quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Vir' ó disco e toca o mesmo!

 

Vir’ ó disco e toca o mesmo!


O período de férias aproxima-se do fim. Os partidos políticos que gostam de afirmar “a reentré” já retomaram as tradicionais festarolas onde procuram aproveitar a confluência de veraneantes para montarem as suas jornadas mediáticas no intuito de nos fazerem acreditar que “desta vez vai ser diferente”.

Algumas dessas festarolas já tiveram lugar e foram aproveitadas pelos chefes políticos para apresentarem as “propostas de mudança”... Entre estas e merecendo os favores dos grandes meios de comunicação aconteceu a festa que o PPD promove anualmente no Pontal. Desta vez, porque no poder, com discurso do Primeiro-ministro com as também habituais promessas que quem está no poder gosta de lançar e as oposições gostam de denunciar como mentiras ou obscuras intenções eleitoralistas.

Cumpriu-se a tradição! Não faltaram as inflamadas tiradas do Primeiro-ministro, o atirar-nos alguns “rebuçados” e a esconder-nos quer as responsabilidade que tem (mais o seu partido) na dificílima situação com que os trabalhadores e as populações se confrontam quer, a sinistra intenção de continuar e acelerar as politicas responsáveis por tal situação.

Também não faltaram os papagaios pagos para nos fazerem acreditar nas maravilhas da governação e propagandearem como extraordinário o discurso do “chefe” e a bondade das medidas anunciadas.

E eu, que fui premiado com uma dessas medidas (em Outubro vou ter uma benesse extraordinária de… 100 euros) não consigo compreender a bondade do discurso ou a sua novidade.

Na verdade o discurso do primeiro-ministro foi mais do mesmo. Como outros discursos de outros primeiros-ministros passou ao lado da situação dos trabalhadores e do país e não dá resposta aos graves problemas que afectam quem cá vive, quem quer cá viver e trabalhar, não responde aos anseios dos jovens e das necessidades dos idosos.

E não foi nem distracção nem desconhecimento. Ele sabe, nós sabemos que ele sabe, que o que valoriza o trabalho e os trabalhadores são salários dignos e respeito pelas carreiras e sabe muito bem que é urgente e necessário um aumento dos salários que possa dar resposta aos aumentos brutais do custo de vida.

Sabe que o que fará com que os jovens queiram viver e trabalhar em Portugal são salários dignos, vínculos de trabalho estáveis, habitação acessível, que lhes permitam perspectivar o seu futuro. Não é a redução de impostos que há boleia abre caminho para a acumulação de mais lucros pelos mesmos do costume, aprofundando desigualdades, que fará com que os jovens optem por ficar no País.

Sabe, como também o sabiam os anteriores governos, que o que garantirá condições e qualidade de vida aos reformados e pensionistas é o aumento significativo das pensões e reformas para responder às necessidades e não medidas pontuais como o anunciado “suplemento extraordinário” de 200, 150 ou 100 euros em Outubro. Esta migalha não pode servir de pretexto para que não se proceda a um aumento das reformas necessário e possível.

Ele, como os primeiros-ministros que o antecederam, sabe que a grave situação que vivemos só será travada e invertida se forem alteradas as políticas que têm sido seguidas nas últimas décadas e que impõem que 62% dos trabalhadores por conta de outrem têm um salário bruto até 1000€ e, 745 mil trabalhadores recebiam em 2023, o Salário Mínimo Nacional, cujo valor líquido é, atualmente, de 729,80€.

E não nos venham dizer que não há dinheiro. Todos sabemos dos avultados milhões desviados para alimentar a guerra.

Também o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, está em marcha, com o argumento que não há dinheiro para contratar e pagar justamente aos profissionais de saúde, enquanto se transferem milhões para as empresas do negócio da doença.

Não é falta de dinheiro. É a política de classe da direita no poder que impede uma outra distribuição da riqueza. É a política de classe da direita no poder, agora e antes, que nos leva a que um em cada dez trabalhadores encontra-se numa situação de pobreza enquanto os lucros dos grandes grupos económicos no nosso País atingiram no primeiro semestre 32,5 mil milhões de euros por dia.

