domingo, 27 de setembro de 2020

UMA QUINZENA ATRIBULADA!

 

Uma quinzena atribulada!

 


Prá mentira ser segura,

E atingir profundidade,

Tem que trazer à mistura,

Qualquer coisa de verdade...

(António Aleixo)

 

 

No distrito e na região sucederam-se os acontecimentos. Inquietantes, uns, portadores de esperança, outros, mas todos eles a permitirem-nos aprendizagens diversificadas mas intensas.

 

Do ponto de vista social o distrito e a cidade viram-se atingidos por um surto epidémico com cerca de 3 dezenas de infetados e com centenas de portalegrenses em confinamento e sobressalto enquanto persistem e se intensificam os outros efeitos da pandemia: o desemprego, que em Julho atingia já 6.093 norte-alentejanos, a perda de rendimentos, o medo e as formas de intolerância e de egoísmo que este potencia.

 

No plano politico, cidade, distrito e região foram palco de diferentes iniciativas político-partidárias, que trouxeram à luz do dia o que de melhor e pior nos podem oferecer. Que potenciaram a esperança, que estimularam (umas) e combateram (outras) o medo e a desesperança com que alguns teimam em prendermos.

Ainda neste plano, o constatar da vontade de uns quantos em procurar enredar-nos com “papas e bolos”, com propaganda e mentiras.

 

Entre as ocorrências de âmbito social na nossa cidade o “palco principal” foi ocupado com a pandemia que tem virado do avesso a nossa forma de vida. Um foco detectado num restaurante da cidade, colocou na ordem do dia para além da paralisação de uma empresa que, dava os primeiros passos no caminho da recuperação e dos problemas colocados aos infectados, seus familiares e clientes e trouxe à tona o que de pior existe em cada um de nós com o “diz que diz” a inundar conversas e redes sociais com a mais abjecta campanha de acusação contra quem necessitava e necessita de solidariedade e compreensão.

No distrito e na região o palco foi ocupado pelo regresso do vírus a lares e residências de idosos e, de novo, com o medo a cegar a inteligência e a permitir e estimular o dedo acusador no lugar da solidariedade e compreensão e como por todo o país,  a reabertura das escolas a exigir-nos uma considerável coragem e, ao mesmo tempo, a confirmarem-se as inúmeras insuficiências de há muito detectadas e a justificarem a maior angustia por parte de pais e professores.

No plano político registaram-se iniciativas que nos trouxeram alguma esperança de que é possível, cumprindo as regras sanitárias, voltar a viver. A realização e a forma como decorreram algumas das iniciativas de massas na Atalaia, (festa do Avante), em Fátima (peregrinos no santuário), em Lisboa e Porto (feiras do livro) umas mais “cumpridoras que outras” até pela enorme discussão que geraram permitiram mostrar-nos que não estamos condenados “à prisão”.

Infelizmente foram em maior número as que nos deixam apreensivos, sendo a primeira delas a insistência do governo em fingir que é regionalização a negociata feita entre o PS e o PPD para dividirem entre si, os capatazes para em seu nome nos imporem as suas politicas centralizadoras e de divisão do país entre o litoral e o interior.

No plano do distrito as diferentes forças político-partidárias voltaram ao terreno destacando-se o partido do governo que, volta a gritar-nos a partir do seu congresso ou, pela voz dos deputados que participaram num conclave ibérico “que agora é que é, agora é que é”: as obras há anos reivindicadas e mil vezes prometidas vão finalmente avançar e contabilizam em 400 milhões o envelope financeiro que dizem ter disponível e, na cidade, na nossa cidade persistem as politicas do “quero, posso e mando” do alheamento dos problemas e do cumprimento das leis, da destruição do património cultural e da manutenção do não pagamento dos salários a trabalhadores de empresas do perímetro municipal.

 

Mas persistem os sinais de esperança! Quando os promotores do discurso e das políticas da xenofobia, do racismo e do ódio procuram e anunciam “a tomada do Alentejo”, a juventude alentejana concentrada na Praça do Giraldo sem Pavor, ao som da Grândola Vila Morena e armada com cravos de papel, deu-lhes a resposta necessária.

Que este sinal possa replicar-se na região e no país.

