quarta-feira, 22 de junho de 2016

ALDEIA GRANDE OU CIDADE CAPITAL?


Diogo Júlio Serra*


   Portalegre, cidade e concelho, atravessam um momento de profunda debilidade. O século XXI acelerou as situações de fragilidade que se vinham sentido nas últimas décadas do anterior e se caracterizaram pelo desmantelar das indústrias existentes, pelo definhar do comércio e das pequenas oficinas que sempre animaram as ruas da cidades e, pior, pelo desânimo que atinge as nossas gentes e tolhe os nossos autarcas.
   O desemprego instalou-se, os mais jovens foram obrigados a partir, Portalegre transformou-se numa cidade envelhecida, cada dia menos povoada, menos limpa, mais desleixada.
   A cidade deixou de ser a capital industrial do Alentejo e deixou, também, de ser a cidade branca.
   É um caminho que tem que ser invertido!
   A cidade e o concelho têm potencialidades bastantes para ultrapassar o mau momento que vivemos.
Não é a primeira vez que Portalegre se vê confrontada com dificuldades motivadas por falências e encerramentos de empresas e dificuldades financeiras do município. Sempre soube ultrapassá-las.
   O colapso da industria de lanifícios nos finais do século XIX originou desemprego em massa e foi pioneira de situações de salários em atraso e falências que agora voltamos a viver.
   A situação foi superada com o enorme contributo dos Robinson e da sua corticeira, entretanto desaparecida mas que pode, de novo, ser o motor para retomarmos os caminhos do progresso e bem estar.
   Assumindo como pouco provável que consigamos em pouco tempo a reindustrialização que reivindicamos é fundamental que olhemos, todos, para as inúmeras potencialidades que ainda detemos mas que teimosamente não transformamos em produtos para o desenvolvimento sonhado.
Desde logo o riquíssimo património que nos foi deixado pela Portalegre industrial que fomos. Uma cultura industrial, um valioso espólio de arqueologia industrial de que se destaca o espaço Robinson e a Fundação que o gere mas também os “destroços” da Lanifícios e Invicar.
   Outras potencialidades de que a cidade e o concelho dispõem são o seu rico património arquitectónico e a existência na cidade das melhores tapeceiras do mundo e da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.
   O espaço Robinson , um espaço com 7 há no coração da cidade e onde se mantém de pé toda a estrutura da secular fábrica  poderia/deveria ver ali instalado um centro de investigação do montado e da cortiça em sã convivência com a musealização da Robinson e tendo por vizinhas as muitas associações que teimam em continuar portalegrenses.
   A Manufatura Tapeçarias de Portalegre e a sua Tapeçaria ímpar poderão/deverão alavancar todo a politica municipal de turismo e assumirem-se como foco de atracção para um segmento de turismo culto, com poder-de-compra, interessado  e predisposto a “fugir” à oferta de sol e mar ou ao frenesim do litoral e dos grandes centros.
   As inúmeras casas senhoriais, os mosteiros e conventos, as suas capelas e igrejas fazem desta cidade um museu a céu aberto, complementado por uma rede de museus de que se destacam o Museu Municipal, o Museu de Tapeçarias, a Casa Museu José Régio e o espaço museológico da Igreja de S. Francisco.
   Com tudo isto o que nos falta?
  Falta-nos a vontade. Nenhuma das muitas potencialidades que detemos nos poderá valer se a vontade dos portalegrenses não conseguir impor, a cada um de nós, aos cidadãos organizados em associações e partidos e aos vários patamares do Poder Local a capacidade para descobriram pontos de união para nos tirar do pântano onde nos deixaram.
   Importa que o Município de Portalegre e as forças políticas que o compõem canalizem a discussão para encontrar formas de a Fundação Robinson retomar os seus objectivos fundadores e dispor dos meios materiais necessários em vez de continuarem a fazer dela arma de arremesso ao sabor dos seus interesses politico-eleitorais.
   Importa que a Administração da Manufactura e os vários parceiros que preparam a sua candidatura a Património Cultural da Humanidade não esqueçam que a Tapeçaria de Portalegre é o que é porque contou com a invenção do famoso nó,  com a visão empresarial da família Fino, com os cartões de pintores famosos mas também com o empenhamento e saber daquelas que Jean Lurçart apelidou de melhores tecedeiras do mundo e essas, estão no desemprego, a exercerem mil e uma actividades que nada têm que ver com os seus saberes e a receberem “aos bochechos” os salários que não lhes foram pagos em tempo útil.
   É difícil? É! Mas tem que ser feito.


