domingo, 5 de maio de 2019

INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO




É só Azia?

O Jornal Alto Alentejo, no seu último número, trouxe-nos um artigo de opinião assinado por um “militante” da sucursal de Portalegre do “estado do Vaticano”.
Nele o articulista opinava  acerca da toponímica local e dava a sua opinião sobre a necessidade de manter a “memória da cidade”. Tudo bem, o articulista nunca escondeu o seu empenhamento na defesa do património cultural, em particular o nosso património religioso e tem todo o direito, direi mesmo  a obrigação de defender as suas opções.
O que motiva este apontamento é a forma como, desta vez, não conseguiu resistir a integrar-se na onda de “ressabiamento” que atingiu a direita mais reaccionária que ainda vive em Portalegre.
Procura  combater a decisão de dar a algumas artérias da cidade o nome de alguns dos mais conhecidos construtores da Democracia e na sua ânsia de procurar argumentação  credível para sustentar a sua tese esquece o rigor a que nos habituou em escritos anteriores propondo nomes que a cidade já homenageou.
 Por outro lado e procurando ligar a justa homenagem com a partidarização que o enreda enleia-se em tiradas anti-comunistas requentadas, perdendo assim qualquer razão que pudesse reclamar.
De facto, o ilustre portalegrense, - meu amigo e camarada - Joaquim Miranda da Silva tem o seu  nome registado numa artéria da cidade e mesmo a Medalha de Ouro Municipal que a direita retrograda lhe havia negado uma vez  já lhe foi, justamente, atribuída.
Também as insinuações a sonhos e práticas soviéticas que regista não fazem esquecer e muito menos apagam as práticas e crimes da Inquisição  e isso não obrigou, e bem, que tivéssemos apagado da nossa memória e da toponímia da cidade nomes de personalidades que foram a voz e a cara da sucursal portuguesa da instituição que a promoveu
Por último a insinuação que agora se seguiriam os nomes dos dirigentes do Bloco de Esquerda e apresentação de alguns deles, alguns já falecidos é, permitam-me a afirmação, uma baixaria que não acreditava ser-lhe possível, tanto mais que alguns deles, recordo,  Miguel Portas e João Semedo são inegavelmente merecedores da nossa admiração e homenagem.
Espero sinceramente que o escrito tenha sido apenas um mau momento!

Portalegre, 5 de Maio de 2019
Diogo Serra

quinta-feira, 18 de abril de 2019

E no entanto ela move-se




 ….. e pur si muove!”

AMAlentejo voltou a fazer ouvir as suas propostas para o Alentejo e nos Olhos de Água, no coração da Serra de S. Mamede, assinalou o 30º aniversário do Parque Natural da Serra de S. Mamede com um seminário que mobilizou muitas dezenas de alentejanos.
No Seminário ali realizado e que teve comigo, na sessão de abertura, as honrosas presenças do Dr. Pedro Queiroz - Diretor do ICNF do Alentejo e da Dra. Adelaide Teixeira – Presidente da Câmara Municipal de Portalegre contou com um qualificado painel de oradores: Pedro – Biólogo; Margarida Cancela de Abreu – Arquiteta Paisagística; Helena Neves – Bióloga; Teresa Moreira – Técnica de Turismo e António Pita – Presidente da Câmara de Castelo de Vide.
O Jornalista Hugo Teixeira foi o moderador e foi colocando aos oradores os questionamentos que diariamente são levantados por quem habita a serra, quem nela investe e trabalha e quem dela gosta.
Na sala, o bem apetrechado e simpático auditório do Parque Natural, totalmente lotada, registava-se a presença de autarcas oriundos de 9 concelhos alentejanos: 8 do Alto Alentejo e um do Alentejo Central, de responsáveis do ICNF e do Parque, do Politécnico de Portalegre, de Associações Empresariais, Associações Locais, de Sindicatos e das estruturas regionais de três dos seis partidos políticos convidados (todos os que possuem representação parlamentar) e do Movimento Politico que dirige o Município de Portalegre.
Uma excelente jornada de trabalho, convívio e divulgação da joia que S. Mamede é.
Só que… foi o AMAlentejo quem, em parceria com o ICNF e o município de Portalegre a idealizaram e a realizaram. O AMAlentejo que com os alentejanos não desiste de reclamar o cumprimento da Constituição da Republica e a instituição do terceiro pilar do Poder Local Democrático que ela consagra e tal situação não podia deixar indiferentes quer o governo centralista quer os seus seguidores na região.
Dois dias antes montam uma ação para no mesmo dia e no mesmo local (só a hora não coincidiu), e com muitos dos mesmos protagonistas tentar “abafar” a iniciativa.
Valeu tudo. Convocam-se os Autarcas dos quatro concelhos onde o parque se insere, o ICNF e o Parque, faz-se deslocar uma Secretária de Estado e dois dias antes apela-se à presença da comunicação social.
Não conseguiram diminuir a dimensão e importância da iniciativa de AMAlentejo mas, com a conivência da Comunicação Social Local, conseguiram esconde-la da opinião pública.
Procurarão agora, os do costume, convencer-nos que tudo não passou de uma coincidência. Pois! Foi por coincidência que os nossos jornalistas não encontraram de manhã os caminhos, as canetas, os microfones e as máquinas fotográficas que afinal conseguiram na parte da tarde desse mesmo dia ou, que uma autarca do distrito que é também dirigente associativa não tenha podido integrar o Painel por não estar no distrito e pasme-se, aparecer à tarde no mesmo local, no mesmo palco e na companhia dos mesmíssimos que ali haviam estado de manhã.
Por acaso ou conspiração esconderam uma “bonita” iniciativa de quantos lá não puderam estar. Já outros há muitas centenas de anos quiseram tapar os olhos à verdade mas como então terá dito Galileu “ e no entanto ela move-se!”

