quarta-feira, 13 de abril de 2022

Os DDTs e os capatazes nacionais

 




Os DDTs(donos disto tudo) e os capatazes nacionais.

 

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

(Extrato do Cântico negro de José Régio)

Não é a primeira vez. Já em outros momentos notámos a sua actividade com os mesmos intervenientes, os mesmos objectivos, os mesmos mandantes e os mesmos capatazes. A haver diferenças sê-lo-ão na violência e…no descaramento.

Todos a quem a preconceito ideológico ou o carreirismo não cegou já notámos, assistimos ou sofremos o discurso do ódio e o apelo à uniformidade de pensamento que de há uns tempos para cá tem atingido níveis que alguns pensámos não serem (de novo) possíveis.

A guerra, de novo trazida para a Europa, agora pelos oligarcas russos e ucranianos e orquestrada à distância por outros oligarcas que só aspiram a mais lucro, mesmo que, à custa da destruição e morte, agora na Europa e antes em inúmeras outras partes do mundo, serve como acelerador de acções visando impor ao “outro”, indivíduos territórios e nações, os conceitos e olhares de acordo com sua estratégia de rapina.

A partir das organizações que dominam, sejam a ONU,a UE ou as centrais de dados e da informação a nível mundial, ou a sua máquina de guerra - a NATO, desenvolvem mortíferas acções de guerra sejam-no no domínio estritamente militar, na economia ou na propaganda.

Uma guerra que sendo movida pela vontade de rapina dos recursos mundiais (da energia, do saber, e da água) pretende também controlar a nossa liberdade de agir e de pensar.

Em Portugal a “coisa” está a atingir patamares que devem alarmar todos quantos estão (deviam estar) comprometidos com Abril e a Constituição que o consagra.

Não é possível continuarmos a assobiar para o lado e não ver que esta é uma batalha a que não podemos fugir e, aqui, ao contrário de outras batalhas e outras paragens, as fronteiras não se demarcam entre a democracia e o nazi-fascismo nem sequer entre partidos e forças tradicionalmente colocados à direita e à esquerda da democracia parlamentar.

Não, desta vez, a batalha é entre os que estejam ou não organizados partidariamente, estejam ou não acantonados em partidos que se nos apresentam da direita, da esquerda ou de coisa nenhuma, são pela liberdade ou (apenas) dizem que o são. Agora, a linha de fronteira está entre os que são defensores e praticantes da liberdade e da democracia e os outros, digam-se ou não democratas, tenham no bolso o cartão do partido a,b, ou c ou não tenham cartão nenhum.

E é, identificados os campos, necessário tomar partido e agir.

Tomar partido pela Constituição que nos deve reger, que todos devemos cumprir e alguns juraram fazer cumprir.

Tomar partido pela dignificação do trabalho e dos trabalhadores. Tomar partido em defesa da (s)liberdade (s), individual e de grupo.

Tomar partido e agir! Agir tendo como horizonte o que o Sérgio nos ensinou”:

Só há liberdade a sério quando houver: a paz, o pão, habitação, saúde, educação Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir

Quando pertencer ao povo o que o povo produzir

 

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 30 de março de 2022

UM HINO À AMIZADE...

 


Um hino à amizade

No passado sábado participei numa iniciativa convocada pelo Movimento “Não podem ser sempre os mesmos a pagar” destinada a fazer publica demonstração do descontentamento face aos brutais aumentos dos preços, que agora com a desculpa da guerra, nos estão a empobrecer em passo rápido e a exigir medidas que permitam o alívio em vez da sobrecarga aos trabalhadores e restante população mais desprotegida.

Na moção lida e aprovada no final da iniciativa constatei com agrado que a mesma confirmava um profundo conhecimento da situação que está a flagelar os trabalhadores e as populações e não deixava de registar outras vítimas da carestia que sob a “desculpa” da guerra os especuladores continuam e intensificam as políticas que já haviam desenvolvido em tempos de pandemia para engrossarem com a desgraça alheia, os cofres e o poder do capitalismo.