*publicado no Jornal Alto Alentejo de 22/02/16

quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Era uma casa muito engraçada"

“era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada.”

     A “modinha” infantil aplicar-se-á ao edifício, propriedade do município, situado no Largo Serpa Pinto e há muito adquirido para ali se instalar o arquivo municipal?
     Não! Não é possível cantar enquanto se desmorona um edifício que é testemunho vivo da história recente da nossa cidade e um marco importantíssimo da história do movimento operário de Portalegre.
     Para os mais novos o edifício em ruínas existente no “ Largo da Boneca” será só mais um entre outros existentes na zona histórica da cidade. Outros recordá-lo-ão como sede do Estrela e lembrarão as tardes e noites ali passadas em sessão de fervor clubista ou praticando os inúmeros jogos de salão ali disponibilizados.
     Para os menos moços a recordação será a da Sociedade Vintém assim designada sem que muitos conhecessem a razão de tal denominação. Só os mais idosos e interessados conheceriam que a designação estava ligada ao custo da quota que os sócios disponibilizavam. Mas adiante, os estudiosos da história da nossa cidade, os estudiosos ou simples interessados da história do Movimento Operário e dos inícios da sua organização em Portalegre sabem que ali, dentro daquelas paredes agora em ruína total, se instalou em 1905, a primeira associação não mutualista nascida na nossa cidade, a Sociedade União Operária.
     Esta Associação, fundada em 1896 sob a égide de George Robinson e de seu cunhado Pedro Castro da Silveira, foi a primeira associação não mutualista a nascer em Portalegre e apresentava como objetivos  “o recreio, a confraternização, a instrução e a ilustração”[1].
     Os estatutos da Sociedade União Operária – S.U.O. permitiam a inscrição de associados de todas as classes sociais mas só aos operários era permitido serem sócios ordinários e votarem e serem eleitos para os órgãos sociais. Os restantes, sócios honorários, não tinham direito a voto nas assembleias gerais nem acesso aos órgãos sociais.
     A S.U.O. viria a ter uma enorme adesão da população operária de Portalegre e foi a partir das suas instalações que se organizaram as primeiras manifestações e desfiles comemorativos do 1º de Maio, ainda no século XIX.[2]
     Quando nos deparamos com a situação de ruína a que o edifício chegou não podemos deixar de condenar a nossa própria inércia perante o destruir das nossas memórias.
     É verdade que já houve intervenção do município para evitar o desabamento do telhado mas após essa intervenção não só não se conhecem quaisquer projectos para o edifício como se assiste (agora a céu aberto) à sua acelerada decomposição.
     O velhinho edifício sede da S.U.O. ( e também o antigo Teatro  Portalegrense) mereciam uma maior atenção dos Portalegrenses e em particular do seu município que, no caso da S.U.O. é igualmente o proprietário do imóvel.
     São conhecidos os constrangimentos financeiros por que passa a Câmara Municipal de Portalegre mas essa situação não pode justificar tudo e particularmente o alheamento dos portalegrenses.
     Em 1896 não foi o município quem assumiu a constituição da S.U.O., foram os operários de Portalegre e algumas das figuras tutelares da vida associativa.
     Um mês depois de constituída a associação já tinha 450 associados. O seu financiamento fazia-se “vintém a vintém”.
     E hoje?
   Cento e vinte anos depois da sua constituição não temos condições para nos quotizarmos (população, empresas, autarquias) e não deixarmos cair a sede da primeira Associação não Mutualista da cidade de Portalegre?

Diogo J. Serra

*Publicado no Jornal Fonte Nova de 31-05-16

[1]  António Ventura, Portalegre – Roteiros Republicanos, Ed QUIDNOVI,2010
[2] As Primeiras manifestações públicas ocorreram no Teatro Portalegrense mas, após a fundação da SUO passaram a ser organizadas na sua sede ou, no caso dos desfiles de rua, com partida e chegada às suas instalações.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Consenso não é Rendição!



Consenso não é, não pode ser, rendição!