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Viva o 10 de Junho e a Restauração


…”Viva o 10 de Junho e a Restauração”!

Quarenta e um anos depois as comemorações do 10 de Junho voltam a ter Portalegre como palco.

A cidade e o Alto Alentejo podem assim mostrar-se a Portugal e à Diáspora dando-lhes a conhecer a sua evolução (ou não) ao longo das últimas quatro décadas.

Esta possibilidade poderia/deveria mobilizar os portalegrenses na procura de encontrarmos a melhor maneira de mostrar o que somos e como estamos e, sobretudo, a nossa vontade de trabalhar para que possamos atingir os patamares de desenvolvimento e bem-estar que ambicionamos e merecemos.

E se é sabido que deixámos perder o “titulo” de capital industrial do Alentejo, que a nossa agricultura há muito deixou de ser uma realidade, que por “maldade” do centralismo que nos condena e do “centrão” que nos ostraciza, não poderemos deixar de fora as culpas próprias que a cada um devem ser assacadas.

Culpas que não são de outros e cujo exemplo está hoje e agora bem visível na forma como temos vindo a discutir a decisão de termos em Portalegre, este ano, em partilha com Cabo Verde, as comemorações do dia de Portugal e das Comunidades.

Na verdade o que tem motivado a discussão, em particular na comunicação social e nas redes sociais, não é a preocupação em potenciarmos a favor da cidade e do distrito “o tempo de antena” que nos será oferecido.

A discussão vai-se fazendo, não sobre as possibilidades que essa “montra” nos abre, mas sim, sobre a bondade da decisão presidencial de ter nomeado como Presidente da Comissão do 10 de Junho, um portalegrense. Um jornalista que reside e trabalha na “cidade grande” e a quem a aparição semanal na “caixinha mágica” tem dado alguma visibilidade.

Porque não tem “obra feita” que o justifica, dizem alguns. Porque é de direita, sentenciam outros. Porque…porque…porque…

Não tenho particular simpatia pelo Jornalista nem conheço pessoalmente este portalegrense. Aliás devo confessar-vos fiquei a simpatizar muito mais com a sua esposa (que não conheço) porque ele, João Miguel Tavares, confessou a “indignada” manifestação da senhora quando lhe anunciou a decisão da Município de Portalegre em outorgar-lhe a medalha de ouro da cidade. Mas
não consigo perceber as razões para tanta indignação por parte dos portalegrenses.

Já em relação aos não portalegrenses e em particular a uma certa “inteligência” lisboeta percebo-o facilmente. Custa-lhes entender que “Um Zé Ninguém” alentejano e portalegrense possa ser designado para um lugar que entendem dever ser de acesso restrito e só para os “iluminados” oriundos daquela estreita faixa onde tudo se decide e onde tudo se concentra.