Que a “culpa” do que já estamos a viver e do que ainda está a caminho, não é da Guerra mas sim do Capitalismo ficou ali claramente registado como igualmente ficou que a própria guerra é ela também uma consequência do Capitalismo.

A moção aprovada (também por mim) exige entre outras medidas a redução do IVA dos combustíveis, que os lucros escandalosos que as grandes empresas, das petrolíferas às cadeias alimentares, estão a registar sejam canalizados não para dividendos aos acionistas mas para um fundo que permita fazer face aos custos da energia.

E foi no decorrer dessa iniciativa de protesto e exigência quando com outros participantes comentava a presença, ali, de dirigentes e ativistas do PCP que constatámos o significado e justeza da palavra de ordem que estes não se cansam de afirmar - ” a teu lado, todos os dias ”.

Claro que constatámos também a dificuldade de alguns desligarem das motivações que vão do medo e do preconceito à cegueira ideológica e persistirem em não ver quem ganha e quem perde com os contextos onde nos enredam sejam eles a pandemia, as catástrofes “naturais” ou a guerra.

Ontem mesmo, no momento em que se iniciava a marcha de protesto, alguns que à partida concordam com a necessidade de travar os aumentos da energia e dos combustíveis mediam a iniciativa não pelos objetivos anunciados mas pelo posicionamento politico-ideológico de alguns participantes.

Percebi ali a enorme dificuldade em defender a verdade face ao preconceito e os muros que se erguem à perceção de que gestos e posições a favor da Paz mas recusando esquecer o que as origina não são necessariamente a favor de um qualquer dos contendores.

E compreendi, como e porquê, a recusa de parlamentares europeus em aceitarem baixar o IVA no armamento quando se recusa baixá-lo na energia e nos combustíveis, pode ser divulgado como recusa a defender a paz e de apoio a quem ordenou uma invasão militar.

 Entretanto também no passado fim-de-semana os Europeus ficaram a saber que ser a favor da Paz é retomarem práticas há muito entendidas como do passado e que os colonialistas sempre praticaram nas “suas” propriedades: a obrigação de comprarem nas lojas do patrão os bens que este disponibilizava a preços que ele próprio impunha e que em muitos casos significava entregar-lhe a totalidade da “féria” e ainda ficar em dívida.

Como todos ficámos a saber os Estados Unidos e a União Europeia assinaram um acordo que preconiza que os Estados Unidos fornecerão o gaz liquefeito à União Europeia a um preço que dizem-nos será apenas…oito vezes mas caro do que o preço até agora cobrado pelos Russos.

Ainda bem que são nossos amigos!

Diogo Serra

(publicado no Jornal do Alto Alentejo de 30-3-2022

quinta-feira, 17 de março de 2022

RUSSOS FORA DA UCRÂNIA/AMERICANOS FORA DA EUROPA!

 


“Felizmente nasceram branquinhos e de olhos azuis…”

A invasão militar da Ucrânia pelas tropas da Rússia suscitou por todo o chamado “Ocidente” uma imensidão de condenações e uma verdadeira onda de solidariedades.

Mesmo no país de onde partiu a invasão as manifestações de condenação e em defesa da Paz se fizeram e fazem sentir. Independentemente das razões que as “justificaram”, a favor da guerra só os loucos ou os que vivem do negócio da guerra e a quem a guerra faz “o negócio prosperar”.

Em Portugal e em particular na nossa região também tem sido grande a mobilização das populações, seja para condenarem a guerra, seja para se/nos solidarizarmos com as suas vítimas e particularmente, as mulheres e as crianças que procuram garantir a sua segurança fugindo das zonas atacadas.

Os países vizinhos e toda a União Europeia, a Inglaterra e outros países não integrados afirmam a sua solidariedade e organizam-se para retirar do teatro da guerra e acolher os muitos milhares de ucranianos idosos, mulheres e crianças que necessitam e procuram acolhimento e paz.