Até quando o permitiremos?

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 24 de julho de 2024

A IDEIA NUNCA ABALA!

 


A ideia nunca acaba!*

Portalegre cidade e região estão a comemorar o 23º aniversário do Museu da Tapeçaria Guy Fino, museu que preserva e expõe os saberes e a arte da Tapeçaria de Portalegre.

O Museu mantém viva a ousadia de três homens, Guy Fino, Manuel Celestino e Manuel do Carmo Peixeiro, que nos anos 50 do século passado impuseram Portalegre num mundo até então exclusivo de França e da Flandres e da competência e arte das tapeceiras de Portalegre consideradas por Jean Lurçat como as melhores tapeceiras do mundo.

Uma semana antes os portalegrenses e quantos nos visitaram puderam viver um “Mercadinho das Artes que transformou a Av. da Liberdade num oásis de cor, arte e salutar convivência inter-geracional.

Uma e outra iniciativas a provarem que é possível encontrar caminhos novos capazes de suprirem ou, no mínimo amenizarem, a apatia que nos tem tolhido e, quantas vezes, nos impede de reagir às malfeitorias de quem lá longe ou entre nós teima em condenar-nos a uma cidadania de escalão inferior.

Sim, eu sei que os golpes tem sido profundos.

Sei, todos sabemos, a situação comatosa vivida pela Manufatura que produziu e distribuiu por “todo o mundo” as tapeçarias de Portalegre. Que a FINO´s , sua prima-irmã e onde eram tingidas as lãs com as mil e uma cores necessária às tapeceiras já há muito encerrou. Que a velhinha Robinson onde chegaram a laborar cerca de dois mil operários, está encerrada e, até o seu riquíssimo património industrial está não apenas inaproveitado como em risco de ruir.

Sim. Sabemos que o Núcleo Museológico da Igreja de S. Francisco, onde foram investidos muitos milhares de euros, está não só encerrado como tem em risco todo o acervo nele depositado.

Sei, sabemos todos, que a Fundação Robinson foi assassinada como já o havia sido a empresa que lhe deu o nome e não se consegue sequer potenciar o valoroso património (sete hectares no centro da cidade) e uma fábrica típica do seculo XIX ainda capaz de demonstrar as técnicas de fabrico da rolha e aglomerados de cortiça.

Sabemos que está fechado e abandonado o antigo Sanatório enquanto se vão desfazendo os projetos anunciados de aproveitamento turístico. E sim, acompanhamos as preocupações dos que antecipam o mesmo fim para solares e conventos, quando deixarem de ser quartéis militares e militarizados e passarem a ter que ser mantidos pelos seus proprietários.

O café alentejano, o cine teatro Crisfal, o bairro da Vila Nova aí estão para nos recordar.

Sabemos também que o poder central nos trata como “enteados” só porque a nossa dimensão geográfica e politica não nos torna apetecíveis e por isso as estradas que não temos, o caminho-de-ferro que se mantem “quase” como na data em que foi implantado, os serviços de saúde e de ensino, o próprio tribunal, também eles a pagarem o preço de estarem aqui instalados.

Sabemos tudo isso mas conhecemos também (sentimo-lo) o sentimento expresso por um antigo operário corticeiro e que Jorge Murteira utilizou para titularizar o brilhante documentário que fez sobre os últimos dias da fábrica. Sim acreditamos que a “ideia nunca acaba” e por essa razão acreditamos que é (ainda é) possível reerguer Portalegre.

Assim o queiramos!

Diogo Júlio Serra

* O título deste texto e o nome do documentário sobre a Robinson da autoria de Jorge Murteira saíram, por culpa minha, com um erro. O título do documentário é " A ideia nunca abala! deveria ter sido, também o título do artigo. O erro foi detetado por um amigo. Obrigado Luís Nogueiro!

quarta-feira, 26 de junho de 2024

De farol mundo a capacho de quem manda.

