quarta-feira, 22 de abril de 2020

O PODER DO MEDO!




O PODER DO MEDO!*

O medo é que guarda a vinha!

Cresci a ouvir dos mais velhos este ditado popular. Através dele a “sabedoria popular” ensina-nos que é o receio das consequências que inibe, ou não, o “ladrão” de cometer a acção.

Hoje, já no outono da minha presença nesta etapa da vida, constato que o medo nos leva a muito mais que a inibição de “ir à vinha”. O medo liberta sentimentos reprimidos pelas regras que as sociedades organizadas nos colocam. Traz à tona o que de pior existe em cada um de nós e tolda-nos a capacidade de, como humanos, sermos racionais.

Já conheço há muito que o medo, o desconhecido, abre caminho ao preconceito e alimenta o ódio - racial e étnico – e os mais disparatados sentimentos nacionalistas. Quem como eu dedicou algum tempo da sua vida ao trabalho com diferentes etnias ou viveu de perto os problemas dos trabalhadores migrantes (africanos nos estaleiros do Alqueva, trabalhadores vindos dos países do Leste à procura de emprego em Portalegre, trabalhadores de etnia cigana “temporeros” nos campos de tomate na Extremadura espanhola, não precisa de frequentar as redes sociais para conhecer até onde o medo, o preconceito e a irracionalidade podem arrastar o ser humano.

São os ciganos, os estrangeiros, agora os chineses… os culpados de todo o mal que nos acontece, ou pensamos estar-nos a acontecer e não é este ou aquele indivíduo, são todos.

Aprendi também fruto de uma vivência de décadas no seio do movimento operário que essa expressão do medo que gera a intolerância tem igualmente uma forte componente classista. Os ciganos são todos “bandidos” mas só se não forem ricos ou famosos. Os africanos negros são todos preguiçosos, quase bandidos, excepto se for o “tal” futebolista famoso, ou o “ricaço” conhecido.

Mas não precisam de ter a cor da pele diferente, ser de determinada etnia ou simplesmente estrangeiros. O ódio, este preconceito classista, manifesta-se também contra os seus iguais: os trabalhadores que lutam pelos seus direitos e, tantas vezes, pelos direitos de todos; os funcionários públicos, porque são funcionários públicos, os trabalhadores do privado porque são do privado; os estudantes, os desempregados os beneficiários do rendimento social.

Igualmente se constata que o medo, esse medo que tolhe a lucidez e a inteligência, é o combustível por onde corre o fogo ateado por incendiários populistas que já nem escondem a vontade de destruir a democracia e os direitos individuais e colectivos que esta nos trouxe.

É por isso que se nos impõe a luta sem tréguas nem desânimos contra o medo, material combustível que alimenta a intolerância, a xenofobia e o ódio que, também no nosso país, aspira a que o poder do medo leve o medo ao Poder!

Diogo J. Serra
* publicado no Jornal do Alto Alentejo de 21-04-2020

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Isto vai camaradas, Isto vai!




Isto vai camaradas, Isto vai!*

À data em que escrevo, 3 de Abril, não deveria estar por aqui, fechado em casa, mas em Estremoz, cidade que deveria estar a assumir-se como a capital do Alentejo e a receber os alentejanos das quatro sub-regiões e de toda a diáspora.

Na verdade, se o ciclo natural das nossas vidas não tivesse sido interrompido pela pandemia que nos mantém em sobressalto iniciar-se-ia hoje, naquela cidade, o Congresso dos Alentejanos.

Ali, no Congresso que a defesa da saúde de todos nos fez adiar, iríamos debater o futuro que queremos para a Região e em particular, a necessidade de encontrarmos caminhos que permitam testar as vantagens, ou não, que advirão do cumprimento do preceito constitucional e da vontade dos alentejanos, da criação das Regiões Administrativas.
Fá-lo-ia-mos um dia depois do 45º aniversário da Constituição da Republica Portuguesa, quando na Presidência da Republica está um deputado da Assembleia Constituinte e em vésperas de comemorarmos, com constrangimentos mas em liberdade os 46 anos da Revolução dos Cravos.

A grave situação que vivemos no país e no mundo, a necessidade de combatermos e vencermos a Covid 19 que já matou mais de um milhão de cidadãos, impôs-nos o adiamento desta importante iniciativa. Fá-la-emos mais adiante.

