terça-feira, 11 de outubro de 2016

Que sejamos nós a desenhar o futuro do Alentejo! *


Somos dos que entendem que a constituição do AMALENTEJO e a realização do Congresso no passado 2 de Abril e Troia foram tão só o (re) iniciar de uma caminhada só completa quando for cumprido o preceito constitucional que define o Poder Local assente em três distintos (e complementares) pilares: as freguesias, os municípios, as regiões administrativas.

A falta de vontade política e alguma inabilidade levaram a que o cumprimento dessa obrigação constitucional continue por cumprir e, depois das armadilhas legais que foram sendo construídas, se torne difícil, no momento, aspirar à sua concretização.

Mas o Alentejo, recordemo-lo, sempre reafirmou a sua vontade e necessidade de dispor de uma estrutura regional democrática e participada que permita à região e aos alentejanos participarem nos diferentes processos de decisão sobre o seu futuro e, por isso, porque essa é uma aspiração e uma necessidade por todos assumida, o Congresso de Troia avançou com a necessidade da criação da Comunidade Regional do Alentejo – uma nova estrutura de poder regional, para colmatar a falta da região administrativa do Alentejo enquanto a regionalização definida na Constituição da Republica não avançar.

Para concretizar esta ideia os congressistas avançaram com o lançamento de uma petição pública, para recolher as assinaturas necessárias à apresentação na Assembleia da Republica, de um projeto lei de iniciativa popular que crie a Comunidade Regional do Alentejo (CRA). A criação da CRA será um passo importante no aprofundamento da democracia participativa, um avanço no princípio da subsidiariedade e um instrumento para a promoção do desenvolvimento harmonioso de mais de um terço do território nacional continental.

A Comunidade Regional do Alentejo, na forma como foi desenhada, combina descentralização com desconcentração, assumindo competências da atual CCDRA, de algumas estruturas descentralizadas e outras que possam ser contratualizadas com o Governo central e, para evitar a duplicação de funções e de custos, toda a estrutura da CCDRA deve ser transferida para a nova CRA.

Conforme decisão dos congressistas e inscrição na petição já em distribuição, a CRA deverá ser um poder local de base regional, legitimado pelo voto dos mais próximos representantes do povo, ter personalidade jurídica, autonomia administrativa e financeira e, órgãos com poder efetivo para representar e dirigir o Alentejo.

Ultrapassado o período das férias, é necessário arregaçar as mangas e levar a discussão e recolha das assinaturas a todos os lugares onde estejam alentejanos e alentejanas:  no território transtagano e na diáspora.

O Distrito de Portalegre participou ativamente na criação do AMALENTEJO, na realização do Congresso de Troia e nas suas decisões. Envolveram-se nesse trabalho um número significativo de homens e mulheres, diferentes organizações e associações representativos das várias correntes de opinião presentes no território. Agora, é tempo de concretizar as decisões.

É agora o tempo de recolher as 35 mil assinaturas necessárias para fazer chegar este projeto à Assembleia da Republica. Ninguém pode ser dispensado (ou demitir-se) desta tarefa. Não queiramos que sejam outros a fazer o que é da nossa responsabilidade!



Portalegre, 2016-10


Diogo J. Serra
Animador Educativo e Sociocultural
Membro da Comissão Promotora do AMALENTEJO

* Publicado no Jornal Fonte Nova em 11-10-16


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Não brinquem Conosco





Diogo Serra*

     O desemprego registado nos Centros de Emprego do distrito tem vindo a desacelerar embora não se consiga perceber se tal desaceleração se fica a dever a uma maior taxa de empregabilidade, ao continuar de habilidades contabilísticas ou à continua diminuição da população ativa.
Certezas apenas no facto de tais diminuições não serem reflexo do aumento do emprego.
Os últimos números conhecidos (Julho de 1916) mostram-nos que o desemprego no distrito atingia 8383 trabalhadores, (3.817 homens e 4.566 mulheres) e que, naquele mês as ofertas de emprego disponibilizadas, não sabemos se respondidas, foram de 166.1
     Se comparados com os registos do mês anterior (8.606 desempregados) ou com o mês homólogo do ano anterior (9.860 desempregados) a situação regista algumas melhorias mas, ainda assim, fortemente penalizadora para o norte alentejano e as suas gentes.
     É que por detrás destes números estão homens e mulheres, mais ou menos jovens e que na sua maioria não tem acesso a quaisquer apoios sociais e por isso, tem de optar entre a exclusão social, a emigração ou a “escravatura moderna” que se expressa ou por trabalho sem direitos, e muitas vezes sem salário.
     A análise concelho a concelho mostra-nos que a taxa de desemprego no distrito atingiu os 16,6% com três concelhos: Monforte, Elvas e Gavião a ultrapassarem os 20%