 


De farol mundo a capacho de quem manda.

Quo Vadis Europa!

As eleições para o Parlamento Europeu e a guerra que alguns só descobriram oito anos depois do seu início recolocaram a Europa no centro da discussão politica e mediática.

Não poucas vezes ouvimos juras ou acusações de maior ou menor europeísmo, seja lá isso o que for. E todavia, europeístas ou eurocéticos, podem ter conotação diferente conforme o “olhar” de quem usa tais vocábulos.

Muitas vezes, quase sempre, ambos os vocábulos se restringem ao conjunto de países que formaram a união económica e politica que começou por ser uma comunidade europeia do carvão e do aço, que alargou geográfica e politicamente e apelidamos agora de União Europeia.

Fora do conceito ficam todos os países ou partes deles que se encontram no Continente Europeu, o tal espaço que vai do Atlântico aos Urais e durante séculos foi o Farol do Mundo.

Mesmo de entre os países que aderiram e se mantém na União Europeia a sua classificação difere conforme o olhar de quem os adjetiva.

Após o desmantelamento da URSS e a absorção de países até então ditos do socialismo, acabado o equilíbrio entre as duas superpotências saídas do rescaldo da Segunda Grande Guerra, eram os representantes da superpotência vencedora da “guerra fria” a dividi-los entre a Nova e a Velha Europa, considerando Velha Europa o conjunto dos países que haviam construído o que de menos mau encerra o sistema capitalista a Nova Europa os países que saídos da URSS ou da sua órbita se ajoelhavam já, por convicção ou necessidade, aos pés do imperialismo Ianque.

Daí até aos dias de hoje foi toda uma ação concertada de sedução, chantagem e prepotências até extirpar desta União Europeia o sondo dos seus fundadores e em particular, Jacques Delors que sonhava com um Europa capaz de falar de igual para igual com as grandes potências e um espaço comum de cidadãos iguais e fraternos.

Usaram-se todos os instrumentos. O pão e o circo, a adulação e a submissão levando-a a atual postura de subserviência face aos Estados Unidades da América elevados ao endeusamento enquanto potência única e omnipresente.

E assim nos mantivemos durante algumas décadas. Fingindo não ver nem sentir como o mandante se transformava em dono do mundo, comprando a subserviência com dinheiro ou com sangue, conforme a resistência com que se deparava. E não, não foi um tempo de paz na Europa. Estimularam-se guerras para destruir países, organizaram-se golpes de estado disfarçados de primaveras, fabricaram-se inimigos para garantir o negócio da guerra. E impuseram-se guerras (sempre na Europa) disfarçadas de defesa da liberdade para todos quando eram e são a tentativa de evitar o desmembramento da ordem internacional assente num único pilar.

E chegámos aqui, hoje. Com uma Europa à beira de transformar o morticínio na Rússia e na Ucrânia em novo holocausto tendo como pagantes (em dinheiros e em vidas) os europeus e como beneficiários do dinheiro e do poder os mesmos que vendem a morte do outro lado do mundo e recusando-nos a classificar as guerras como instrumentos de morte antes, classificando-as como boas ou más consoante a geografia que as acolhe ou os protagonistas que as executam.

Este é um exercício fundamental para cada um poder responder com verdade se é “europeísta” ou “eurocético”.

Quanto a mim, sou cada vez mais um cidadão português que se revê no sonho de uma Europa do Atlântico aos Urais, uma Europa dos povos, capaz de efetivar nos dias de hoje o grito saída da Revolução Francesa, mas agora assumindo todos os humanos como cidadãos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade!

Diogo Júlio Serra

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Cidadania, Democracia e Justiça Global

 


Cidadania, Democracia e Justiça Global

Quando este texto estiver disponível para os leitores do “nosso” Alto Alentejo já serão conhecidos os resultados das eleições que agora decorrem para escolhermos em Portugal e nos restantes países da União Europeia, os deputados do Parlamento da União.