“Felizmente” (dentro da tragédia que os atingiu) nasceram “branquinhos e de olhos azuis” e não verão, como outros, a sua tragédia ser aumentada por arame farpado, recusas de entrada e morte mais ou menos acelerada. Ainda bem. Para eles e, talvez, para os milhões de refugiados a quem tem vindo a ser negada, quer a entrada nos países da União Europeia, quer as condições mínimas de sobrevivência.

Por cá, no nosso distrito, também temos assistido e saudamos as evoluções significativas na solidariedade com as vítimas da guerra ou da fome. São diversas as instituições que por solidariedade, por “moda” ou por marketing passaram da indiferença à ação.

Ainda bem que evoluíram. Espero que o façam com sinceridade embora, por mais que o tente, não consiga esquecer que em 2002, quando em representação da União dos Sindicatos procurava defender e apoiar os ucranianos e outros deslocados dos países do Leste, só encontrava ao meu lado os dirigentes e técnicos da Cáritas e a irmã Emanuel, uma freira em que o coração e a coragem eram inversamente proporcionais ao tamanho do corpo.

Os outros, muitos dos outros, afadigavam-se a ganhar dinheiro à custa da sua desgraça. Fosse alugando a preços indecentes qualquer buraco a que chamavam habitação, fosse sugando-lhes a força de trabalho a troco de migalhas.

Que a evolução seja uma realidade. Tanto mais que agora é a guerra que os “empurra” para cá.

Tenhamos esperança embora agora como antes, o posicionamento face à guerra não seja uniforme:

Uns, onde eu claramente me incluo são pela Paz e contra a Guerra, seja onde seja, envolva quem envolver:

Outros, demasiados, são contra a Invasão da Ucrânia e contra os Russos;

Outros, muitos, são contra a guerra se ela estiver perto da nossa/sua porta;

Outros ainda, são contra as guerras se estas não forem apoiadas pelos Donos Disto Tudo: os senhores da guerra e da propaganda.

E por último, também temos por cá, os inconscientes. Os que dizem querer Paz mas promovem a escalada do ódio.

Que a preguiça em separar a propaganda da informação e a iliteracia ou o preconceito que impedem a opinião informada, não nos leve a apoiar um novo desastre!

Que também aqui nos empenhemos a fazer o que tem que ser feito: apoio solidário a todas as vítimas da guerra que são agora as mulheres, as crianças e os idosos ucranianos que a guerra empurrou do seu país; gritar pela recuperação da Paz e batermo-nos com firmeza contra a Guerra, esteja ela onde esteja, atinja quem atingir.

Nesse percurso, lembremos aos governantes nacionais a necessidade de cumprir e fazer cumprir a nossa Constituição. Lembremos aos governantes do Mundo a necessidade de cumprir os acordos e resoluções que apontam como caminho para a paz o desarmamento e o fim dos blocos militares!

E no que aos exércitos diz respeito, gritemos bem alto e sem medo:

Russos fora da Ucrânia/Americanos fora da Europa!

Ainda é tempo!

Diogo Serra

quarta-feira, 2 de março de 2022

A Formiga no carreiro vinha em sentido contrário!

 


A formiga no carreiro vinha em sentido contrário…

 

À guerra não ligues meia

Porque alguns grandes da terra

Vendo a guerra em terra alheia

Não querem que acabe a guerra

(António Aleixo)

 

Os tambores da guerra voltam a rufar na Europa. É tempo de justificada apreensão e sobretudo de reflexão sobre as razões de não conseguirmos aprender com os erros, os nossos e os dos outros.

Antes de continuar esta reflexão que quero partilhar com os leitores do Alto Alentejo importa recordar-vos dois factos históricos e fazer uma “declaração de interesses”.

Os factos históricos:

- A União das Repúblicas Soviéticas Socialistas terminou, em 26 de Dezembro de 1991 por erros grosseiros e em alguns casos traição dos seus dirigentes e pela ação persistente e coordenada dos inimigos do (penso eu) futuro da humanidade, tendo dado lugar a um significativo número de países que acabariam por se distanciar do projeto soviético e integrar-se no capitalismo dominante.