 

Diogo Júlio Serra

* Artigo publicado no Jornal do Alto Alentejo em 23-9-2020

sábado, 12 de setembro de 2020

Entre o Decreto burla (?) e a gestão de expectativas!


 

Entre o decreto burla(?) e a gestão de expectativas!*

No passado dia 17 de Junho em opinião aqui publicada interrogava-me sobre a “bondade” da acção legislativa do governo para a denominada (mal) democratização das CCDR’s ou como outros preferem dizer, do primeiro passo da regionalização.

Passados quase três meses vamos conhecendo quer as “negociatas” dos partidos do centrão para dividirem entre si, as presidências e no que à nossa região diz respeito, ao aparecimento formal ou insinuado dos candidatos que se perfilam, quer os muitos milhões (por enquanto virtuais) que o país e as regiões irão ter para investir.

Uma e outra das situações descritas não podem deixar-nos adormecidos.

Quanto à eleição das CCDRs  confirma-se a nossa preocupação relativa a um novo “Decreto-burla”. O facto de antecipadamente os diretórios do PS e do PSD terem dividido entre si as presidências das CCDRs é motivo suficiente, mas há pior. Estas estruturas continuarão a ser, como até aqui, meros departamentos dos governos centralistas.

Não importa que esteja ou vá para a Presidência um adepto do centralismo ou um regionalista confesso, o que importa  é que cada CCDR continuará a ser como até agora, um órgão da administração desconcentrada do Estado, mantendo –se sob a dependência total do governo.  Este terá o direito de nomear diretamente um dos dois vice-presidentes e, se o entender necessário, (leia-se se o Presidente “se esquecer de atender o telefone ou não perceber o que lhe é dito”) demitir o Presidente eleito.

Em Portalegre, cidade e sub-região, conhecemos bem o que significam tais “direitos” dos governos. Não esquecemos as posições tão assustadoramente desiguais dos Srs. Juan Carlos Ibarra e Carmelo Aires quando da inauguração da nova Ponte da Ajuda ou mais recentemente, as barreiras e boicotes que esteve sujeita a candidatura e presidência do “nosso” João Transmontano na CCDR Alentejo e da mudança da lei para impedir que mais “transmontanos” fossem possíveis.

A segunda, a sementeira de expectativas, com os muitos milhões que “se aproximam”.

Num momento em que parece estar tudo em questionamento. Quando o governo de António Costa incumbiu um outro António para elaborar uma proposta estratégica para a recuperação económica de Portugal 2020-2030, já apresentada e em discussão, quando se anunciam todos os dias obras, investimentos e chuva de euros… é hora de arregaçar as mangas, aguçar o engenho e não ficarmos a ver passar comboios.

É importante que se reconheça (e corrija) “que o modelo de desenvolvimento económico e social actual , baseado no consumo exponencial de recursos, na concentração da riqueza, no aumento galopante das desigualdades e na crescente destruição ambiental, não é sustentável e deve ser mudado.”[i] Mais, “as visões liberais extremistas que prevaleceram no passado conduziram o país à perda de grande parte da sua indústria e a um certo culto de desprezo pelos recursos nacionais.[ii] .

É importante mas não é suficiente. O distrito de Portalegre tem que ver garantida a resolução dos problemas criados e mantidos pelas opções erradas dos governos centrais e centralistas e ver garantidos investimentos públicos e políticas que potenciem os nossos recursos e capacidades e nos permitam romper as fronteiras que nos mantém isolados de outras regiões e comunidades, do desenvolvimento e do futuro.

Importa que se concretizem os projectos tantas vezes anunciados e adiados e desde logo a construção do empreendimento de fins múltiplos do Pisão e a electrificação e modernização da Linha Ferroviária do Leste, entre Abrantes e o Caia, com a alteração do traçado que a aproxime da cidade de Portalegre e com a garantia de ligação à linha rápida em construção entre Sines e Caia.

Que se termine de vez o IC 13 e se garantam eixos de ligação em perfil de auto-estrada entre a A6 (Elvas/Campo Maior) e A23 (Portalegre/Nisa e Gavião e a ligação rodoviária Estremoz/Avis/Ponte Sor/Abrantes. Que a aspiração e necessidade de toda a região numa ligação Nisa/Cedillo, através de uma ponte sobre o Tejo ou o Sever seja concretizada e, também, que se aposte na reindustrialização do distrito, potenciando quer os recursos endógenos, quer a existência de cultura operária bem sedimentada na cidade de Portalegre.