Agora, no momento em que escrevo e minutos depois de eu próprio ter exercido o meu direito de voto, procuro “adivinhar” se os resultados em Portugal e nos restantes países da U.E. irão corresponder áquilo que entendo ser o melhor para Portugal e para os portugueses e portuguesas. Também para os restantes países e povos que integram a UE.

É com essa angústia que rememoro a extraordinária lição que no passado dia 9 a nossa conterrânea e minha querida amiga, Maria do Céu Pires nos trouxe a Portalegre a pretexto do lançamento de mais um livro:

 “ É o momento para afastar a cegueira do fundamentalismo e do populismo e dar palco à palavra…pois só com o pensamento crítico, com a análise racional dos problemas e dos seus contextos poderemos não sucumbir ao desespero e à angústia do tempo presente, tão repleto de sombrias expetativas.”

Conforto-me pelas conclusões dali extraídas. Não desistimos! Que cada um faça a sua parte, por menor que esta possa parecer. Cumpri!

Mas é em Portugal, aqui e agora, quando se adensam as nuvens da nova tempestade que ameaça a Europa e o Mundo que importa estar desperto. Mais que despertos, como na mesma sessão na Biblioteca Municipal alguém afirmou, atuantes para acelerar a compreensão de todos para os novos (velhos) tempos e os perigos que espreitam.

Aqui, no país dito de brandos costumes, o discurso do ódio cavalga os sentimentos de medo e o preconceito que as narrativas encomendadas laboriosamente vêm semeando e as políticas de concentração do capital e disseminação da pobreza estimulam e impõem.

É um trabalho que começou há muito tempo. Fase a fase, cada uma com meios e objetivos bem definidos e sempre em crescendo. Na formatação das consciências: ensinando a não pensar, impondo a verdade publicada á verdade vivida, domesticando a comunicação social até torna-la megafone das verdades de quem manda, na banalização dos horrores da guerra e graduando-as em boas ou más conforme a nossa (deles) proximidade com os beligerantes, na construção de inimigos e na sua desumanização.

Fazendo guerra á Paz e exaltando a guerra. Fazendo-nos aceitar “pacificamente” os custos da barbárie. Agora com a perda de poder aquisitivo e de qualidade de vida, no futuro em sangue e vida dos nossos filhos e netos.

Daí ao rufar dos tambores da guerra será (é) um pequeno passo que alguns inconscientemente estão tentados a dar e os senhores do negócio da morte não param de exigir.

E, coloca-se a questão. Não há nada a fazer? Como lutar contra tal poderio?

Há muito a fazer e é urgente fazê-lo! O como? está, em minha opinião, expresso no título do livro da Filósofa Maria do Céu Pires e que ousei colocar a titular este texto.

Cidadania, como o direito e o dever de cada um assumir as benesses e as obrigações para com o outro e para a comunidade. Considerando todos, cidadãos e cidadãs, ter consciência que persistem humanos arredados dessa situação, mas estar disponível a bater-se para que esses direitos e deveres sejam iguais para todos.

Democracia e o seu aprofundamento. Entendida em todas as suas vertentes: Política, social e cultural.

Justiça Global. Garantida a todos os humanos, a todos os povos a todos os países.

Se o conseguirmos, ainda é possível evitar a catástrofe.

Que cada um cumpra a sua parte. Também aqui, também pelo voto!

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Agora é que é. Agora é que é!

 


Agora é que é. Agora é que é!

…”Quando estive em Portalegre, já lá vão quatorze meses, foi-me prometido que as obras no Palácio da Justiça (de Portalegre) estariam concretizadas no prazo de um ano…volto quatorze meses depois e está tudo rigorosamente na mesma…Estou indignado!”

Foi assim que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça reagiu no passado dia 14 ao facto, de continuarmos dez anos consecutivos com o Tribunal encerrado por falta de obras que permitam o seu funcionamento. E se o Senhor Juiz Henrique Araújo está indignado (justamente) como estarão os magistrados, os funcionários judiciais e todos quantos há mais de dez anos trabalham “provisoriamente” nas instalações da ex-Junta Autónoma de Estradas? Como estamos nós portalegrenses?