Agora é tempo de outras batalhas e apesar dos resultados mais nefastos da pandemia estarem, até agora, a poupar o nosso território a mobilização de todos é fundamental, como será fundamental esse mesmo empenhamento quando vencida a pandemia, for necessário recuperar a economia, o emprego, os direitos…e fazer o luto.

Para os trabalhadores, os micro e pequenos empresários de todos os ramos de actividade, o tempo é de resistência. Para os primeiros de resistência aos aproveitadores que a pretexto da crise pretendem impor o regresso da lei da selva às relações laborais. Para os segundos, de resistência à gula dos predadores que querem aproveitar-se da sua debilidade para os sacrificar ao “deus capital” e à sua insanável sede de lucros.

Quando pela primeira vez nos 45 anos de democracia que Abril nos trouxe o país vive sob os constrangimentos impostos pela proclamação do estado de emergência. Quando, também por aqui, se fazem ouvir, e sentir, os “apetites do grande capital e as acções dos seus governos, da sua comunicação social e das suas máquinas repressivas contra os trabalhadores, os seus direitos e as suas organizações é fundamental que saibamos impor, mesmo nesta situação de emergência o que o próprio Primeiro-ministro lembrou: “a democracia não está suspensa!”

Aos trabalhadores impõe-se hoje mais que ontem, que saibamos comemorar Abril defendendo os direitos alcançados e as suas organizações representativas!

Assim, estou certo, Abril Vencerá!

Diogo J. Serra
* publicado no Jornal do Alto Alentejo de 8 de Abril de 2020

terça-feira, 24 de março de 2020




Fundação Robinson? Sim. Sim. Sim!*

A velhinha Robinson e o seu riquíssimo património, a Fundação que a devia preservar e o Município que verdadeiramente a comanda voltaram a ser motivo de discussão político-partidária, de notícias na comunicação social e de acaloradas discussões à mesa dos cafés ou nas redes sociais.
De novo por maus motivos!
Desta vez o que a trouxe de novo à ribalta foram as trapalhadas do Município e do “seu concelho de Administração” e particularmente, o “puxão de orelhas” que o Tribunal de Contas resolveu atribuir a quem tão mal a gere. Tudo a propósito da peregrina ideia de retirar da esfera pública uma parte significativa do valioso património integrado no Espaço Robinson para o colocar em mãos privadas e de usar quem deve defender o que é de todos (a Câmara Municipal) como agente facilitador da sua “apropriação” por interesses privados.
Pelo meio a transformação, de novo, da velhinha corticeira e do espaço onde se insere em arma de arremesso político-partidário e a demonstração clara da prepotência, incompetência e desleixo de quem tem a obrigação de cuidar mas que se afirma não como cuidador da coisa pública mas, de facto, como Comissão Liquidatária da cidade e do concelho.
Vamos a factos.
O Executivo Municipal – o mesmo que não cumprem com os compromissos financeiros assumidos com a Fundação Robinson – e o Conselho de Administração que nomeou, resolveram passar parte do património Robinson para um grupo hoteleiro que, dizem, está interessado em ali construir um Hotel.
Para tornar possível essa intenção envolveram-se numa negociata tão ferida de bom senso e de legalidade que levou o Tribunal de Contas a chumbar a operação.
Termos como utilização de “porta giratória de interesses” “negócio consigo mesmo” abrem caminho à decisão do Tribunal de Contas de recusar o visto à minuta da escritura… e ainda as determinações de levar a sua decisão ao conhecimento:
a)      Do Juiz responsável pela 2ª Sessão do Tribunal de Contas;
b)      Da Inspecção Geral de Finanças, tendo especialmente em vista os poderes cometidos a esta em matérias de fiscalização das Autarquias Locais e das fundações públicas de direito privado;
c)      Da Direcção Geral do Património Cultural, tendo especialmente em vista o disposto na Lei de Bases da política e do regime de protecção do património cultural.
Quer os termos utilizados quer a decisão deveriam envergonhar os responsáveis pelas medidas ali analisadas. Todavia, parece, estes optaram pela tentativa de esconder o documento e branquear as suas acções.
Só o Presidente do Conselho de Administração da Fundação Robinson e vice-Presidente da Câmara, apresentou a demissão do CA da Fundação Robinson enquanto os restantes fingem não compreender a gravidade das suas acções e continuam a tentar “esconder o lixo debaixo do tapete”.
Entretanto na Fundação os trabalhadores estão há meses sem salário, as actividades do Núcleo Museológico de S. Francisco estão paradas por falta da electricidade que a EDP mantém cortada por falta de pagamento e em diferentes patamares da nossa sociedade se procura esconder a realidade com discussões sobre questões menores: a alegada tentativa dos opositores paralisarem a governação, as ocultas intenções do Tribunal de Contas, a oposição entre Hotel ou Museu no futuro da Fundação…
Mais uma vez pretende-se fugir ao fundamental empolando o que é acessório. E o fundamental é, em minha opinião, definir os caminhos de um futuro que mantenha o Espaço Robinson ao serviço da cidade e dos portalegrenses, garantir politicas que potenciem todo o seu património como alavanca para o desenvolvimento, que de uma vez por todas, libertem a velhinha Robinson e o vasto e rico património que mantém das tricas político-partidárias, da manifesta incompetência de quem a tem destruído, dos apetites de quem a olha como instrumento de gordo lucro.
O tempo é de travar a fundo no caminho da destruição, retomar o projecto inicial e potenciar o Espaço Robinson como solução, e não problema, para Portalegre e para as suas gentes.
 E eu, como muitos outros, que aprendemos a reconhecer os terrenos, as pedras e as máquinas como parte das nossas vidas e que durante algum tempo me empenhei em tentar que o projecto retomasse os carris de onde havia sido empurrado, quero deixar claro que sou claramente pelo triplo sim.
Sim à Fundação sem vassalagem à Câmara Municipal!
Sim à musealização do espaço e ao Museu da Cortiça presentes no projecto inicial!
Sim ao Hotel e a quaisquer outros projectos turísticos se despidos do espírito predador que por norma os caracteriza e que no caso presente claramente assumia!
Diogo Júlio Serra
* publicado no Jornal Alto Alentejo de 16-03-2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