Fonte: Gabinete de Estudos da USNA/cgtp-in
1 Gabinete de Estudos da USNA/cgtp

     O desemprego é de facto o grande problema do norte alentejano. É o responsável primeiro pela perda de população e pelo seu envelhecimento e, se não for contrariado levará inevitavelmente ao desaparecimento da região.
     Só a cegueira política impede que este problema tenha solução.
     A destruição do nosso tecido produtivo, em particular o desmantelamento da indústria, o abandono de grande parte dos terrenos cultiváveis e a deslocalização dos serviços públicos, não pode ser compensada apenas com atividades que embora lucrativas não garantem às populações a estabilidade e a vida digna que todos anseiam e merecem.
     É fundamental que os órgãos de poder, central e local, assumam estratégias que garantam ao distrito o desenvolvimento da agricultura com o aumento da área regada e com medidas que garantam a boa utilização da área agrícola e garantam à cidade capital de distrito o retomar da sua cultura industrial.
     E não nos digam que não há dinheiro para investir aqui.
     Pensemos apenas quanto custa ao distrito e ao país mantermos os mais de 8 mil desempregados.
     Se estivessem a produzir e a receber o salário médio nacional ( 829€) entravam na economia distrital cerca de 28 milhões de euros/ano e a segurança social arrecadaria mais 6 milhões em vez dos cerca de um milhão pagos a subsidiar o desemprego.

Não é possível? Não brinquem connosco!


*Animador Educativo e Sociocultural
Deputado Municipal

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Barragem do Pisão

É a hora!*


      Num momento em que se prepara o Orçamento de Estado para o próximo ano. Quando as diversas forças políticas se afadigam na apresentação das suas propostas e projetos e, entre os partidos políticos que têm vindo a suportar politicamente o governo atual, cuja ação, diga-se em abono da verdade, tem vindo a pautar-se pela vontade de corrigir algumas das principais “malfeitorias” do governo anterior, se esboçam as primeiras abordagens conjuntas para garantir a sua elaboração e aprovação, a Construção da Barragem do Pisão voltou à ribalta.
   Ainda bem que assim é. Sendo certo que este retomar dessa velha e importante aspiração/reivindicação do Norte Alentejano é, por si só, de grande importância é-o tanto mais porque no passado mês de Julho a Assembleia da Republica votou por unanimidade uma iniciativa parlamentar do PCP que recomenda ao Governo a inclusão do Empreendimento de Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato (Barragem do Pisão) nas prioridades de investimento em regadio.
     Depois de décadas em que se procurou concretizar o sonho de toda uma região, depois de inúmeros estudos que confirmam a importância deste empreendimento para a Região e para o País, depois de inúmeras promessas não cumpridas e mesmo de algumas “traições” é possível que este seja o tempo certo, que tenha chegado a hora.
    Todavia importa não repetir erros do passado. É fundamental assumirmos, todos, que a construção da Barragem do Pisão, mais que uma bandeira de luta político-partidária (a proximidade das eleições autárquicas não ajudará) é, tem que ser, a reivindicação de uma região que tem vindo a pagar um preço demasiado elevado por ter baixo poder reivindicativo e por não ter sabido, (nunca o conseguiu) estabelecer as alianças politicas e sociais capazes de colocarem o interesse da região acima dos interesses imediatos dos protagonistas regionais e locais.
     É esse o risco que voltamos a correr.
   As funções que desempenhei (talvez por demasiado tempo) na coordenação da ação sindical permitiram-me/obrigaram-me a acompanhar de perto o “folhetim Pisão” ao longo de mais de três décadas.
   Conheci e participei em algumas das principais iniciativas visando convencer os de fora da importância desta infraestrutura para todo o distrito e em particular para os concelhos diretamente beneficiários. Vivi com muitos outros atores locais momentos de elevação como o foi, por exemplo, o Debate de 2012, organizado por este jornal e pelo jornal A Mensagem mas, também os momentos de acesa disputa política partidária com o empreendimento de aproveitamento hidráulico de fins múltiplos do Crato a servir de arma de arremesso entre os vários intervenientes.
   Entendo o atual momento político como o momento certo para concretizarmos o sonho: um governo do Partido Socialista com suporte parlamentar dos partidos da Esquerda (PS, PEV, PCP e BE), um ministério das Infraestruturas liderado por um ex-deputado eleito por este círculo eleitoral, unanimidade parlamentar sobre a necessidade do investimento. Não poderemos é continuar a dar “tiros nos pés”.
     A vontade de colher louros para as batalhas autárquicas que aí vêm não pode tolher-nos a razão.
   Algumas afirmações que recentemente vieram a público mesmo que verdadeiras (e manifestamente não o são) só servem para dividir o que precisamos esteja unido e atuante.