A Senhora Presidente da Câmara usando da palavra na sessão solene do Dia da Cidade chamou a atenção para a necessidade de consensualizarmos posições em defesa do concelho e da região.

Chamou a atenção para a inexistência de consensos na Assembleia Municipal para que possa ser aprovado o Orçamento Municipal que, disse, já foi por duas vezes à Assembleia Municipal e tem sido "chumbado".

Sendo uma afirmação verdadeira, duvido que corresponda a uma preocupação verdadeira.

É um facto que o Orçamento Municipal de 2016 já foi presente para aprovação, em duas ocasiões distintas, na Assembleia Municipal mas em nenhuma delas o documento apresentado e aprovado pela Câmara Municipal, correspondia  ao mais ligeiro consenso entre as diferentes sensibilidades politicas presentes quer na Assembleia Municipal quer no Executivo Municipal.

Uma e outra vez o documento apresentado havia sido aprovado na Câmara Municipal não por consenso mas por imposição da vontade da força dominante - o CLIP e particularmente o colectivo de vereadores a tempo inteiro. Os restantes vereadores haviam votado contra, utilizando em ambos os casos o mesmo argumentário: não só não estavam de acordo com o documento como na prática o desconheciam porque nunca haviam sido chamados a contribuir na sua elaboração. 

Na Assembleia Municipal cuja composição inclui quatro forças políticas diferentes e um deputado dissidente do CLIP e onde não há ao contrário do que sucede no Executivo Municipal uma força maioritária o Orçamento, assim elaborado, não passou.

Todavia logo na primeira votação a bancada da CDU deixou dito que se houvesse disponibilidade do executivo (da maioria que impôs aquela versão) para ouvir e consensualizar propostas das outras bancadas rapidamente poderíamos ter o Orçamento aprovado.

Não foi esse o entendimento da maioria que a Senhora Presidente lidera. Alguns meses depois o Orçamento chumbado, sim o mesmíssimo documento que havia sido rejeitado, voltou à Assembleia para, como seria de esperar, ter o mesmo resultado. 

O discurso da Senhora Presidente parece indiciar a vontade de fazer diferente. Se assim for, se houver disponibilidade para sentar à mesa e seriamente proceder á elaboração do orçamento possível, as diferentes forças políticas, a inexistência de orçamento será rapidamente suprida.

Vai uma aposta? 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Escola Privada? Sim. Claro! Mas têm que pagá-la, certo?


O Ministério da Educação anunciou recentemente que está a decorrer um estudo para evitar o pagamento desnecessário a escolas privadas.

Pretende-se, diz o Ministério, deixar de contratualizar com uma série de estabelecimentos de ensino privados, serviços que a Escola Pública pode e deve garantir.

Este anúncio levantou de imediato uma onda de “indignação” entre os donos dessas escolas e originou a “saída da toca” da direita trauliteira e da “Igreja dos negócios” uns e outros colocando no terreno todo o vasto manancial de meios de que dispõe. Do púlpito à comunicação social, do seio das famílias beneficiadas aos proprietários dos colégios as campainhas tocaram a rebate e eles aí estão de novo no combate em defesa dos seus mesquinhos interesses.

Para quem assiste a partir do Alto Alentejo à infernal barulheira que a direita trauliteira e os megafones e ”paineleiros” que mantem na comunicação social, a que se junta a parte da igreja católica que não entendeu ainda o pensamento do Papa Francisco, todo este frenesim é motivo de apreensão e desilusão.

Para quem, como nós, persiste em viver e trabalhar no distrito de Portalegre e não desiste de lutar para que as populações do interior e as deste distrito em particular tenham tratamento igual aos restantes portugueses, não consegue deixar de notar o cinismo de quem vem agora mostrar preocupação com os direitos das crianças, com o perigo de professores caírem no desemprego ou, pasme-se, com os direitos adquiridos pelos colégios que foram vivendo à custa dos dinheiros públicos.

Onde estavam esses sentimentos e preocupações quando os próprios ou o governo que os representava encerraram no nosso distrito 65 estabelecimentos de ensino: 14 do pré-primário, 42 do primeiro ciclo, 8 do segundo ciclo e 1 do secundário?

Onde pairavam as preocupações agora tão extremadas quando o primeiro-ministro de então, o mesmo politico que agora tão preocupado está, aconselhava os professores a saírem do país?