Todavia a Senhora Secretária de Estado Adjunta e da Justiça, recentemente empossada, informou-nos no próprio dia e local que até final de Maio (este?) será lançado o novo concurso e, se tudo correr bem, estará para breve a resolução deste problema…

Tão acostumados a que nos gritem “agora é que é!” já não nos deixamos convencer. Desculpem, mas não acreditamos. Só vendo!

E não, não é por ser este governo. Não é por ser esta Senhora Secretária de Estado. É por estarmos cansados de sermos esquecidos, ignorados, desrespeitados!

A nossa (legitima desconfiança) não tem a ver (só) com o tribunal fechado há dez anos. Assenta num histórico de promessas não cumpridas, no arrastar de decisões ou na não  execução de medidas que possam minimizar o nosso isolamento face à rapidez com que se decidem e executam todas as outras que nos tornam mais vulneráveis aos malefícios da interioridade.

Não esquecemos as décadas de promessas para o Pisão, para a escola da GNR, para a concretização do IC 13… Não esquecemos que os discursos pela inclusão são acompanhados de medidas que transformam o nosso território em “terra de ninguém” e mesmo quando nos atiram investimentos de milhões ou medidas e obras que no conjunto da Região Alentejo podem ser de aplaudir, em geral tornam o Alto Alentejo e Portalegre ainda mais debilitados. Exemplos? Aqui estão:

·       Duas autoestradas que nos tocam a norte a A23 e a sul a A6 e que funcionam não como pontes que ligam, mas como muros que separam o Alto Alentejo do país e da Ibéria;

·       A anunciada linha férrea de alta velocidade entre Lisboa e Madrid (para já entre Sines e Caia) que um dia servirá um/dois dos quinze concelhos do distrito, deixando a totalidade do território sem transporte ferroviário ou (depois de muita luta pela reativação do serviço encerrado) com transporte a “velocidade de caracol” e com material circulante recuperado aos tempos primeira revolução industrial;

·       A supressão do estrangulamento na estrada Santa Eulália Elvas que impedem a passagem de veículos pesados de transporte de pessoas e mercadorias;

·       A criação de alternativas à estrada da morte em que se transformou a estrada entre Elvas e Campo Maior;

Mas há mais, muitos mais. São os casos da (não) resolução de problemas menos velhos, mas igualmente “esquecidos” que lesam gravemente a cidade capital de distrito. Recordo apenas dois: o nó rodoviário para retirar o transito de pesados do centro de Portalegre e a passagem desnivelada na entrada sul da cidade pondo fim ao somatório de acidentes que ali se verificam.

Por todas as razões apontadas e pelas muitas outras que aqui não vieram, não só é compreensível a indignação do Senhor Juiz como é totalmente incompreensível que nós, os que aqui vivemos e trabalhamos não expressemos a nossa indignação e a transformemos em ação.

Que ninguém acredite que “agora é que é” se não formos nós os alentejanos do alto a fazerem acontecer.

É a hora!

Diogo Serra

sexta-feira, 10 de maio de 2024

EM MAIO CONSOLIDAR ABRIL!

 


EM MAIO CONSOLIDAR ABRIL!

Foi assim em 1974. Voltará a ser assim!

Há 50 anos o primeiro 1º de Maio em Liberdade após as quase cinco décadas de ditadura, transformou praças e avenidas num mar de gente que ratificava a ação do Movimento dos Capitães e certificava a Revolução dos Cravos.

Também assim foi em Portalegre, cidade e distrito.

Na cidade cumpriu-se igualmente a maior e mais emotiva manifestação que a cidade viu até aos dias de hoje. E também aqui, o povo marchou ombro a ombro, em unidade fraterna e decidida: os velhos republicanos, os resistentes antifascistas, os operários da Robinson, da Finos, da Finicisa, da construção civil, das muitas fabriquetas que então, ainda, povoavam a cidade e o concelho. Mas também os empregados do comércio e da hotelaria, os comerciantes, os pequenos agricultores, os jovens estudantes e muitas mães, esposas e namoradas que anteviam o fim da guerra.