     Que o bom senso impere. Bem precisamos!

* Publicado no Jornal Alto Alentejo de 21-09-2016


quarta-feira, 13 de julho de 2016



ictvr -VEMOS, OUVIMOS E LEMOS. NÃO PODEMOS IGNORAR!*

Em artigo publicado neste jornal (nº 481 de 22 de Junho) o ex- Diretor Técnico do ICTVR – Centro Internacional de Tecnologias de Realidade Virtual, vinha a público trazer-nos a “sua” verdade sobre o que levou ao desmoronar dum projeto que se acreditou ser capaz de alavancar a ascensão da cidade e da região a patamares de excelência nas industrias tecnológicas e criativas.
No seu longo artigo que justifica com a necessidade de contar a verdade sobre o princípio e fim do ICTVR aquele ex-dirigente procura justificar a sua participação e assume-se como vítima de um processo que levou à delapidação de alguns (muitos milhões), transformou em pesadelo o sonho de jovens quadros a quem fizeram acreditar que o seu futuro estava garantido na sua cidade e colocou em total desaproveitamento equipamentos e saberes de grande valia social e económica.
Algumas das afirmações proferidas que o autor diz serem apenas factos comprováveis e as muitas perguntas que nos deixa revelam-se de uma tal gravidade que deveriam ter originado um mar de desmentidos, de esclarecimentos e de promessas de processos na justiça.
Ao contrário e estranhamente (ou talvez não) o que assistimos é a um silencio ensurdecedor.
Responsáveis autárquicos (antigos e atuais), dirigentes académicos e empresários ligados ao projeto, forças políticas no poder ou na oposição, ou não leram ou fingem não saber o que ali foi afirmado ou insinuado.
E não foi pouco. O antigo Diretor Técnico do ICTVR afirma-se vítima de um processo que destruiu de forma deliberada um projeto que diz, tinha tudo para dar certo.
Denuncia o Executivo Municipal então presidido por Mata Cáceres de não ter oficializado as decisões tomadas para com o ICTVR e em particular o facto do direito do uso das instalações no espaço Robinson e do investimento assumido pela Câmara nunca terem sido analisados e aprovados quer na Câmara quer na Assembleia Municipal.
Acusa as autoridades académicas de compadrio com os que decidiram alterar o projeto inicial e depois, estrangular financeiramente o ICTVR e acusa ainda forças que não identifica, como protagonistas de uma campanha visando destruir a sua reputação profissional e pessoal.
Acompanhei o processo ICTVR numa fase em que este há muito deixara de ser uma oportunidade e se havia transformado numa enorme dor de cabeça. Então, enquanto administrador não executivo da Fundação Robinson, participei em algumas reuniões duma Comissão Administrativa que procurava ainda salvar do desastre algumas das suas componentes.
Recordo quer a informação que tínhamos de que o então Diretor Técnico havia abandonado as suas funções e se comportava como elemento hostil à sobrevivência do ICTVR, quer as tentativas e pressões de alguns dos sócios do ICTVR para que fosse a Fundação a assumir o ICTVR. Situação que o Conselho de Administração que integrava, sempre recusou.
Por tudo isto, ao ler o artigo da autoria do professor Gastão Marques esperei que o mesmo levantasse, no mínimo, um ruído parecido com o que desde sempre foi “oferecido” à Fundação Robinson.
Engano meu! Mesmo depois dos “esclarecimentos” publicados, a cidade mantem a mesma incompreensível postura de “assobiar para o lado”.
Onde estão as forças políticas da oposição (mas também da maioria) que afirmando-se preocupadas com os gastos públicos elegeram a Fundação Robinson como saco de pancada onde é possível descarregar todas as frustrações?
Onde estão os porta-vozes dessa cultura tão lagóia do diz que diz ou dos atos de heroísmo à mesa do café ou a coberto do anonimato nas redes sociais?
E, por onde andam os gestores do ICTVR, os nomeados pela Câmara e os outros? E os autarcas, particularmente o então Presidente Mata Cáceres acusado de ter escondido do município, ou pelo menos não ter levado ao assumir, das decisões por ele tomadas?
Aguardemos!