Entendo por isso que é tempo de deixarmos de discutir o acessório e nos empenhemos, todos, em aproveitar ao máximo a possibilidade que se nos abre de mostrarmos as nossas potencialidades, a riqueza do nosso património cultural, arquitectónico, paisagístico e ambiental.  A excelência da nossa gente a nossa capacidade de acolher e a extraordinária localização desta terra que pode ser, só por si, uma vantagem para quem aqui queira investir e instalar-se.

Quanto ao saber se o João Miguel Tavares é mais ou menos de direita, se tem obra maior ou menor, se passou ou não pela universidades ditas de referência assumamos que tal é muito menos importante do que o facto de ter nascido e crescido espraiando o olhar pela nossa rua do comércio, respirando o ar da Serra de S. Mamede e interiorizando as dificuldades e desventuras de quem nascendo e vivendo numa cidade distante apenas 200 km da orla marítima, é rotulado de interior e, por isso, afastado das condições mínimas necessárias a garantirem, a todos, o direito de viverem e trabalharem na terra onde nasceram.


Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 13 de março de 2019

Não é pelo luto que lá vamos!



NÃO, NÃO É PELO LUTO.
É PELA LUTA QUE LÁ VAMOS!

O mês de Março é, para mim, o mais bonito dos meses do ano.
É o mês que dá (ou dava) início à Primavera. É (foi) em Março, que ao longo de muitos anos juntei a minha voz à de muitos mil, jovens e menos jovens, que exigiam melhores condições de vida e de trabalho e, na década de 60, Liberdade, Democracia e o fim da guerra colonial.
É neste mês, em cada dia 6, (já lá vão 93 anos) se assinala o nascimento do Partido Comunista Português.
Posto isto impõe-se um esclarecimento e uma declaração de interesses.
O esclarecimento. Não vou agora “maçar-vos” com quaisquer informações sobre o aniversário do PCP porque disso se encarregaram já os diferentes órgãos de comunicação nacionais e regionais que durante o próprio dia e os dias seguintes nos “massacraram” com (o silenciar de) tal acontecimento.
A declaração de interesses, só necessária para quem não me conhece. Sim, sou militante deste Partido e com ele convivo desde que um herói proletário – o António Gervásio, a ele me conduziu.
Dito isto vamos então tratar de uma outra data importante que assinalamos em cada Março: o Dia Internacional da Mulher. A razão que o justifica, a importância de o assinalarmos e principalmente as razões que nos impõem que continuemos a tê-lo presente.
Primeiro a razão que o justifica e desde logo a razão daquelas 125 mulheres têxteis que em Nova Iorque, foram assassinadas por terem ousado exigir direitos no trabalho.
As razões e as protagonistas que mantiveram, também em Portugal, bem acesa a exigência de serem reconhecidas como cidadãs e trabalhadoras:
Beatriz Ângelo, primeira mulher a votar no regime que ajudou a implantar e que de imediato lhe proibiu tal direito.
Maria Lamas – Feminista e anti-fascista. Dirigente do MUD e do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, Maria Velha Costa, autoras do livro “Novas Cartas Portuguesas” e vítimas das perseguições e violências que lhes foram movidas pelo “estado novo”.
Catarina Eufémia, a camponesa assassinada por exigir direitos laborais e agora, quando em média as mulheres ganham menos 15,8% que os homens, Cristina Tavares, o rosto da luta das mulheres trabalhadoras.
No espaço não público a violência é ainda maior. Em Portugal só neste início do ano, foram assassinadas onze mulheres e são centenas as agredidas. São situações que justificam o dia de luto este ano decretado mas que, como nos funerais de “antigamente” recebeu lágrimas sentidas, a acção “profissional” das carpideiras e a apresentação de “sentidos” pêsames por parte de muitos dos “mandantes”.
Estou firmemente convencido da verdade com que titulei este texto. Não é com o Luto, por mais bem-intencionado, nem com o choro das carpideiras que poderemos inverter esta sinistra situação.
Não será com afirmações piedosas e iniciativas políticas que são muito mais show-off que acção que faremos regredir as desigualdades gritantes entre mulheres e homens e, já agora, entre mulheres e mulheres e entre homens e homens.
Analisemos uma medida agora amplamente anunciada que tem “boa imprensa” mas não mudará rigorosamente nada. A legislação aprovada pelo governo PS e que entrou em vigor a um de Março e condena a atribuição de salário diferente para o mesmo trabalho realizado por homem ou mulher.
Não é justo? É! Vai resolver alguma coisa? Não!
Trata-se de propaganda e como tal visa fazer barulho para deixar tudo na mesma.
O problema não está na lei. A própria Constituição da Republica consagra o princípio de trabalho igual/salário igual. Principio que os tratados da U.E. e o Código de Trabalho Português mantêm.
Há muito que a regulamentação do trabalho e os CCTs deixaram de incluir tabelas diferentes para homens e mulheres. Em Portalegre os últimos exemplos dessa discricionariedade estavam nos CCTs dos Operários Corticeiros e foram extirpados no início dos anos 80 quando todas as categorias profissionais passaram a estar abertas a homens e mulheres.
A “habilidade” em Portalegre e no País está no preenchimento dos cargos mais qualificados e melhor pagos onde a norma é “canalizar” os homens para os cargos de chefia (melhor remunerados) e as mulheres, independentemente das qualificações e competências, para os cargos de menor exigência e menor remuneração. Resumindo: canalizam-se os homens para as chefias e as mulheres para auxiliares ou ajudantes dinamitando os contratos colectivos e as normas que impunham regras de densidade nas carreiras profissionais.
Como se vê, tudo fácil. Entretanto mantém-se as carpideiras e as afirmações de boa vontade e, ao mesmo tempo, boicota-se a reposição dos direitos roubados, mantem-se na lei a destruição da Contratação Colectiva, põe-se fim ao Direito do Trabalho e destrói-se a Inspeção Geral do Trabalho.
Pelos baixos salários impõe-se à mulher que seja ela, no casal, a faltar para apoio à família e nega-se –lhes, por isso, o acesso a lugares melhor remunerados.
Então como agir?
Igualmente fácil! Lutar, Lutar, Lutar! Homens e mulheres, porque é com a Luta que lá Vamos!