Nunca antes tantas e tantos haviam desfilado juntos no 1º de Maio. Nunca mais, tantas e tantos desfilaram pelas ruas e avenidas de Portalegre e do país.

Entretanto o país transformou-se. Muitos sonhos foram transformados em direitos, muitos direitos conquistados foram roubados, muitos outros continuam por cumprir e a merecerem a continuação da luta.

A revolução dos Cravos que só no primeiro dia cobrara sangue e vidas - quatro jovens assassinados e meia centena de feridos pelas balas disparadas pelos Pides contra os populares que se manifestavam - haveria de cobrar mais algumas vidas fruto da ação de militares traidores, das redes bombistas ou das forças repressivas ao serviço, de novo, dos que sempre foram o sustentáculo do salazarismo: capitalistas e agrários.

Cinquenta anos depois da Revolução dos Cravos e desse glorioso 1º de Maio, quando voltamos a ser arrastados para guerras que não são nossas, quando regressam os discursos da intolerância e do ódio, quando voltamos a ver cerceadas as relações de amizade com todos os países e povos conquistadas com abril, quando se volta a empobrecer a trabalhar e, pasme-se, alguns portugueses levaram com o seu voto, um dirigente da rede bombista a sentar-se num dos lugares mais altos da Casa da Democracia, os portugueses voltaram à rua e inundaram praças e avenidas para celebrar a liberdade, defender a democracia e afirmar que não temos medo!

E por isso mesmo a Avenida da Liberdade, em Lisboa, foi pequena para o mar de gente que a inundou em 25 de Abril, o nosso CAEP não chegou para acolher as gentes e o entusiasmo que O Grupo de Cantares o Semeador, os seus convidados e a sua música para ali convocaram na noite de 24 de Abril.

Por todo o país a resposta foi igual.

Em Maio, agora como há cinquenta anos, o Dia Internacional dos Trabalhadores deverá confirmar o grito que em 25 de Abril ecoou por todo o País: Não temos medo! Abril Vencerá!

Neste 1º de Maio os trabalhadores, operários e camponeses, empregados, intelectuais, funcionários públicos, professores, médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, estudantes, jornalistas, trabalhadores independentes. Todos e todas que sabem que ainda há Abril por cumprir, que há esqueletos a sair dos armários, que o cheiro a mofo já se faz sentir até na Assembleia da Republica. Que está na hora de afirmar (e fazer com) que Abril vencerá.

Este primeiro de Maio o 50º primeiro de Maio de Abril, também em Portalegre, como desde 1893 acontece, será comemorado. Sê-lo-á em festa e em luta, com concentração e desfile como a cidade viu, pela primeira vez no ano de 1898, nas comemorações do 1º de Maio organizadas pela Sociedade União Operária e com um imponente desfile levando à frente uma faixa com a inscrição: “1º de Maio – 888”, a reivindicação dos trabalhadores em todo o mundo 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer!

Em 2024 serão outras as palavras de ordem mas serão as mesmas motivações: a redução do horário de trabalho, o trabalho com direitos e salário digno, o fim da precariedade, a efetivação do direito à saúde, ao ensino, à habitação.

Acrescentar-lhe-emos outros bem atuais: a luta pela Paz, o fim do genocídio do povo palestiniano e o tão nosso, a Regionalização!

Entre a firmeza das convicções e os gritos de exigência e protesto a honra aos que o capitalismo liberal maltratou e quer apagar da história: Salgueiro Maia, Otelo, Diniz de Almeida, Costa Martins, Vasco Gonçalves, Varela Gomes e tantos outros heróis que viverão sempre no coração dos trabalhadores.

VIVA O 1º DE MAIO!

VIVAM OS TRABALHADORES (TODOS) DE TODO O MUNDO!

Diogo Serra

 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Não. Não é coisa do passado.

 

Não. Não é coisa do passado.

25 de Abril Sempre!