Diogo Júlio Serra

Ex-Administrador (não executivo) da Fundação Robinson
*publicado no Jornal Alto Alentejo de 13 de Julho de 2016



41 anos depois continuam os sonhos e as lutas
 Diogo Júlio Serra *

No passado dia quatro cumpriram-se quarenta e um anos desde aquela noite de 1975 em que nas instalações da Delegação de Portalegre do Sindicato dos Bancários, na Praceta, reuniu sob a presidência de António Milheiro, bancário, António Serra, operário agrícola e António Ceia dos Reis, Corticeiro, a Assembleia Constituinte da União dos Sindicatos do Distrito de Portalegre, para discutir e aprovar os Estatutos e instituírem a organização sindical dos trabalhadores do distrito que se assumiria desde a primeira hora como a Intersindical do distrito de Portalegre.

Estavam presentes 4 sindicatos com representação distrital: Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do distrito de Portalegre, Sindicato dos Sindicato dos Bancários de Lisboa, Sindicato dos Operários Corticeiros do distrito de Portalegre e Sindicato dos Químicos do Sul, que representavam mais de 50% dos trabalhadores sindicalizados no distrito.

De fora, embora por pouco tempo, ficavam o Sindicato dos Lanifícios, o Sindicato do Metalúrgicos de Portalegre e o Sindicato da Construção Civil, mais os Sindicatos dos Rodoviários e dos Caixeiros e Empregados de escritório já então, “enamorados” do reformismo sindical que haveria de desaguar nos processos fraccionistas da Carta Aberta e dos que se seguiram.

Desta forma tomava corpo o desejo de constituir um organismo de direcção e coordenação da acção sindical que, também no distrito de Portalegre, se desenvolvia de forma intensa desde os últimos anos do Marcelismo mas com particular intensidade desde o 25 de Abril de 1974.

Tratava-se de dar enquadramento legal à estrutura organizada dos trabalhadores que no terreno dirigira a tomada dos sindicatos fascistas e garantira a gestão dos sindicatos pelos trabalhadores associados. Fora assim na tomada do Sindicato dos Operários Corticeiros, do Sindicato dos Caixeiros e Empregados de Escritório e fora igualmente esta estrutura a apoiar a acção de refundação dos sindicatos cuja actividade fora proibida pelo fascismo: Função Pública, Professores, Administração Local.

Fora ainda esta estrutura “informal” que apoiara a refundação do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e, através dele organizara os trabalhadores na luta por salários e por emprego e na constituição de inúmeras Unidades Colectivas de Produção Agrícola que promoveram uma Revolução dentro da Revolução

Fundada formalmente no apogeu da Revolução viveu de forma intensa o “processo da Reforma Agrária” e coordenou todas as acções sindicais de conquistas de direitos individuais e colectivos e, com a vitória da contra revolução politico-militar, dirigiu a luta em defesa das conquistas que Abril abriu.