Diogo Júlio Serra*
* publicado no Jornal Alto Alentejo de 13-03-2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Um homem não Chora?




UM HOMEM NÃO CHORA…

Cresci a ouvir esta “sentença” sempre que no frenesim da brincadeira ocorriam quedas e esfolões, quando numa ou noutra disputa mais entusiástica com os companheiros a discussão virava briga, quando porque contrariado nas minhas vontades partia para o amuo e para a “birra”.
Tornou-se, por isso, uma “verdade absoluta” que só muito mais tarde começou a ser contrariada mas, ainda assim, em momentos e situações muito, muito especiais.
Foi-o quando uma lágrima teimosa insistiu em aparecer, no Hospital Dr. José Maria Grande, no momento em que uma enfermeira e amiga me colocou nas mãos “um rolinho” que já decidíramos chamar-se Guida, a minha primeira filha.
Voltou a sê-lo quando mais de 20 anos passados, na nossa Sé Catedral, trajado de gala e rodeado de amigos levei, de novo a Guida, pelo braço e em passo solene, a caminho do altar para a “entregar” ao Paulo, que naquele dia de 22 de Abril de 2006, passaria a ser o seu marido.
Na passada sexta-feira, no auditório a Máquina, situado no espaço Robinson, realizou-se o XI Congresso da União dos Sindicatos do Norte Alentejano e ali, na presença de várias dezenas de delegados eleitos por todo o distrito e em todos os sectores de actividade, com o testemunho solidário de inúmeras organizações e personalidades.
Representações partidárias do Partido Socialista, do Partido Comunista, do Partido Ecologista os Verdes; de representantes do Secretariado do AMAlentejo, da Entidade Regional de Turismo, da Escola de Hotelaria, da União de Freguesias da Sé e São Lourenço e da Sra. Presidente da Câmara Municipal de Portalegre.
Delegações fraternais das Uniões Sindicais Distritais de Beja, Castelo Branco, Évora e Setúbal. A representação das Comissiones Obreras da Extremadura e da CGTP-Intersindical esta chefiada pelo seu Secretário-Geral que acompanhou todos os trabalhos e fez a intervenção de encerramento.
Por ali foram desfilando os problemas, os anseios e as lutas dos trabalhadores e da população do distrito. Presentes à discussão e aprovados quer o Relatório quer o Plano de Acção para os próximos quatro anos.
Por deferência dos meus camaradas da União foi-me atribuída a honrosa tarefa de presidir três das quatro sessões do Congresso e nessa função, receber e saudar os delegados e convidados ao congresso. Todavia seria a quarta e última sessão a abalar a convicção que na infância me fora inculcada.
Quando a coordenadora da Direcção cessante citou os cinco dirigentes que naquele congresso deixaram as suas funções de direcção da USNA e particularizou a minha situação historiando o meu percurso sindical e o congresso aplaudindo em pé me fizeram sentir “o dono do mundo” a comoção ultrapassou em muito o que “gostaria” que tivesse acontecido.
Um homem não chora? Pois, podem continuar a pensá-lo. Vocês não estiveram no Congresso.
Diogo Júlio Serra
Publicado no Jornal Alto Alentejo de 27-2-2019