O PCUS – Partido Comunista da União Soviética acompanhou o movimento de desintegração territorial “nacionalizou-se” e em cada país prossegue a luta pelos ideais em que acredita fazendo-o como sempre e em cada lugar, face às necessidades e nas condições em que age. Assim, o Partido Comunista da República da Rússia é o partido que lidera a oposição ao regime autocrático de Putin, enquanto o Partido Comunista da Ucrânia, que viu serem perseguidos e assassinados os seus militantes e ser declarado “ilegal” assume na clandestinidade o que entende ser a sua obrigação para com os ucranianos.

Agora a declaração de interesses. Enquanto cidadão português, convicto que o capitalismo não é, como não o foram os sistemas que o antecederam, o fim da história e que o futuro será, um dia, “De uma Terra sem amos, a Internacional” entendo Putin e o seu sistema autocrático tão desprezível quanto os regimes que a mando dos DNT semeiam guerras, fome e morte ao sabor dos seus mesquinhos interesses e condeno, agora como sempre, a invasão militar de um Estado soberano.

Terminada a “introdução” passemos agora ao que aqui me trouxe. Identifico-me com todos os que de forma sincera têm vindo a público mostrar a sua preocupação face ao novo conflito bélico que estalou na Europa. Revejo-me nas preocupações de quantos exigem o fim imediato da escalada belicista e na solidariedade com as suas vítimas que são, nesta como em todas as guerras, os que menos ou nenhuma culpa têm das razões que, quem as ordena pensam existirem.

Consigo perceber que muitas dessas vozes não tenham estado em situações anteriores, igualmente graves, algumas delas também na Europa, tão despertas como hoje, porque já cantava o Ary, “quando um povo acorda é sempre cedo”.

Não consigo é perceber como alguns de nós, pessoas vividas, cultas, “sensatas”, se deixem enredar pelo preconceito e não consigam sequer diferenciar a informação da propaganda e da contra propaganda.

Preocupação com a situação no Leste da Europa, envolvendo operações militares de grande envergadura da Rússia na Ucrânia, muito para além da região do Donbass, é por mim (e já agora pelo PCP, partido em que milito) claramente partilhada mas tal situação não pode/não deve permitir esquecimentos e mentiras: que não houve desmembramento territorial de países na Europa, esquecendo a destruição da Juguslávia e a carnificina que se abateu sobre ela; que um país, excepto a Rússia, tenha reconhecido independências de territórios pertencentes a países terceiros, veja-se de novo o passado recente no Kosovo, na Sérvia…ou fora da Europa o reconhecimento de fantoches auto-proclamados presidentes como o Juan Gaidó ou a sra Jeanine Añez, após terem fomentado o derrube dos Presidentes eleitos.

Também a questão da ocupação militar ou do fomentar de golpes de estado, assassínios, etc… aqui nem precisamos de sair do teatro de operações desta guerra: o que soubemos, calámos, ou dissemos do Golpe de Estado de 2014, que derrubou o governo legítimo na Ucrânia e em particular de que o estimulou e de quem dele beneficiou.

Por último, quando alguns de nós se procuram munir de justificações comparando situações vividas nos meses que antecederam a 2ª Grande Guerra, talvez valha a pena informarem-se melhor sobre quem são e o que fizeram e fazem alguns grupos militares que os órgãos da propaganda Ianque procuram transformar em heróis.

Sim, eu sei e concordo que os silêncios e omissões não devem impedir-nos nunca, agora também, de condenar a guerra e os seus mentores. Condenar a guerra, prestar solidariedade às suas vítimas e, sobretudo exigir a PAZ!

O que importa, a meu ver, é empenharmo-nos todos, no apelo à desescalada do conflito, à instauração de um cessar-fogo e à abertura de uma via negocial para a resolução pacífica do conflito na Ucrânia e à resposta aos problemas de segurança colectiva na Europa, no cumprimento dos princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia.