Onde estava a igreja (a parte dela que não compreende o pensamento do Papa Francisco) quando eram os pais, os professores e as autarquias a denunciarem que o encerramento das escolas obrigava crianças de 6 anos a levantarem-se de madrugada e só regressarem a casa já noite?

Onde estavam os megafones e opinadores quando a direita no governo rasgava os direitos adquiridos pelas crianças e lhes roubava o subsídio, os direitos adquiridos pelos pais e os colocava no desemprego, os direitos adquiridos pelos avós e os obrigava a trabalharem mais tempo e lhes retirava partes da reforma para a qual contribuíram ao longo de uma vida?

Falemos verdade! O que dói à direita trauliteira e ao coro de opinadores que a servem, é o estar provado que, ao contrário do que afirmavam, há outros caminhos para Portugal. O que não conseguem ultrapassar é a derrota que lhe foi infligida e a perda do poder e das benesses que tal poder lhes permitia.

Quanto à igreja (a parte que não quer aprender com os ensinamentos do seu/nosso Papa), a sua integração no “coro dos vencidos” é menos por não perceber a justiça da medida, mas por colocar o seu papel de proprietária à frente das suas obrigações pastorais.

A uns e outros, que Deus lhe perdoe porque eu não sou capaz!

*  Publicado no Jornal Alto Alentejo de dia 18-05-16

    

118 anos depois, o sonho mantêm-se vivo!

118 anos depois, o sonho mantêm-se vivo!


A Cooperativa Operária Portalegrense, fundada em 1898 para dar resposta às cíclicas faltas e carestia de pão, mantém-se ininterruptamente em atividade ao longo dos seus 118 anos.
Constituída pela vontade de 41 trabalhadores da Robinson, só um, Manuel Ceia, não era operário, cedo se afirmou como uma instituição indispensável à cidade e ao movimento associativo local.
Sete anos depois da sua fundação, inaugurava a sua sede, um imponente edifício onde se mantém até hoje e que ocupa todo um quarteirão da rua com o seu nome.
Foi ali, na sua sede, que 118 anos depois a sua direção reuniu os corpos sociais, os associados e os amigos, para festejarem o aniversário e reafirmar o sonho que moveu os seus quarenta e um fundadores.
Ao longo da sua longa existência a Cooperativa Operária Portalegrense passou por momentos bons e menos bons, por períodos de maior o menor dificuldade mas soube sempre afirmar-se como baluarte do associativismo operário e popular. Atravessou vários períodos da nossa história e contribuiu para a construção, em cada momento, dos caminhos do futuro. Fê-lo sabendo estar sempre do lado certo da história.
Fundada nos últimos anos da monarquia foi centro difusor dos ideais republicanos e local de discussão e organização operária. Nas suas instalações fez-se história.
No salão da cooperativa ocorreram as reuniões constituintes dos primeiros sindicatos, digladiaram-se os ideais do republicanismo, do socialismo e do anarco-sindicalismo. Afinaram-se estratégias e organizaram-se solidariedades enquanto as vendas da loja da cooperativa, durante décadas o maior “estabelecimento comercial” da cidade, garantiam o financiamento necessário às suas muitas atividades que incluíam, a partir de 1912, uma escola para os filhos dos operários da cidade.
O aparecimento dos super e hipermercados e os novos hábitos de consumo que ditaram o fim da Cooperativa de Consumo a par do desuso em que caíram as bodas organizadas pelas próprias famílias e os avultados custos de manutenção do seu património imobiliário, impuseram inúmeras dificuldades aos que ao longo dos últimos 30 anos persistiram em manter viva a cooperativa operária.
A vontade e o sonho que levou à sua constituição foram os mesmos que permitiram a sua manutenção até aos dias de hoje e estimulam a equipa que agora lhe pegou no leme a continuar o caminho iniciado nos finais do século XIX.
Hoje, quando já desapareceram muitas das instituições que nasceram no mesmo século e não conseguimos sequer preservar o património edificado onde funcionaram: a fábrica Robinson, a Sociedade União Operária, o Teatro de Portalegre. Quando algumas outras como a Associação Comercial atravessam enormes dificuldades de sobrevivência, é motivo de orgulho para os portalegrenses continuar a comemorar aniversários de quantas, também centenárias, apesar das dificuldades, mantem acesa a chama da solidariedade e do desenvolvimento de Portalegre.
A Cooperativa Operária Portalegrense, a Sociedade Euterpe, a Associação dos Bombeiros de Portalegre e também a Associação Comercial que durante mais de um século resistiram a todas as adversidades e trouxeram até nós o seu importante legado são, todas elas, merecedoras do nosso respeito.