O Presidente do NERPOR veio na passada semana, nas páginas deste jornal, desafiar o distrito a envolver-se na discussão deste e outros problemas para que a sua voz possa fazer-se ouvir.

Concordo! Como ele defendo desde há muito, que só podemos minimizar a falta de peso económico e político que nos caracteriza se conseguimos fazer da unidade de acção a força que nos falta.

É a hora. Vamos ao trabalho!

Diogo Júlio Serra

* publicado no Jornal Alto Alentejo de 9-9-2020

[i]                       Documento de autoria de António Costa Silva, pág. 24

[ii]                      Documento citado, pág. 91.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

São Rosas...

 





São rosas meu senhor…

 


“E haverá sempre gente de extrema-direita, haverá sempre o ódio, haverá sempre quem tenha um poster do Hitler em casa. Haverá sempre nostálgicos da ditadura. Haverá sempre nostálgicos da escravatura. O que não se pode é dar espaço a essa gente.”

 

A frase de Teresa Villaverde que encabeça o seu artigo de opinião publicado no jornal O Público, e a sua oportunidade, vieram-me à memória ao analisar a “novela” protagonizada pela rapaziada do “tem avondo” e publicitada por uma rádio local.

Na verdade será praticamente impossível num curto espaço de tempo, fazer desaparecer os nostálgicos da ditadura, os nostálgicos da escravatura, os que insistem em cultivar o ódio. Constatamo-lo diariamente pelos comentários nas redes sociais, no aplauso fácil aos discursos racistas e xenófobos, nas tentativas de mostrar igual o que é abissalmente diferente, na tentativa de tornar os vilões em vítimas ou no mínimo, perante verdadeiros crimes procurarem dizer-nos que criminosos e vítimas são igualmente culpados.

Quanto a esta realidade não será difícil concordarmos que, só com anos de instrução, informação e educação conseguiremos extirpar o medo e o preconceito, do que entendemos como diferente e logo perigoso. Mas tão ou mais importante que esta constatação é aceitarmos e agirmos que, como também é dito por Teresa Villaverde, “não se pode é dar espaço a essa gente.” E aqui chegados, retornemos à “novela”.

A “rapaziada do tem avondo” mandou colocar em Portalegre um grande painel com a fotografia do rapaz que dá a cara e papagueia o ódio a partir da Assembleia da República e, quando passaram ao local para apreciar a “obra” constataram que o mesmo estava rasgado.

Peritos na utilização do “megafone mediático” os apoiantes locais, o “caudilho” e as centenas de perfis inventados, lançaram de imediato uma campanha de vitimização e denúncia da acção anti democrática dos inimigos do “avondo”, que por medo da “sua” verdade querem calá-lo. Situação que o megafone local se apressou a garantir, não conseguirão!

Até aqui tudo normal. Como de costume esta rapaziada costuma defender-se, gritando enquanto foge, “ agarrem que é ladrão”! O que já poderá não ter sido tão natural assim, foi a rapidez e a ausência de rigor com que alguma comunicação social local, uma rádio e um blogger, deram palco à mentira!

Rapaziada do “avondo”, jornalista e blogger, acredito que com razões diferentes, preferiram o filme da conspiração, à confirmação da “notícia “e à ponderação necessária.

O epílogo é conhecido. Ainda uns e outros procuravam atingir as suas audiências já a épica narrativa caía com mais ruído com que “caíra o cartaz”. Um morador informava ter assistido ao rompimento do cartaz devido a um golpe de vento que ocorrera. E pronto uma estória tão bem “contada” e que permitiria chegar ao coração de mais uns quantos “crentes”, regar democracia com gasolina, um furo jornalístico que iria consolidar o slogan da mais ouvida, um post destinado a encher o ego de quem o publica, transforma-os, pelo menos por algum tempo, em motivo de chacota de toda a comunidade.