E aqui, em Portugal, onde intervimos, penso que valerá a pena empenharmo-nos na exigência do cumprimento da Constituição da República Portuguesa e em particular no seu artº 7º, nº 2 “… a dissolução dos blocos militares e um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.”

NÃO À GUERRA! VIVA A PAZ!

Diogo Serra*

publicado no Jornal do Alto Alentejo de 2-3-22

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

FUUUUJAM! Vêm aí os Russos.

 



No pasarón!

Os tambores da guerra voltam a rufar. Malandros os Russos!

Milhares de soldados russos fortemente armados encontram-se em manobras no México junto à fronteira com os Estados Unidos da América numa clara provocação bélica com o argumento, falso, de que os Estados Unidos estão a concentrar muitas tropas junto a essa mesma fronteira embora no seu próprio país. O argumento destes, (os americanos) certamente falso é o de que estão a proceder a exercícios normais para garantirem a operacionalidade do seu exército.

Tão assustador como concentração das tropas é o alarido que os russos estão a provocar por todo o mundo de forma a branquearem as suas intenções que são, sabemo-lo todos, a invasão do Texas e o facto real dos EUA terem descoberto a presença de um submarino russo no Golfo do México.

Os russos tem vindo a desenvolver uma intensa campanha diplomática “gritando” que não têm qualquer intenção de invadir o Texas mas os Estados Unidos e o “mundo livre” recusam essa versão, tanto mais que é sobejamente conhecida a prática dos russos em invadirem e espingardearem outros países e povos: atente-se às invasões do Iraque, da Síria, do Afeganistão, do Vietname, de Granada, de Cuba (Baía dos porcos) e do Panamá e os apoios aos golpistas do Chile, da Bolívia, da Venezuela e de Portugal.

Os EUA e os seus aliados têm sobejas razões para desconfiarem das palavras dos russos, tanto mais que, todos conhecemos a propensão destes para “cercarem” os EUA com bases militares e armamento nuclear estacionado nos estados vizinhos: Novo México, Oklahoma, Louisiana.

Claro que “no pasarón”. Todo o mundo “livre” responderá energicamente a quaisquer tentativas dos russos invadirem o Texas. Mesmo Portugal não deixará de o fazer e se dúvidas houvesse aí estão as palavras inteligentes e firmes do nosso ministro dos negócios estrangeiros.

Clarificada que está a nossa vontade em evitar mais uma invasão russa a um estado soberano e o nosso aplauso à clarividência do Ministro S.S. e às demonstrações de total independência do Governo Português  face ao invasor, é tempo de vos/nos recordar algumas situações que podem ajudar no momento do aplauso ou rejeição:

- A Rússia, a Bielorrússia, os Estados Unidos da América, a Ucrânia, os países que integram a União Europeia, estejam dentro ou fora do “braço armado do Capital” são, todos eles, países que integram, praticam e estimulam o Sistema Capitalista.

- A Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia já há muito não têm nada a ver com a União Soviética e o seu sonho de transformar o mundo numa Pátria sem amos, renderam-se ou foram reconquistados pelo capitalismo e nalguns casos a comportar-se ali, com a violência que o caracterizava nos tempos que antecederam a segunda grande guerra.

Assim, mais uma vez, os tambores da guerra voltam a rufar porque o sistema capitalista precisa da guerra para se manter à tona, para que alguns, poucos, continuem a acumular riquezas e poder mesmo que isso implique continuarem a fazer um caminho, como até agora, manchado de sangue.

Os senhores da guerra voltam à ribalta para um confronto, dentro do sistema capitalista, e mais uma vez para definirem se o poder dos actuais senhores pode e deve ser partilhado.

Que possamos evitá-lo. Que saibamos apagar o fogo em vez de o avivar.

Que países como o nosso que neste conflito não serão mais que vítimas “inocentes” não se comportem como mera claque de futebol, cega pelas cores do seu clube. Que os nossos S.S. – Santos Silvas tenham juízo ou vão embora, pelo seu pé ou empurrados.