OU O DESENVOLVIMENTO VAI À FRONTEIRA, OU A FRONTEIRA VAI AO DESENVOLVIMENTO!


OU O DESENVOLVIMENTO VAI À FRONTEIRA, OU A FRONTEIRA VAI AO DESENVOLVIMENTO!


Através da nossa comunicação social tomámos conhecimento de que os deputados eleitos pelo Partido Socialista nos círculos eleitorais do Alentejo constituíram-se em grupo “regional” com o objetivo de coordenar a sua acção política, visando reforçar o peso político do Alentejo no seio da Assembleia da República.
Saúdo a iniciativa e apesar de a entender como “curta” – ela devia, em meu entender, abarcar todos os eleitos pelos quatro círculos eleitorais do Alentejo, mais aqueles que eleitos por outros círculos eleitorais, são alentejanos por nascimento ou por opção. Espero que possa, mesmo assim, transformar-se numa ferramenta importante para o trabalho que é necessário fazer e, acima de tudo, que permita ao Alentejo não voltar a perder oportunidades e investimentos por falta de unidade, quando há verdadeiras e suicidas divisões inter-regionais.
Recordo quando da abertura da discussão de abrir o ensino da medicina fora das academias tradicionais de Coimbra, Lisboa e Porto, da regionalização que não se fez, das vias de comunicação rodoferroviárias ou do aeroporto de que o país precisa e o Alentejo tem “fechado”. Não esqueço que são sempre os territórios mais frágeis (é o caso do nosso distrito) quem paga o preço mais alto e, para o ilustrar lembremos as décadas de espera pelo arranque da “barragem do Pisão”, o completar do IP2 e do IC 13, a ligação entre a A6 e a A23, a electrificação da Linha do Leste que nos serve ou o encerramento do Ramal de Cáceres e a perda da ligação ferroviária entre Lisboa e Madrid.
Sempre defendi e continuo a fazê-lo que a nossa “crónica” fragilidade numérica, empresarial, social e política só poderá ser minimizada com a unidade de acção das diferentes instituições e vontades, alicerçadas na iniciativa de quem tem a obrigação política de, nos diversos areópagos dar voz à nossa voz. Também por tal razão não poderia agora deixar de saudar a iniciativa dos deputados eleitos pelo Partido Socialista, apesar de considerar, reafirmo, que é necessário ir mais longe, quer na composição, quer nos objectivos.
Mais, espero sinceramente que a iniciativa agora anunciada, não seja um mero grupo de pressão virado para o interior do PS e destinado tão só, a potenciar aspirações de promoção interna e de melhorias posicionais na grelha de partida na corrida aos lugares do aparelho central na Região que agora, parece, irão ser “sorteados” e que passarão pela presidência da CCDR e de outros lugares de dimensão regional.
Se for essa a intenção, o Alentejo e as suas sub-regiões continuarão, mais que adiados, a caminhar para o abismo vendo o futuro fugir-lhes através das vias rodoferroviárias que a União Europeia quis, sejam as auto-estradas que nos tocam a sul (Elvas) e a norte (Nisa/Gavião) seja a via ferroviária que levará as mercadorias dos portos portugueses aos centros da Europa, passando por aqui sem sequer nos verem.
Se for outra a intenção, a anunciada (assim o desejo) e enquanto não for possível o seu alargamento a todos os deputados “alentejanos” há muito trabalho para fazer e desde logo só no nosso distrito, o garantir que o empreendimento do Pisão não trave, dar execução à decisão mil vezes prometida da Escola de Formação da GNR, garantir a electrificação e modernização da Linha do Leste, que continua afastada das preocupações e do Orçamento do Estado.
No que à Região diz respeito o trabalho também aí está. É imperioso trabalhar para que o seu Partido e o seu governo não continuem a alhear-se da discussão dos problemas, aspirações e potencialidades de uma Região que é um terço do território do país (continente) e que quer a regionalização e o desenvolvimento.