 *Publicado no Jornal Fonte Nova de 16-05-16

   

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Não podem ser os de fora a condicionarem o futuro do país




Diogo Júlio Serra*
O país conheceu agora os números sobre o Programa de Estabilidade. Os números revelados colocam o défice em 1,4% do PIB (em vez dos 2,2% anteriormente anunciados) o que significa uma redução superior a 1.400 milhões de euros, referente à proposta anterior.
É o resultado da pressão exercida pela Comissão Europeia, privilegia cortes sucessivos e indiscriminados no défice público, e prejudica políticas de crescimento económico e de melhoria das condições de vida da população.
Ao anúncio de uma redução mais intensa do défice público soma-se, pois, a revisão em baixa das projeções para o crescimento do PIB, para um nível claramente insuficiente para a criação de emprego sustentado e com direitos.
É aliás sintomática a manutenção da taxa de desemprego em 11,3% (média nacional mas que no distrito é largamente superior), situação inaceitável face às necessidades e às expectativas geradas em torno do compromisso do Governo do PS em inverter o rumo de empobrecimento e de exploração preconizado pela política de direita.
O Programa de Estabilidade não pode condicionar o futuro do país!
É preciso ter a coragem de dizer BASTA, tanto mais que é conhecida a diferença de tratamento que a Comissão Europeia dá a Portugal m relação a outros países da União Europeia com economias mais robustas.
O agora anunciado para Espanha mostra bem quão diferentes as formas de tratamento. Uma adequada dilatação de prazos (mais um ou dois anos) para conseguirem a redução do seu défice enquanto para nós é o forçar prazos mais curtos para uma maior redução do défice público ao mesmo tempo que ataca medidas fundamentais ao crescimento e desenvolvimento do país como a reposição dos salários, o aumento do salário mínimo nacional, a melhoria das pensões de reforma e a reposição dos quatro feriados que haviam sido retirados.
O Norte Alentejano conhece como nenhuma outra sub-região os efeitos das políticas preconizadas pela Comissão Europeia e os outros membros da troica.
Aqui, o desemprego atinge números insustentáveis e entre os que conseguiram manter o posto de trabalho crescem as situações de pobreza extrema.
A maioria da população, constituída por reformados e por desempregados é obrigada a sobreviver com um rendimento médio inferior a 350 euros mensais o que justifica quer o encerramento do comércio tradicional e das empresas de serviços de apoio à população e à economia local, quer a manutenção dos altos números dos que saem do território.
Os que ficam, por opção ou por não terem já condições que lhes permitam sair, são confrontados com condições de vida altamente penalizadoras e contrárias ao desenvolvimento económico e social: isolamento, constrangimentos no acesso aos cuidados de saúde, aos serviços de ensino e à cultura.
Como bem sabemos, o Norte Alentejano é o único distrito cuja capital não é servida por uma autoestrada, nem sequer com estradas com um mínimo de condições, que durante anos não teve acesso ao transporte ferroviário de passageiros e o que agora dispõe é de péssima qualidade e insuficiente, que não tem tido nem tem acesso fácil e económico às redes de informação e não tem os apoios necessários para que o ensino superior aqui instalado possa manter a sua atividade e contribuir para o desenvolvimento do território.
É absolutamente claro para quantos aqui vivemos e trabalhamos que urge dar combate às despesas públicas supérfluas e que não dão resposta aos interesses das populações.
É reconhecido por todos que importa pôr travão aos sucessivos e astronómicos apoios do estado ao setor financeiro, acabar com os encargos com as parcerias público-privadas, com os encargos especulativos a pagar à banca (swap), reduzir drasticamente os custos com a contratação de serviços externos para realizarem tarefas que podiam ser feitas pela administração pública. O que não é assim claro e que não podemos aceitar é que para dar resposta a eventuais cortes no défice se voltem a sacrificar os mesmos: os trabalhadores e os pensionistas e a generalidade das populações através da penalização das funções sociais do estado e serviços públicos para as populações.
Este é o momento de romper com a política de espoliação a que o país e em particular os territórios do interior têm sido sujeitos.
Este é o tempo de colocar a economia ao serviço das populações e da necessária coesão territorial.
É um tempo que exige de governantes e governados a capacidade de rompermos espartilhos e afirmarmo-nos como povo independente num país com quase nove séculos de história.
É agora o momento.