Hoje, quarenta e um anos depois, com milhares de lutas travadas, com vitórias e derrotas no seu historial, mas sempre em estreita ligação com os trabalhadores e trabalhadoras deste distrito, a União dos Sindicatos entretanto renomeada como União dos Sindicatos do Norte Alentejano continua a afirmar-se como a maior e mais representativa organização social do distrito de Portalegre e a demonstrar a mesma firmeza e entusiasmo na defesa dos trabalhadores que representa e do direito de todos em trabalharmos e vivermos num território acolhedor e desenvolvido.

Eu que acompanhei o seu percurso, desde o nascimento até hoje e com particulares responsabilidades entre 1978 e 2015, sou disso testemunha.

Hoje, no dia em que comemora mais um aniversário a União dos Sindicatos do Norte Alentejano é companhia inquestionável de quantos aspiram a um futuro melhor, parceiro indispensável de órgãos do poder democrático e actor imprescindível na aplicação das políticas necessárias à região e ao país.

Que persista na sua acção.
Sempre, Sempre com os trabalhadores e trabalhadoras do Norte Alentejano!

* publicado no Jornal Fonte Nova de 12/7/16



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Da cultura industrial à indústria da cultura.

Da Cultura Industrial à Indústria da Cultura




     A vila de Portalegre que em 1229 pertencia ao concelho de Marvão, passou a sede de concelho em 1253.[1] A 23 de Maio de 1550, D. João III elevou-a à categoria de cidade quando esta já era, em conjunto com Covilhã e Estremoz, um dos principais centros da indústria de tecidos do país.
   Fruto das óptimas condições naturais e da “cultura industrial” existente, em 1772 o Marquês de Pombal instala aqui, no antigo Convento de S. Sebastião, a Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre.
     No século seguinte a cidade de Portalegre, então elevada a capital de distrito,[2] assiste ao acentuado declínio das suas indústrias têxtil e lanifícios e à instalação e florescimento da indústria corticeira às mãos de uma família inglesa, os Robinson.
     O século XX encontra a cidade de Portalegre já recomposta da grave crise que afetara a sua indústria e comércio, com uma população à volta dos 10 mil habitantes e dispondo de diversos serviços de apoio às condições de vida das suas gentes.
      A primeira metade do Século XX confirma Portalegre como cidade industrial, situação que se mantém e amplia quando da Revolução de Abril e continuará até 1986, ano em que Portugal passa a ser membro da Comunidade Económica Europeia.
     A indústria corticeira, com a Robinson Bros, os lanifícios, com a Fino’s, a Fibrafil e a Finicisa, o sector têxtil com a Invicar, os lacticínios com a Serraleite, o sector químico com a Houtchinson, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre e dezenas de outras de menor dimensão, garantem o emprego a uma comunidade operária já em diminuição mas ainda com enorme peso na vida da cidade e da região.
     Das intervenções do FMI e da adesão do país à CEE resultou o aumento da nossa dependência e tornou a nossa economia muito mais vulnerável às influências das economias altamente desenvolvidas.   
     A destruição da capacidade produtiva a troco de euros e autoestradas e o errático apostar na tercerização da nossa economia sem ter consolidado o nível secundário, aceleraram a destruição das nossas empresas, impuseram o fim da “Portalegre Industrial” e lançaram o concelho num perigoso trajeto de empobrecimento e letargia de que urge libertar-se.
     Com a insolvência e encerramento das unidades transformadoras tradicionais, milhares de famílias foram arrastadas para o desemprego e para a emigração e na cidade abriam-se autênticas crateras onde imperavam os resíduos e as “sucatas”, totalmente abertas à ganância do imobiliário ou à agonia dos caídos.
     Era esse o destino previsível do “espaço Robinson” – sete hectares de terreno, no coração da cidade, é assim que se encontra o espaço anteriormente ocupado pelas fábricas de Lanifícios e pela Invicar e será assim que continuaremos a ver a cidade se não soubermos/quisermos encontrar caminhos para além da reindustrialização que se deseja mas que não se prevê possível no curto e médio prazo.
     Como já sucedeu várias vezes na história da cidade o futuro construir-se-á se conseguirmos unir-nos na valorização das nossas potencialidades.