Uma boa resposta poderá ser já dada no imediato, levando o PS e o governo a estarem presentes com todas as restantes forças políticas, económicas e sociais no congresso dos alentejanos marcado para os dias 3 e 4 de Abril em Estremoz.
Porque é o amor ao Alentejo que nos une!
Porque se o desenvolvimento não vier à fronteira será a fronteira a ir ao desenvolvimento!
Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019


 “Black Friday”, um fim-de-semana de cinismos e 
os Lagóias!

   Na última sexta-feira o país voltou a ser submerso por propaganda consumista, cuja finalidade foi transferir dos nossos bolsos para os cofres capitalistas alguma “migalha” que ainda nos restasse.
    Nos dias que se seguiram, não fossem sobrar alguns cêntimos, os mesmos capitalistas, agora apoiados pelas Jonet(s) da nossa praça, pelo inquilino de Belém e pela comunicação social nacional, instaram-nos a aumentarmos os lucros dos grandes espaços comerciais e as receitas do Estado,  apelando à nossa generosidade para, em nome dos pobres, apoiarmos os que se promovem com a  caridadezinha.
    Se, no que se refere ao primeiro caso, a “Black Friday,” o estimulo consumista se baseia apenas na aculturação a que somos sujeitos pelos “partidários do Tio Sam”, no segundo caso, esse estimulo é sustentado pela necessidade real de “acudir” a quem, de outra forma, poderá não conseguir sobreviver.
    Mas se é verdade que os “estímulos” variam, não é menos verdade que a sua origem tem a mesma raiz. O Capitalismo e a sua ânsia de concentrar nas mãos/bolsos de uns poucos, a riqueza que é de todos. Não será por distração ou desconhecimento que os promotores de qualquer um dos citados episódios optam pelo “espectáculo” mediático e pela caridadezinha em vez de apostaram em políticas e acções que ponham termo à vergonha de haver em Portugal 2,2 milhões de portugueses que vivem no limiar da pobreza; entre estes, mais de 110 mil pessoas que são pobres trabalhando.
    Os números divulgados mostram que cerca de 2 milhões de trabalhadores portugueses auferem o salário mínimo, cujo tímido aumento foi recentemente apelidado pelo Sr. Presidente da Republica de “razoável” mas que é, na realidade, em 2019, somente 118 euros mais do valor auferido há 45 anos (!) atrás quando foi instituído pela primeira vez.
Entretanto, por cá, a “nação Lagóia” é entretida com discussões de não - assuntos, casos da anunciada demolição do monumento aos dadores de sangue, de forma a não “reparar” nos caminhos para onde a política municipal nos vai conduzindo.
    De facto, quando a discussão se faz à volta do mero anúncio de uma medida isolada cujo suporte orçamental é de um euro (?) apenas no Orçamento, que ainda não se sabe sequer se vai avançar, só pode ser encarada como “manobra de diversão”.
    Manobra e encobrimento de intenções, desde logo por parte da minoria que “governa” o concelho, e que, desde há muito, perdeu o “I” que ostentava na sua sigla inicial.
    Uma “minoria” (ainda o será?) que não quer ou não consegue ter o Orçamento Municipal aprovado. Que não cumpre as decisões dos órgãos deliberativos (como são a obrigação de orçamentar e promover o Orçamento participativo), que permite a saída da única farmácia que serve grande parte da cidade velha e o Atalaião, que omite informação aos munícipes, aos eleitos nos diferentes órgãos autárquicos e à própria Assembleia Municipal e qual clube de futebol endinheirado, alicia “jogadores de clubes adversários” para conseguir “fazer passar o seu jogo”.
    Impõe-se a questão. Será apenas a “minoria” (e será minoria, de facto, ainda?) a lucrar com tais “manobras de diversão”? Importa saber se algumas das” maiorias pontuais” que fomos conhecendo são apenas correspondências locais do (e)feito Joacine ou o que assistimos é, usando a terminologia do pós -eleições autárquicas,  a rendição “dos citadinos” perante o “poder rural” .
    O tempo, como sempre, esclarecer-nos-á!