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Vê moinhos, são moinhos! Vê gigantes, são gigantes!





GREVE CIRÚRGICA ou GUERRILHA URBANA?

Vê moinhos, são moinhos!
Vê gigantes, são gigantes!

A “auto-proclamada” greve de uns quantos enfermeiros e a decisão do governo em declarar a requisição civil tem merecido os mais díspares comentários de (quase) todos os sectores da sociedade.
Compreensão para com as razões da greve (mesmo quando não concordam com os meios utilizados) por parte de grande número de enfermeiros e de outros sectores em luta;
Aplauso entusiástico e apoio sem reservas por parte da direita politica e dos negócios incluindo franjas de outras áreas politicas enfeudadas aos negócios da saúde;
 Repudio generalizado e acção política intensa contra a luta que vem sendo desencadeada não pela forma mas, pasme-se, por entenderem que aqueles profissionais, os enfermeiros que trabalham no sector público, “ganham de mais”.
Por último apareceram, nos últimos dias em maior número, os apoiantes do partido do governo a aplaudirem a decisão da requisição civil.
Os primeiros, nos quais me incluo, compreendem o descontentamento da classe, toda a classe, e da sua luta mas recusam aceitar que a direita, a comunicação social a ela enfeudada e muitos dos consumidores da propaganda ventilada nas redes sociais, persistam em chamar greve a uma acção de guerrilha contra o Serviço Nacional de Saúde e o arranjo politico que expulsou a direita do poder e permitiu uma forma governativa estável e eficaz.
Os segundos, os que não conseguiam sequer disfarçar que o seu apoio entusiástico tinha muito mais a ver com os seus objectivos de derrota daquilo a que apelidam de geringonça do que com as aspirações dos enfermeiros afadigam-se agora “na defesa” dos direitos de quem trabalha e de um direito que sempre combateram - o direito à greve.
Os últimos, os que se movem não pela razão mas pelos interesses partidários ou simplesmente para agradar ao poder constituído, veêm agora quer naquela versão feminina do que de pior encerrava o cavaquismo quer nos grupos de amarelos que se intitulam sindicato e que em muitos casos por omissão ou por acção ajudaram a nascer, um perigo para a democracia e para os cidadãos.
Quase todos, excepção (talvez) para os que integram o primeiro grupo, estão-se nas tintas para os enfermeiros e para as suas necessidades e aspirações, para os doentes, para as populações e para os direitos constitucionais fundamentais sejam o direito à saúde ou o direito à greve.
Os mandantes da guerrilha apelidada de greve cirúrgica afadigam-se para tentar manter em alta a contestação à forma governativa que odeiam por lhes ter provado que existem alternativas às políticas de empobrecimento e destruição de Abril que preconizaram e impuseram e apostam no confronto com o Poder, no continuar da paralisação dos hospitais, no impedimento da retoma normal das cirurgias necessárias.
Os governantes e seus apoiantes fingem desconhecer as justas reivindicações dos enfermeiros e restantes sectores da saúde: dotação de meios humanos que faltam em todos os serviços, condições que garantam a integração de médicos, enfermeiros e outros técnicos nos quadros em vez de delapidar os meios financeiros, escassos, para alimentarem a gula de empresas alugadoras dos profissionais necessários.
E pelo caminho, uns e outros, procuram tornar natural o que são as violentas acções contra o direito constitucional à greve como o são a requisição civil contra os grevistas, a descredibilização de toda uma classe profissional apesar de apenas uma ínfima parte estar envolvida na acção guerrilheira.
Persistem na tentativa de ganhar a opinião pública para a descredibilização dos sindicatos apesar de se saber que o sindicato representativo dos enfermeiros – o SEP – Sindicatos dos Enfermeiros Portugueses nunca ter estimulado ou apoiado esta acção desencadeada e alimentada por duas estruturas de pouca representatividade criadas e alimentadas por quantos desde há muito sonham com o partir da espinha à Intersindical e em que a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros se tem empenhado de forma avassaladora.
Os próximos capítulos desta “novela” mostrar-nos-ão de que lado está a razão. Se dos que se afadigam em lançar gasolina para a fogueira seja com apelos à insurreição dos enfermeiros seja com a declaração da requisição civil para acabar com a “greve” ou, dos que como a CGTP-IN se mobilizam para estimular o diálogo entre os vários sectores da saúde pública de forma a serem supridas as carências há muito identificadas e a fortalecer-se o Serviço Nacional de Saúde universal e público.
Diogo Júlio Serra
Artigo publicado no Jornal Alto Alentejo de 13-02-2019