* publicado no Jornal Fonte Nova de 27 de Abril de 2016

quarta-feira, 30 de março de 2016

ALENTEJO - Um Povo, uma Cultura, uma Região

Alentejo - um Povo, uma Cultura, uma Região.

Diogo Serra*

Tróia acolherá no próximo dia 2 de Abril o Congresso dos Alentejanos, agrupados no AMALENTEJO.
Não são, local e data, escolhas de mero acaso.
 O local é a parte do território alentejano mais próximo “do lugar onde tudo se decide” e, coincidência ou não, foi igualmente em Tróia que teve lugar a primeira tentativa de construção de uma alternativa ao poder absoluto do governo centralista. Quanto à data ela tem a ver com a manifestada intenção dos organizadores de assinalarem o 40º aniversário da Constituição da Republica Portuguesa e de homenagearem o Poder Local Democrático.
Igualmente importante a escolha desta data quando uma das exigências a levar ao Congresso será o cumprimento do disposto Constitucional no que se refere ao Poder Local – instituindo o terceiro pilar desse poder – as Regiões Administrativas.
O Congresso que se quer ponto de partida para uma intervenção cidadã que pela força do razão e da unidade dos alentejanos e alentejanas, consiga dotar a região com as ferramentas e as vontades capazes de alterar o caminho de paralisia económica e desmotivação social para onde as politicas centralistas nos têm empurrado é o culminar de uma caminhada de um ano, feita em conjunto por um significativo número de alentejanos e alentejanas que tem como denominador comum o seu amor ao Alentejo.
Fruto dessa vontade o AMALENTEJO conta já com quase uma centena de adesões coletivas formalizadas entre as quais as quatro Comunidades Intermunicipais Alentejanas e dezenas de Municípios de todo o Alentejo, nuns casos através da adesão das Câmaras Municipais noutros através da adesão das Assembleias Municipais.
São igualmente em número crescente as Juntas de Freguesia 
Mas não são apenas autarquias. O AMALENTEJO conta já, igualmente, com a adesão de importantes estruturas sindicais como as Uniões Sindicais do Distrito de Beja, Évora e Portalegre, da UGT de Beja, do Sindicato dos Professores da Zona Sul e da Direcção Regional do Alentejo do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses.
O Instituto Politécnico de Beja, Casa do Alentejo, Associação de Defesa do Património de Mértola - ADPM, o Diário do Alentejo, o Núcleo de Beja da CPPME (Confederação Portuguesa das Pequenas e Médias Empresas), a Cooperativa Cultural Alentejana e a Associação de Municípios para a Gestão da Água Publica no Alentejo constam igualmente entre as adesões coletivas registadas.
A juntar às adesões de entidades as cerca de 300 adesões individuais já registadas.
De grande significado político o facto da adesão das instituições aderentes, ter sido, excepto num caso, aprovada por unanimidade ou sem votos contra. Tal revela o largo consenso existente na sociedade alentejana quanto à necessidade de defender, valorizar e aprofundar o Poder Local Democrático que já temos – Freguesias e Municípios, a consciência do seu importante papel para a melhoria da qualidade de vida das populações e do seu inegável contributo para a criação das condições básicas para o desenvolvimento económico, social e cultural do Alentejo.
Revela também uma profunda compreensão quanto à importância e necessidade da existência de um Poder Regional Democrático, Plural, Representativo e Transparente que substitua com vantagem e sem aumento dos custos, o poder regional existente que não passa de uma extensão da Administração Central.

O Distrito de Portalegre não tem estado de fora deste movimento. A prova-lo a presença de onze personalidades na Comissão Promotora e a adesão confirmada de significativas instituições com sede no distrito quer no seio do AMALENTEJO, quer no Congresso de Tróia.

* membro da Comissão Promotora do AMAlentejo