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Quem nos defende?

Manif "secos e Molhados" foto de Ochôa-Expresso


Quem nos defende? Dos outros e de nós.*


Nos últimos dias a pacatez alentejana foi abalada por um conjunto de incidentes em que a violência empregue põe em causa a calmaria que gostamos de exibir.
Um grupo de cidadãos forçou a entrada no quartel dos bombeiros de Borba, perseguiu os bombeiros que ali pernoitam e destruiu equipamento.
No dia seguinte, em Elvas, um outro cidadão agrediu verbalmente e vandalizou uma viatura dos Bombeiros daquela cidade.
Em Campo Maior, dois alunos da escola local ambos com dezasseis anos, desentenderam-se e um deles agrediu com violência a sua colega que transportada para o hospital distrital teve que ser evacuada para um Hospital Central de Lisboa onde ainda se encontra numa situação que inspira cuidados.
Três incidentes, todos eles com alguma gravidade e que acabaram por “interessar” a comunicação social local e nacional e passaram a ter presença “obrigatória” nas redes sociais.
Em todos os casos as forças de segurança chamadas a intervir, fizeram-no com o zelo e a rapidez necessárias tendo os seus autores sido identificados e os respectivos processos remetidos às autoridades judiciais.
Tudo estaria então encerrado ou pelo menos correctamente encaminhado não fosse o caso de nos dois primeiros incidentes os alegados autores serem membros de minorias étnicas e o terceiro envolver filhos de emigrantes, a vitima, e ter acontecido numa escola.
Os locais e os envolvidos, mais que os actos de “banditismo e violência” despoletaram uma campanha de ódio, com manifestações de xenofobia, racismo e intolerância extrema.
Ao “julgamento” popular onde a “sentença” era a esperada condenação, sucederam-se as indicações de pena, cada uma delas mais violenta do que o “crime cometido”: prisão perpétua, esbulho dos rendimentos, expulsão do nosso (e deles) país, espancamento ou assassinato puro e duro… e, pasme-se, não apenas para os alegados culpados mas para toda a sua comunidade.
O discurso do ódio saiu dos baús onde alguns o têm guardado e invadiu as redes sociais e as nossas casas. Impôs-se nas conversas de café e de comadres e colocou na agenda política a “necessidade” de alimentar/reforçar os grupos políticos organizados que na clandestinidade ou já com assento parlamentar sonham com novas “Noites de Cristal” como a que ocorreu em Berlim a 9 de Novembro de 1938.
É óbvio que não pretendo branquear o que aconteceu em cada um dos três casos aqui tratados ou nos muitos outros casos que sem o conhecimento mediático vêm acontecendo diariamente em diversas localidades do nosso distrito. Pretendo tão só recordar que os três casos aqui trazidos e todos os outros que alimentam o discurso do ódio e da intolerância são problemas de “bandidagem” e portanto casos de polícia. Têm a ver com actividades criminosas de indivíduos e não dependem nem da cor da pele, nem da origem étnica nem do local onde nasceu quem as comete.
Tem a ver, fundamentalmente, com a incapacidade do Estado Português cumprir as suas obrigações e fazer cumprir as suas próprias leis e deve-se às políticas de desinvestimento em meios humanos e materiais em todo o sector público (saúde, ensino, justiça…) e, também, nas nossas forças de segurança.
E o problema maior é que continua a fingir que nada se passa enquanto alguns de nós continuamos a pactuar com estas políticas e mobilizamo-nos depois não para as combater mas para alimentar quem as possa perpectuar.
Resta-nos responder à questão com que titulámos este texto.
Quem nos defende?
A resposta é fácil: o Estado de Direito, a Democracia que construímos e de que devemos cuidar!
Diogo Júlio Serra
* publicado no Jornal Alto Alentejo de 20-11-2019