Mas seria mau, muito mau, que nos ficássemos pelo sorriso. Esta “novela” mostrou-nos a verdade que encerra a frase citada no início do texto:

 “O que não se pode é dar espaço a esta gente”. E dar espaço a esta gente, não é só quando se divulgam as suas mentiras ou se branqueiam as suas acções. Dar espaço a esta gente é quando se afirma que são todos iguais os que sabemos serem diferentes, quando se afirma não haver (as posturas xenófobas e racistas, as manifestações e práticas nazi-fascistas) o que todos sabemos existir. É também, não conseguir ver a manifestação do 1º de Maio no centro da cidade e ver, no Atalaião, o que afinal não existiu!

Diogo J. Serra

(artigo publicado no Jornal do Alto Alentejo de 26-08-2020)

quarta-feira, 29 de julho de 2020

E nós a vê-los passar?





E nós a vê-los passar?*

O Corona vírus e a pandemia que originou tornaram o “nosso” mundo mais incerto e perigoso e puseram a nu, o que de errado temos vindo a fazer ou a permitir e os seus maléficos resultados.
Atingidos nas “nossas certezas” e com medo do desconhecido, deixámo-nos confinar, abdicámos de direitos, demos (alguns) rédea solta aos que procuram concentrar em si, sobretudo e sobre todos, toda a riqueza produzida.
Anestesiados pelo medo e pela força de uma comunicação orquestrada e paga pelos senhores do dinheiro. (Sim, eu sei que não é toda assim orquestrada e paga. Alguns são só idiotas úteis, armados em modernaços e, muito poucos, continuam a remar contra a maré). Fomos achando natural, tudo quanto é anti-natural. Abdicámos da liberdade em troca de uma ideia de segurança, abdicámos de rendimentos por medo do desemprego, aceitámos por medo e desconhecimento continuar a pagar a nossa perda de liberdade, a redução dos salários, de emprego e de felicidade.
Entretanto os senhores do dinheiro e os capatazes que têm espalhado pelos centros de decisão e pelos “fazedores” de opinião aceleraram o seu “trabalho”, para tornarem ainda mais eficientes as suas actividades predadoras.
Olhemos para a situação vivida no nosso território.
Milhares de famílias viram reduzidos significativamente os seus já parcos rendimentos, seja por perda do emprego, pelo encerramento dos seus pequenos negócios (encerramento obrigatório ou por perda de clientes) ou pela imposição do Lay-off que lhes foi imposto – uma forma de reduzir o rendimento dos trabalhadores e passar diretamente para os donos do capital, quer a parte tirada aos trabalhadores, quer os subsídios, também dinheiro dos trabalhadores, que lhes são doados através da Segurança Social.
Apesar das “dádivas” ao patronato serem feitas, dizem, para garantir a continuidade dos postos de trabalho, o desemprego no distrito, é agora (dados de Junho) superior em mais de 23% ao desemprego registado em Junho do ano passado.
As grandes empresas sugaram a esmagadora maioria dos dinheiros disponibilizados e aproveitaram para despedir mais umas centenas largas de trabalhadores, substituíram a palavra “despedir” pela expressão “não renovar”, diferente na semântica mas de igual resultado. Aproveitaram para reduzir rendimentos, obrigarem “ilegalmente” os seus trabalhadores a gozarem férias antecipadas e aumentarem a jornada de trabalho.
Foi assim nas grandes cadeias de supermercados, nas multinacionais do sector automóvel, nas empresas que monopolizam o serviço de cantinas e bares em inúmeros serviços públicos, foi e é assim, nas empresas de transportes colectivos, como a Rodoviária do Alentejo, a quem todos nós e os seus trabalhadores, pagamos o serviço que esta não faz e assim, mantendo os lucros e deixando os norte-alentejanos ainda mais isolados.
Do ponto de vista social o retrato é igualmente aterrador.
As nossas crianças afastadas das escolas e dos amigos tornaram-se prisioneiras nas suas próprias casas. Muitos trabalhadores “obrigados” ao tele-trabalho aprenderam dolorosamente como esse sistema de trabalho (que alguns pensaram ser um benefício) é afinal uma nova e mais intensa arma de exploração dos trabalhadores que viram aumentados os tempos de trabalho e passaram eles a suportar um número significativo dos custos das empresas: Net, energia, higiene e limpeza, etc…
Os pais, obrigados a gozar as férias em Março e Abril enfrentam agora Julho e Agosto, sem férias e sem local onde deixarem os filhos e estes, com as escolas encerradas perderam em muitos casos, o direito à única refeição completa que lhes era proporcionada.
Os idosos, em particular os institucionalizados são, talvez, as principais vítimas desta situação. Impedidos de serem visitados pelos seus familiares e confinados em instituições impreparadas para fazerem face a esta situação sanitária.
A pandemia veio dar maior visibilidade às consequências de mantermos uma forma “esclerosada” de organização política, de um estado centralizador e que sistematicamente abandona as regiões mais afastadas dos centros de decisão.
A situação de isolamento a que estamos sujeitos sem transportes públicos rodoviários entre os concelhos do distrito e entre este e o restante território e sem o transporte ferroviário que queremos e merecemos é exemplo desse abandono.
O governo, (é cada vez mais perceptível) faz parte do problema e não da solução, ao apoiar as decisões das empresas concessionárias e subsidiadas, a não prestarem os serviços a que estão comprometidas, como na passada sexta - feira, foi denunciado pelo Movimento Sindical, ou a insistirem em afastar Portalegre e o distrito dos benefícios do transporte ferroviário de passageiros e mercadorias.
E se dúvidas houvesse aí estão o encerramento e desativação de linhas e ramais, a não modernização da Linha do Leste e da sua aproximação à cidade de Portalegre. Aí está o traçado da linha de alta velocidade entre Sines e Caia que, ao não parar em Elvas, apenas se serve do nosso território como corredor de passagem e na melhor das hipóteses, como miradouro privilegiado para vermos passar os comboios.
Só há um caminho. O que obrigou governo e CP a voltarem a ter serviço de passageiros na linha do leste: a luta das populações!
Diogo Júlio Serra
* publicado no Jornal do Alto Alentejo de 28-7-2020