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Fechou a Trabalho e Progresso




A Cooperativa fechou!

Para muitos arronchenses, mesmo para os que eram seus clientes, esse facto mesmo que lhes cause algum desgosto, não é mais que uma situação igual a tantas outras e que na nossa vila e concelho já levaram ao encerramento de inúmeras empresas e serviços.

E no entanto não é assim. Com a decisão tomada em Assembleia Geral no passado dia 27 de Dezembro o que agora encerra é muito mais que um pequeno supermercado que nos habituámos a frequentar ou apenas a ver. O que encerra é todo um ciclo do nosso viver colectivo, da história da nossa terra. Um ciclo que justificou e originou sonhos, debates, lutas, modos de vida e empregos.

O que a maioria de nós, os mais novos, sempre conheceram como a Loja da Cooperativa – um mini-mercado ou, os menos novos, como o Salão de Chá e/ou restaurante e que de Cooperativa só tinha os proprietários, tem por trás de si um passado que retrata a história recente do nosso concelho.

Nasceu como Sindicato Rural (era assim que no final da monarquia e durante a 1ª Republica se chamavam as organizações dos proprietários rurais) e passou a Grémio da Lavoura por força da lei nº 1957 de 20 de Março de 1937.

Nasceu e assim se manteve até 1974 como estrutura de representação politica e económica dos grandes proprietários rurais e, com a sua transformação em Grémio da Lavoura, como suporte político do Regime de Salazar.

Sediado no nº 52 da Rua 5 de Outubro, mantinha no r/c a sua secção comercial garantindo aos seus associados o fornecimento de produtos e máquinas necessários à vida agrícola. Em finais dos anos cinquenta do século passado muda-se para novas e modernas instalações na Rua Edmundo Curvelo, ocupando todo o edifício onde ainda hoje “mora”.

No primeiro andar funcionavam as estruturas de representação política da lavoura e os serviços administrativos mas também os serviços da FNPT – Federação Nacional de Produtores de Trigo e a Caixa Agrícola. Nas amplas instalações do r/c os armazéns de cereais, lã e adubos e a zona de comercialização de produtos à lavoura e parque de máquinas agrícolas cujos serviços eram prestados aos associados.

O Grémio era ainda proprietário de instalações no Moinho dos Santos (lagar de azeite e padarias) e na rua João Morais (oficina de reparação mecânica e armazém de peças e ferramentas).

Peça fundamental da organização política e económica do salazarismo, os Grémios da Lavoura viriam a merecer a atenção do poder político democrático saído do 25 de Abril.

Em Setembro de 1974 o Segundo Governo Provisório, através do decreto-lei (D/L nº 482/74) estipula a extinção dos Grémios da Lavoura e a transferência do seu património e funções, assegurando-se a colocação do pessoal.

Para o efeito são criadas Comissões Liquidatárias.

