisão até 16 de Maio.[2] Também por estas prisões e pela intensa acção sindical e de solidariedade com os operários presos, Portalegre integra esse movimento que coloca os trabalhadores e as suas associações de classe no centro da actividade social e política.

A greve geral virá a ser derrotada pela força das canhoeiras, pelas cargas de cavalaria, pela prisão e degredo de centenas de trabalhadores e pelo assassinato de alguns deles, mas o sinal fora dado. A partir de então os rurais entravam decididamente na luta sindical e o movimento sindical portalegrense rompia definitivamente as amarras com o mutualismo, esquecia as promessas dos republicanos e abraçava o Sindicalismo Revolucionário.

Um século depois, os trabalhadores alentejanos e em particular do norte-alentejano confrontados com os resultados do modelo de desenvolvimento imposto pelos partidos do chamado arco da governação retomam a necessidade de cortar amarras com as promessas da direita e do PS e tomar em mãos o seu futuro e o da região.

Cem anos depois dos acontecimentos que ditaram o “divórcio” do operariado com o discurso republicano é-nos colocada a necessidade de romper com pessoas e organizações que não quiseram manter a nossa região nos caminhos do desenvolvimento e tomarmos em mãos a construção do nosso próprio caminho.

É o tempo de acreditarmos que existem caminhos alternativos àqueles por onde nos têm conduzido e, sobretudo, que os caminhos novos podem e devem ser encontrados sem necessidade de “guias” ou “condutores”.

É o tempo de reforçar a capacidade regional de fazer ouvir a voz e o querer dos norte-alentejanos.




[1] Ventura, António – Subsídios para a História do Movimento Sindical Rural no Alto Alentejo, 1976
[2] Matias, Elias – Alentejo em Luta, 1985