       Esgotada a fase da Cidade das Industrias tradicionais importará consolidar a cultura industrial da cidade e das suas gentes para projectarmos uma nova cidade capaz de substituir a sua cultura industrial por uma indústria da cultura e do conhecimento.
    “Argumentos” não nos faltam. A cidade e o concelho são possuidores de potencialidades de desenvolvimento assente na utilização da sua arqueologia industrial, no riquíssimo património arquitectónico, na paisagem, nos saberes ancestrais das suas gentes e na capacidade das unidades de ensino aqui sediadas passarem para a cidade o conhecimento ali produzido.
   Importa transformar a sua arqueologia industrial em centros de fruição e de conhecimento, musealizando lugares e saberes, reabilitando espaços e edificado, ocupando-os e dando-lhes vida.
     O espaço onde funcionou até 2004 a Fabrica de Lanifícios que é agora um conjunto de edificações em ruínas e, face ao estado degradado das coberturas contendo amianto, uma ameaça para os portalegrenses, poderia ser transformado num centro de criação e formação dos têxteis, lanifícios e do vestuário e um ninho de acolhimentos a designers e criadores.
     O Espaço Robinson é outro exemplo de potencialidades que podem e devem alavancar o desenvolvimento da cidade.
    Aqui onde a secular Robinson ainda não foi totalmente desmantelada e foi constituída uma Fundação com a missão de salvaguardar o espólio industrial, preservar a memória da fábrica e garantir à cidade e às suas associações culturais a apropriação daqueles espaços, importa retomar o projecto original da Fundação e garantir-lhe os meios de financiamento necessário, abrindo-a a novos parceiros.
     No espaço Robinson dever-se-á instalar um centro nacional de conhecimento e de investigação sobre o montado, a produção, a transformação e novas utilizações da cortiça e avançar com os projectos iniciais da fundação de musealização da fábrica, de construir residências de jovens criadores e instalar ateliers de arte contemporânea.
     O facto de ser Portalegre uma das capitais mundiais da tapeçaria e residirem aqui as melhores tecedeiras do mundo[3], a existência do Museu da Tapeçaria - Guy Fino e da Manufactura das Tapeçarias de Portalegre colocam a cidade numa situação de privilégio na atractividade de um segmento de turistas com alto poder de compra e de apetências culturais que a região pode e deve preencher.
     Também a existência de inúmeros palácios e casas brasonadas, de igrejas e mosteiros, de museus - Museu Guy Fino, museu municipal, casa museu José Régio, museu de cristos e o seu funcionamento em rede, num casco histórico que importa reabilitar e divulgar, podem transformar a cidade branca[4] num museu a céu aberto e dar-lhe a atractividade necessária para a sua afirmação como capital cultural e turística da zona raiana onde se insere.
     A existência regular de eventos culturais de grande qualidade de que se destacam a feira da doçaria conventual e o JazzFest (este já na 13ª edição e que este ano mereceu ser premiado pela Entidade Regional de Turismo), são certificado de qualidade e instrumento de atractividade de públicos específicos e montra privilegiada da cidade e da região.
     O concelho profundamente rural onde Portalegre se insere, é detentor de um número impressionante de produtos classificados também eles fundamentais para o desenvolvimento da economia local. Para tanto, é fundamental dar-lhes a visibilidade necessária e dotar os artesãos que os fabricam das ferramentas necessárias à sua comercialização.
     Os estabelecimentos de ensino superior aqui sediados, sozinhos ou em parceria com os seus congéneres da euro-região onde nos inserimos e com as instituições representativas desses produtores são certamente, quem tem melhores condições para o conseguir.

Diogo Júlio Serra

 Publicado na Revista  alentejo nº 40
Junho/Novembro de 2016



[1] António Ventura em texto escrito para o sítio da Câmara Municipal de Portalegre
[2] Em 1835, quando foram criados os distritos como divisões administrativas
[3]Afirmação de  Jean Lurçart, renovador da Tapeçaria Francesa
[4] Designação dada à cidade de Portalegre

quarta-feira, 22 de junho de 2016

ALDEIA GRANDE OU CIDADE CAPITAL?