Que o consigamos. Só assim poderemos aspirar a gritar (mais uma vez), No Pasarón!

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 



SEMEANDO NOVOS RUMOS!

“(…) Alentejo de esperança e de raiva, de muita labuta

de muitos sonhos e (algumas) conquistas.

Alentejo por aqui, dentro de cada um do nós Alentejo do nosso orgulho,

da nossa força, da nossa perenidade…”

Manuel da Fonseca

 

Quando este texto estiver nas mãos dos leitores do Jornal do Alto Alentejo já todos teremos conhecimento das decisões tomadas pelos cidadãos eleitores, estaremos a procurar compreender os resultados e, sobretudo a tentar perceber qual vai ser a tradução prática desses resultados para a sua região e para o país.

Não é essa situação no momento em que escrevo. Agora, no “imposto” dia de reflexão, quando os resultados das eleições está apenas no campo dos desejos, proponho-vos reflectirmos sobre as temáticas que as várias candidaturas trouxeram (ou não) à discussão e se elas são ilustrativas dos problemas sentidos.

Pessoalmente procurei reflectir no que cada uma das forças políticas e das candidaturas que promoveram ou apoiaram no nosso círculo eleitoral apresentou (ou escondeu) sobre a Regionalização do país e a criação do terceiro pilar do Poder Local Democrático, as Regiões Administrativas.

Esperei que as diferentes forças politicas em presença aproveitassem o momento eleitoral para nos colocarem quer a sua posição de partida sobre esta matéria, quer as propostas concretas para a sua implantação, agora que pela pressão dos autarcas, Presidente da República e Primeiro Ministro se viram “obrigados” a vir a terreiro reconhecer a sua necessidade.

Engano meu. As diferentes candidaturas que se apresentaram pelo nosso círculo eleitoral mantiveram os seus posicionamentos tradicionais: a CDU a reafirmar o seu propósito de continuar a bater-se pela sua concretização e as demais a fingirem que não sabem dessa necessidade.

Já as direções nacionais dos partidos até então com assento parlamentar não quiseram deixar de pronunciar-se, tanto mais que o próprio Presidente da República se viu “coagido” a lançar o tema em vésperas de eleição da nova Assembleia da Republica.

Das posições vindas a público e apesar das roupagens que as vestiam é fácil constatar que todos os partidos que construíram e votaram a Constituição da República se posicionam favoráveis à criação de serem discutidas as formas de descentralização politica e administrativa da governação do país. Dos partidos com grupo parlamentar, só o CDS não “aplaude” a Regionalização, na mesma linha do seu posicionamento face à Constituição que a consagra e que, como é sabido, votou contra.

Feita a constatação olhemos agora, com o olhar dos alentejanos, para a alteração, positiva, do posicionamento político de quantos, partidos e personalidades, estiveram por diversas vezes (demasiadas) em confronto com os defensores da Regionalização e com a vontade das populações que os elegiam.

Registemo-la e passemos à fase seguinte. Procuremos de imediato partir para a construção de convergências no desenho da Região Administrativa do Alentejo, das suas competências e da sua governança.

Há já trabalho (muito) feito. O acervo documental saído de cada Congresso sobre o Alentejo, que realizámos entre 1985 e o presente são a prova das potencialidades da Região e uma poderosa afirmação da vontade de milhares de homens e mulheres de contribuir para um Alentejo de progresso e bem-estar.

Em cada um dos Congressos realizados, que percorreram cada um dos distritos do Alentejo – do primeiro realizado em 1985 em Beja ao último que efetivámos em Castelo de Vide foi sempre sublinhada a importância da regionalização como um instrumento fundamental para a definição de uma verdadeira estratégia de desenvolvimento.

Que seja agora!

Diogo Serra


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 


“ Como está Sr. Contente

Como vai Sr. Feliz

Diga à gente, diga à gente…”

 

Durante alguns minutos espreitei o debate, anunciado como duelo decisivo, com que todas as estações televisivas em canal aberto distorceram a democracia entrando na campanha para promoverem os principais partidos do centrão dos interesses.