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

É Preciso Acreditar...


ACREDITEMOS!

Com a contagem e publicação dos resultados da votação dos portugueses residentes fora de Portugal está terminada a eleição para a Assembleia da Republica, faltando apenas a “construção” e tomada de posse do governo que resulta da nova composição parlamentar.

O Partido Socialista reforçou as suas posições e foi com naturalidade que assistimos à indigitação de António Costa como primeiro-ministro e recebemos o anúncio das personalidades que irão formar o próximo governo. Naturalidade que se estende às posições de algumas dessas personalidades e do próprio primeiro-ministro quando em causa estão as politicas para o interior, sejam no que se refere aos anseios da Ministra dita da Coesão seja na forma “esquisita” de estender os 2% que dizem ser para a Cultura aos agentes culturais do Alentejo.

No que ao nosso distrito se refere constatámos o reforço das posições do Partido Socialista que saiu vencedor em 14 dos 15 concelhos e elegeu os dois únicos deputados em disputa.
Também aqui o Partido Socialista acabou por recolher os louros duma governação suportada à esquerda sem pagar qualquer custo pelas derivas à direita (como no caso da legislação laboral) ou pela prática de cativações sucessivas que funcionavam na prática como desinvestimento cego.

Independentemente das razões, dos méritos e deméritos o Povo falou – está falado!

Agora é hora de procurarmos encontrar os caminhos capazes de travar e inverter o trajecto que nos conduziu à situação actual. Caminho só possível se conseguirmos perceber que o diminuto peso eleitoral só poderá ser ultrapassado pela força da unidade na acção e esta só será conseguida se soubermos definir objectivos claros e capazes de, à sua volta, consensualizarmos vontades.

Sempre defendi que num distrito como o nosso onde em cada dia que passa vimos alargar o fosso que nos separa mesmo da outras sub-regiões alentejanas, é absolutamente necessário encontrar “bandeiras” que nos permitam caminhar juntos se não na totalidade do caminho pelo menos, nos principais dos seus troços.

Aos deputados eleitos, aos candidatos não eleitos, às diferentes forças partidárias, sociais e económicas exige-se agora que orientem a sua acção para travar e inverter a caminhada para o desaparecimento.

A viragem necessária não será conseguida se continuarmos, todos, satisfeitos com os nossos resultados e os do nosso grupo e a trabalharmos não para o bem do território que é o nosso mas para obstaculizarmos o caminho dos nossos adversários. Esse tem sido o caminho que nos conduziu até aqui.

O caminho tem que ser outro. Um caminho onde alguns, os que tem responsabilidades acrescidas por serem poder, não podem continuar a fazer-se notar pela falta de comparência e os outros a satisfazem-se só por demonstrarem que eles “estão lá!” mesmo que dessa postura não se consiga tirar nada!

O caminho que urge construir e percorrer impõe que cada grupo consiga separar os interesses do seu grupo e da nossa região se, nalgum momento, eles forem contraditórios e mais, que os deputados e outros eleitos possam afirmar-se como porta-vozes dos interesses e aspirações da região que os elege em vez de “megafones” do partido ou do governo.

É um caminho novo. Terá muitos escolhos a vencer mas tem que ser percorrido… Por todos!

Diogo Júlio Serra