O Grémio da Lavoura de Arronches é também objeto desse processo. É nomeada uma Comissão Liquidatária e é ela quem dirige a passagem do Grémio da Lavoura à Cooperativa Agrícola denominada Cooperativa Agrícola Trabalho e Progresso e para a qual são transferidos o património, os trabalhadores e as funções.

Num tempo de intensa actividade politica e de grandes alterações no mundo rural a extinção dos Grémios da Lavoura e a constituição de Cooperativas para assumirem as suas funções não foi pacífica, como igualmente não foi a constituição das Comissões Liquidatárias.

Em Arronches este processo também não foi pacífico, embora a contestação a uma e outras situações não tenha atingido as dimensões vividas em outros concelhos e tal deveu-se, penso, ao facto de aqui quer na Comissão Liquidatária, quer na fundação e direcção da Cooperativa ter estado presente a maior empresa agrícola do concelho, a SAGREP – uma Sociedade Agrícola que reunia os maiores empresários agrícolas dos concelhos de Arronches e Campo Maior.

Também as Unidades Colectivas de Produção Agrícola entretanto constituídas participaram activamente na constituição da Cooperativa mas nunca participaram nos órgãos de direcção e a gestão executiva da Cooperativa continuou a ser assegurada pela mesma pessoa que assumira a gerência nos últimos anos do Grémio então extinto.

Apesar desta participação alargada a Cooperativa não recolheu a aprovação da totalidade dos seus destinatários. Num tempo em que nos campos alentejanos se degladiavam os antigos “terratenientes” – organizados na CAP, os pequenos agricultores e rendeiros – organizados nas Ligas de Pequenos e Médios Agricultores e os operários agrícolas organizados nas UCP’s/Cooperativas e em que a luta partidária era intensíssima, sectores profissionais ligados à CAP constituíram uma outra Cooperativa de Agricultores, sediada na “Regional” a CAESA – Cooperativa de Agricultores de Esperança e Arronches, que terminaria anos mais tarde, como forma de combater a Trabalho e Progresso e as políticas que esta corporizava.

A Cooperativa de Produção Agrícola assume então o património, os funcionários e as funções de apoio à lavoura e em particular aos pequenos e médios agricultores e às Unidades Coletivas de Produção entretanto constituídas e assume-se como “delegação” das instituições públicas de apoio ao desenvolvimento agrícola e continua a ser o “balcão de acesso “ dos agricultores ao CAE – Crédito Agrícola de Emergência, entretanto também acessível às UCPs/Cooperativas.

No período seguinte a Cooperativa cresce e garante alguns grandes investimentos. É desse tempo a instalação do mais moderno lagar de azeite de toda a região, instalado no porto manes para substituir o anterior sediado no Moinho dos Santos.

As alterações impostas no tecido económico do concelho, e da região, e particularmente a destruição da agricultura tradicional aceleraram a perda de importância económica e o definhamento da Cooperativa Trabalho e Progresso. As dificuldades financeiras crescem e a Cooperativa começa a ter sérias dificuldades em honrar os seus compromissos. É o tempo do abandono de várias atividades e da venda de grande parte do seu património.

Esgotado o caminho do apoio a uma agricultura que não existia os gestores da Cooperativa procuram novos caminhos abrindo um salão de chá e um restaurante e acrescentando ao fabrico de pão o fabrico e distribuição de bolos e alugando parte do seu edifício sede para sede da Caixa Agrícola.

A última fase da Cooperativa (a sua fase terminal) é já como mini-mercado. Após uma alteração de Estatutos passa a assumir-se como Cooperativa de Consumo e promove uma parceria com a COP Lisboa que lhe permitirá assumir-se como um moderno espaço comercial e, dessa forma garantir a manutenção dos postos de trabalho aos seus trabalhadores.

Não foi possível. O montante de vendas sempre ficou aquém das necessidades e a Cooperativa foi acumulando dívidas e perdendo património.

Ainda se arrastou alguns anos vivendo da “carolice” de dirigentes e trabalhadores até ter agora decidido em Assembleia Geral que estava chegada a hora de assumir o seu fim.

A Cooperativa acabou e com ela morre uma parte importante da nossa história recente.

Que não se percam as memórias!

Diogo Serra
Artigo publicado no Noticias de Arronches de Janeiro de 2019