 

Comemoramos este ano, alguns só o assinalam, o cinquentenário do 25 de Abril.

Aquela “dia inicial inteiro e limpo” que abriu portas a todos os sonhos, permitiu a Revolução dos Cravos que pasmou o mundo e que haveria de transformar o país cinzentão e “orgulhosamente” só, numa das mais avançadas democracias do mundo. Uma democracia que, em tempo recorde pôs fim à guerra e iniciou a descolonização, elegeu uma assembleia constituinte e criou uma constituição modelar, iniciou o desenvolvimento económico e social e conseguiu integrar sem roturas institucionais ou violências mais de 1 milhão de portugueses que, por vontade própria ou alheia tiveram que rumar ou retornar ao continente português.

O 25 de Abril e o Movimento dos Capitães que o originou, os milhares de resistentes à ditadura que ao longo do quase meio século que durou, mantiveram acesa a chama da esperança, os homens e mulheres jovens e menos jovens que pagaram com a sua liberdade e em muitos casos com a própria vida, o preço daquela madrugada tão esperada, são um marco histórico e belo que mereceu e merece o aplauso da esmagadora maioria dos portugueses.

Assim continua. Independentemente dos olhos e dos interesses com cada um o vê, cinquenta anos depois. Com os olhos e a vontade com que cada um, desde o próprio dia e até hoje, o quis ver, com a forma que o 25 de Abril de 74, respondeu aos seus sonhos e como os seus interesses foram por ele satisfeitos ou beliscados.

 O
25 de Abril de 1974 encerra em si múltiplos dias e sonhos onde cabem todos, inclusivamente essas minorias que desde a primeira hora o combatem por opção de classe, interesse económico ou má formação.

Cabem todos porque ele, o 25 de Abril, é multifacetado e policromo. Até 24 de Abril foi resistência e coragem, no próprio dia começou sendo um golpe de estado militar que rapidamente foi apropriado pelo povo e transformado em Revolução dos Cravos.

No início do dia seguinte voltava à ribalta o golpe militar com o anúncio da Junta de Salvação Nacional, a surpresa da sua composição e a nomeação, em Maio, de Spínola para Presidente da República. Os dias que se lhe seguiram, até ao 11 Março, foram de intensa luta entre o “golpe e a Revolução”.

Face à derrota sofrida pelos golpistas do 11 de Março, a Revolução toma a dianteira e cumpriram-se sonhos: aconteceram as nacionalizações, o salário mínimo passou de 3.300$ para 4.000$ (+ 20%), foram implementados os subsídios de férias e de desemprego e a licença de parto.

A 25 de Novembro de 75, regressa o golpe. A revolução é travada e o país é sujeito às regras das democracias liberais e capitalistas. É o tempo da Europa connosco! Situação que hoje se mantém com Portugal a “vestir-se” no pronto-a-vestir europeu com “fatos” construídos em série e que tentamos depois adaptar.

Todavia, como as últimas eleições deixaram bem visível, de novo aconteceu Abril. Um Abril que permite a alternância através do voto, que respeita o voto popular ao ponto de, com grande pena minha, deixar sentar na vice-presidência da Casa da Democracia um ex-dirigente do movimento bombista que pôs Portugal a arder ou fingir indiferença face à decisão do Presidente da República Portuguesa (Mário Soares já o havia feito mas às claras) de, meio às escondidas, atribuir ao chefe e fundador da organização terrorista de extrema-direita, o Grande Colar da Ordem da Liberdade.

É o conjunto de acontecimentos e de valores que em cada momento e a cada sector da nossa sociedade, entusiasma ou deprime que impõe o 25 de Abril de 1974, então como agora, uma quinta-feira e sempre “ o dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”

São todos estes “Abriles” que encerram a beleza do Movimento dos Capitães e o espírito de Abril. São todas estas possibilidades de O olhar e O entender que permitem e garantem que o 25 de Abril dos Cravos e da Liberdade não seja “coisa do passado” antes continue a ser futuro para Portugal e para os Portugueses.

Que viva Abril!

Diogo Serra