quarta-feira, 15 de julho de 2020


Mais vale um ganhão
todo roto e remendado
que um “salta pocinhas”
de chapéu ao lado!



Em tempos de branqueamento do fascismo e das garras que o caracterizaram na ditadura e também na chamada consolidação da “democracia” muitos dos que por necessidade se “converteram” à democracia começam a perder o medo de “sair do armário “e assistimos, também no nosso distrito, a atitudes e acções que corporizam a vontade de branquear “os negros anos” e reescrever a história recente.
O “plano em marcha” passa pela “recuperação da bondade do salazarismo” utilizando a mentira para procurarem opor o que chamam de moral salazarista à corrupção existente, procurando tomar por dentro o aparelho de estado, utilizando comandos fascistas, agora chamados de nacionalistas, para controlarem as forças militares e para militares e um partido politico nascido com trafulhices a partir das organizações nazi-fascistas e alimentado com os dinheiros da corrupção que dizem querer combater.
Passa ainda pelo aproveitamento das posições que detém na comunicação social dita nacional e dos idiotas úteis que um por pouco por todo o lado por interesse material ou por vaidade replicam os ideais, as mentiras e as campanhas enganadoras com que visam o regresso ao passado.
São os aproveitamentos de descontentamentos (justíssimo) de sectores da nossa sociedade e em particular nas forças de segurança (GNR, PSP, Guardas Profissionais e outros) onde os zeros actuam e recrutam.
São as campanhas mediáticas que se aproveitam do preconceito, da desinformação e de focos reais de insegurança, para disseminarem a propaganda do ódio através do discurso xenófobo e racista.
São as diárias demonstrações, escondidas por detrás duma contemporaneidade bacoca,  menorização da nossa cultura e abastardamento da nossa língua.
São ainda as campanhas de aliciamento da direita politica, particularmente a direita democrática, para posições que ditas de combate ao que apelidam de “cultura marxista” procuram regredir direitos conquistados com o 25 de Abril, ancorados na Constituição da Republica e na Carta dos Direitos Humanos.
É inserido nesta estratégia de branqueamento que temos vindo a assistir ao recrudescer da propaganda disfarçada de literatura da reedição dum livro escrito por um salta-pocinhas da política e empregado devoto do grande capital. Saudosistas militantes da ditadura terrorista dos agrários, idiotas úteis por estes utilizados ou cidadãos que ainda não conseguiram ultrapassar os traumas “vividos” afadigam-se agora a replicar a verdade dos que por ganância e por ódio maltrataram, destruíram e mataram esta terra e este povo.
Todos conhecemos a velha táctica de defender atacando mas que não se iludam. Por mais noticias que comprem, por mais alto que gritem nunca conseguirão apagar os crimes e as mortes que originaram e entre as mais dolorosas a que cometerem no Escoural e que motivou, também em Portalegre, a 28 de Setembro de 1979 a maior manifestação indignação e dor que esta cidade já viveu.