Diogo Júlio Serra*


   Portalegre, cidade e concelho, atravessam um momento de profunda debilidade. O século XXI acelerou as situações de fragilidade que se vinham sentido nas últimas décadas do anterior e se caracterizaram pelo desmantelar das indústrias existentes, pelo definhar do comércio e das pequenas oficinas que sempre animaram as ruas da cidades e, pior, pelo desânimo que atinge as nossas gentes e tolhe os nossos autarcas.
   O desemprego instalou-se, os mais jovens foram obrigados a partir, Portalegre transformou-se numa cidade envelhecida, cada dia menos povoada, menos limpa, mais desleixada.
   A cidade deixou de ser a capital industrial do Alentejo e deixou, também, de ser a cidade branca.
   É um caminho que tem que ser invertido!
   A cidade e o concelho têm potencialidades bastantes para ultrapassar o mau momento que vivemos.
Não é a primeira vez que Portalegre se vê confrontada com dificuldades motivadas por falências e encerramentos de empresas e dificuldades financeiras do município. Sempre soube ultrapassá-las.
   O colapso da industria de lanifícios nos finais do século XIX originou desemprego em massa e foi pioneira de situações de salários em atraso e falências que agora voltamos a viver.
   A situação foi superada com o enorme contributo dos Robinson e da sua corticeira, entretanto desaparecida mas que pode, de novo, ser o motor para retomarmos os caminhos do progresso e bem estar.
   Assumindo como pouco provável que consigamos em pouco tempo a reindustrialização que reivindicamos é fundamental que olhemos, todos, para as inúmeras potencialidades que ainda detemos mas que teimosamente não transformamos em produtos para o desenvolvimento sonhado.
Desde logo o riquíssimo património que nos foi deixado pela Portalegre industrial que fomos. Uma cultura industrial, um valioso espólio de arqueologia industrial de que se destaca o espaço Robinson e a Fundação que o gere mas também os “destroços” da Lanifícios e Invicar.
   Outras potencialidades de que a cidade e o concelho dispõem são o seu rico património arquitectónico e a existência na cidade das melhores tapeceiras do mundo e da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.
   O espaço Robinson , um espaço com 7 há no coração da cidade e onde se mantém de pé toda a estrutura da secular fábrica  poderia/deveria ver ali instalado um centro de investigação do montado e da cortiça em sã convivência com a musealização da Robinson e tendo por vizinhas as muitas associações que teimam em continuar portalegrenses.
   A Manufatura Tapeçarias de Portalegre e a sua Tapeçaria ímpar poderão/deverão alavancar todo a politica municipal de turismo e assumirem-se como foco de atracção para um segmento de turismo culto, com poder-de-compra, interessado  e predisposto a “fugir” à oferta de sol e mar ou ao frenesim do litoral e dos grandes centros.
   As inúmeras casas senhoriais, os mosteiros e conventos, as suas capelas e igrejas fazem desta cidade um museu a céu aberto, complementado por uma rede de museus de que se destacam o Museu Municipal, o Museu de Tapeçarias, a Casa Museu José Régio e o espaço museológico da Igreja de S. Francisco.
   Com tudo isto o que nos falta?
  Falta-nos a vontade. Nenhuma das muitas potencialidades que detemos nos poderá valer se a vontade dos portalegrenses não conseguir impor, a cada um de nós, aos cidadãos organizados em associações e partidos e aos vários patamares do Poder Local a capacidade para descobriram pontos de união para nos tirar do pântano onde nos deixaram.
   Importa que o Município de Portalegre e as forças políticas que o compõem canalizem a discussão para encontrar formas de a Fundação Robinson retomar os seus objectivos fundadores e dispor dos meios materiais necessários em vez de continuarem a fazer dela arma de arremesso ao sabor dos seus interesses politico-eleitorais.
   Importa que a Administração da Manufactura e os vários parceiros que preparam a sua candidatura a Património Cultural da Humanidade não esqueçam que a Tapeçaria de Portalegre é o que é porque contou com a invenção do famoso nó,  com a visão empresarial da família Fino, com os cartões de pintores famosos mas também com o empenhamento e saber daquelas que Jean Lurçart apelidou de melhores tecedeiras do mundo e essas, estão no desemprego, a exercerem mil e uma actividades que nada têm que ver com os seus saberes e a receberem “aos bochechos” os salários que não lhes foram pagos em tempo útil.
   É difícil? É! Mas tem que ser feito.


*publicado no Jornal Alto Alentejo de 22/02/16