Não querendo detalhar as razões que em minha opinião justificam o tratamento de favor feito a essas forças políticas gostaria de trazer ao debate público algumas reflexões sobre temáticas que para quem vive e trabalha na nossa cidade e região deverão estar no topo das nossas preocupações, tendo à cabeça o facto de um distrito como Portalegre eleger apenas dois deputados no conjunto dos 230 que compõem o Parlamento Português.

Atentemos nesta realidade olhando-a de forma mais abrangente e tomando como área de análise toda a Região Alentejo. Neste amplo território que representa 1/3 do território Nacional são eleitos 3,7 % dos deputados e quantas vezes mais preocupados com os interesses do seu grupo do que com as necessidades e aspirações dos cidadãos e territórios por onde foram eleitos.

Há depois e a acrescer a esta situação, um conjunto de meias verdades ou puras falsidades que penalizam e dificultam a saída destes territórios (o Alto Alentejo mais que os restantes) do fosso para onde (n)os atiraram: São os esforços sem olhar a meios para o fomentar da bipolarização procurando garantir que a opção dos portugueses seja entre o Sr. Contente e o Sr. Feliz e que estes se mantenham como fiéis representantes do centrão (da política e dos negócios) que nos tem empobrecido desde 1976.

Com a campanha centrada não no esclarecimento e nas propostas de cada força política mas no espectáculo e no espalhafato e com a comunicação social diminuída na sua independência, seja pela dependência económica, pela dependência hierárquica aos grandes grupos financeiros, pela impreparação dos seus quadros (cada vez mais constituídos por batalhões de precários) ou pelo somatório de todas essas condições, os eleitores ficam reféns da opinião de uns quantos comissários que, usando o título de comentadores nos entram em casa a dizer-nos que o que ouvimos não foi o que ouvimos mas sim o que eles dizem que devíamos ouvir.

E assim, nos impigem que as eleições são para eleger o Primeiro-ministro e nos põem a opinar sobre a bondade do Sr. Contente ou as falhas do Sr. Feliz porque dizem-nos, será um deles a ser eleito primeiro-ministro no próximo dia 30.

Esquecem-se, querem que o esqueçamos, que estas eleições são para eleger 230 deputados para a Assembleia da República e que será a sua composição que definirá quem irá ser Primeiro-ministro e formar governo e será depois a sua apreciação a definir, se esse governo será ou não viabilizado.

Esquecem-se e querem que o esqueçamos quando 2015 ainda ali está bem visível na nossa memória.

Mas para nós tão ou mais importante que o sabermos quem irá formar o próximo governo é o sermos capazes de garantir que no Parlamento tenhamos a voz que nos tem faltado. Que o distrito de Portalegre possa ter voz pela palavra e pela acção dos deputados por aqui eleitos.

Mais, ou tão importante, do que dizem em campanha é garantirmos que entre os apenas dois que este território elege esteja quem possa e queira ser a Voz de todo nós.

A campanha ainda não começou (no dia em que escrevo este texto) e já nos prometeram tudo. Mesmo aquilo que recusaram há poucos dias, casos dos montantes do salário mínimo, a redução do horário de trabalho ou as promessas ciclicamente prometidas e esquecidas como as estradas que continuamos a não ter, a linha do Leste a dezenas de quilómetros da cidade capital do distrito e a funcionar pouco melhor que quando foi estendida até Badajoz, e isso foi no dia 24 de Setembro de…1863, a Escola da GNR que já nos levou várias medalhas municipais que não obtiveram retorno, etc,etc, etc…

Agora o tempo é de não nos limitarmos a escutar as promessas mil vezes repetidas e exigir que todos os actores locais (políticos, económicos e sociais) exijam e se exijam dar Voz ao distrito de Portalegre.

No território e na Assembleia da República serem/sermos a VOZ de Todos nós!

Diogo Serra

(publicado no Jornal do Alto Alentejo de 19-01-22)