Não há mal que sempre dure…Nem fome que não dê em fartura!




Não há mal que sempre dure…Nem fome que não dê em fartura!*

Estas “sentenças populares” com que convivi desde os meus tempos de menino, em Arronches e em contacto directo com os homens do campo, vieram-me agora à lembrança ao tomar conhecimento da decisão tomada pelo nosso município de iniciar um processo de classificação de algumas dezenas de edifícios do concelho como Monumentos de interesse Municipal.

Decisão acertada, que só peca por tardia.

Na verdade alguns dos edifícios agora incluídos na lista divulgada já estavam propostos para classificação no PDM de 2011 e outros já se encontram em acelerado processo de degradação e, por isso, a necessitarem de intervenção urgente. São os casos do antigo Mosteiro de S. Mamede e da Capela de S. Pedro, ambos em ruínas. Decisão igualmente tardia para o Bairro da Vilanova, o Clube de Ténis e o antigo Sanatório, também eles a precisarem de cuidados urgentes.

Apesar de a lista ser extensa e incluir alguns de duvidosa “qualidade” outros continuam a ficar de fora apesar de reconhecidamente deverem estar incluídos. Recordo-vos só a título de exemplo o edifício sede da Cooperativa Operária e a antiga sede da Sociedade União Operária, propriedade do município e que este deixou degradar e que vai agora ser ocupado por um “semillero de empresas” mais um, numa cidade que apesar dos viveiros (muitos) teima em não ter actividade empresarial significante.

O primeiro, o edifício sede da Cooperativa Operária, inaugurado em 1905, sete anos depois da fundação da Cooperativa, foi ao longo de décadas suporte de todo o movimento associativo e operário. O segundo, o edifício inaugurado também em 1905, para sede da Sociedade União Operária – a primeira Associação não mutualista fundada em Portalegre.

Todavia esta decisão do Executivo Municipal que mereceu a unanimidade dos seus membros e o aplauso generalizado da população, em particular dos que se interessam pelas questões do património e da nossa cultura, é apenas uma etapa, a primeira dum processo que por si só não garante que o nosso património seja salvo da degradação.

É um caminho que a ser percorrido com a lentidão habitual pode não chegar em tempo útil ou transformar-se em desculpa para não serem efectuadas as intervenções de conservação e recuperação que a sua importância e os portalegrenses merecem.

Para muitos dos que estão em situação mais estável importa que a classificação não fique só pelas paredes e inclua o recheio e a função. São os casos do Café Alentejano e do Crisfal onde ao edificado deve juntar-se quer o seu recheio quer a sua função.

O Alentejano é muito mais que o edifício onde está instalado. Os painéis com as ceifeiras, o mobiliário usado e o vermelho forte na sala de entrada. O revestimento negro dos painéis de madeira no salão dos bilhares e a sua função social e cultural fazem dele, como muito bem o definiu o Professor Martinó, “não apenas um café mas um museu. O Alentejano é um museu vivo, que recupera memórias de gentes e de acontecimentos”.

O mesmo se pode afirmar do Crisfal. Este edifício ilustrativo da arquitectura do salazarismo, foi inaugurado em 1956. Único cine-teatro na cidade está intimamente ligado a várias gerações de portalegrenses.

Tendo em conta o anunciado pela Câmara Municipal de que o objectivo da actual decisão é a protecção e valorização dos imóveis agora seleccionados ficamos a “torcer” para que desta vez, nos gabinetes municipais existam a vontade e os meios para travar o desmoronamento da cidade e a destruição da sua e nossa memória.

Diogo Júlio Serra
* publicado no jornal do Alto Alentejo de 15-7-2020

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Parabéns União



…Pr’ a União dos Sindicatos, uma salva de Palmas!*

A 4 de Julho próximo cumprem-se quarenta e cinco anos do nascimento (oficial) da União dos Sindicatos do Norte Alentejano.
Nasceu da vontade dos trabalhadores, na Praceta dos Lusíadas onde então funcionava a delegação distrital do Sindicato dos Bancários de Lisboa e que é hoje a sede distrital do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas. Num Plenário Distrital de Sindicatos presidido por António Milheiros – Bancário, António Serrano – Operário Agrícola e António Ceia dos Reis – Operário Corticeiro era dado cumprimento ao estabelecido na “lei sindical” e aprovados os estatutos da União dos Sindicato do Distrito, conforme a convocatória enviada a 19 de Junho.
Eram então apenas 4 sindicatos mas que representavam, como a legislação dispunha, mais de 50 % dos trabalhadores sindicalizados no distrito: os sindicatos dos corticeiros e dos operários agrícolas do distrito de Portalegre, o sindicato dos químicos de Setúbal e o Sindicato dos Bancários de Lisboa.
Nos quarenta e cinco anos já cumpridos, foram muitos os dirigentes e activistas que lhe deram vida e voz. Foram inúmeras as alegrias e tristezas vivenciadas. Muitos sonhos, aspirações e alguns fracassos alicerçaram o seu caminho que, felizmente, continua a ser testemunhado por dois dos seus fundadores: o António Milheiro que presidiu e o António José que secretariou o Plenário fundador.
Organização de trabalhadores tem sido e continuará a ser aquilo que os trabalhadores do distrito e em particular os que a “alimentam” quiserem que ela seja.
Estrutura integrada no Movimento Sindical de Classe foi e é a voz e o querer dos trabalhadores deste Alentejo do Norte e um dos actores locais mais actuantes na defesa da sua população e dos seus anseios e direitos. Assume como tarefa primordial a defesa e representação de todos os trabalhadores assalariados do distrito sem abdicar da intervenção politico-social em todas as frentes onde se discuta e decida o futuro do território e dos seus habitantes e onde, no seu entender, se possam construir pontes capazes de unir vontades e acções que permitam alcançar o desenvolvimento e o bem-estar que o distrito ambiciona e merece.
A luta pela Regionalização que o Alentejo reclama e a Constituição da Republica consagra tem sido, também, objecto da sua intervenção como o comprovam a sua adesão e participação em todos os fóruns e organizações que a reclamam. Participou em todos os Congressos do Alentejo que têm percorrido toda a Região, integrou todos os movimentos pela Região Alentejo, participou de forma empenhada “Pelo Sim à Regionalização” e à Região Alentejo e integra, o Movimento AMALENTEJO e a sua “luta” pela institucionalização da CRA-Comunidade Regional do Alentejo um instrumento que permita experienciar no Alentejo, as vantagens da Região Administrativa.
É esta organização de trabalhadores, jovem de 45 anos, que se prepara para disponibilizar à região e ao país as memórias da cidade operária que Portalegre já foi.
Previsivelmente até final do ano, recuperado o edifício que foi até há pouco a sede dos Corticeiros mas que foi desde 1912 a casa sindical de corticeiros, sapateiros, rurais e outros, abrir-se-á ao público o CDAMOS-Centro Documental e Arquivo do Movimento Operário e Sindical do Norte Alentejano.
A USNA/cgtp assinalará o seu 45º aniversário um dia antes, a 3 de Julho, na Zona Industrial de Portalegre com uma concentração em defesa dos direitos dos trabalhadores, direitos que têm sido fortemente atacados no tempo que atravessamos.
Comemorar o 45º aniversário em luta, na rua, simbolicamente frente a uma das empresas que é campeã na precariedade e nos despedimentos (mesmo que “embrulhados” com designação diferente) mostra que os 45 anos não lhes retiraram a juventude e que irá continuar o combate iniciado em julho de 1975.
Tenho disso absoluta certeza. Uma certeza alicerçada no conhecimento profundo que dela tem que ter quem, como eu, a acompanhou por dentro ao longo de 42 dos seus 45 anos de vida, 37 dos quais participando na sua direcção.
Parabéns à União dos Sindicatos, aos seus fundadores, a quem a mantém e dirige e aos trabalhadores do Distrito de Portalegre.
Diogo Serra
* publicado no Jornal Alto Alentejo de 1 de Julho 2020