quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O(s) AGOSTO(s) da minha infância!

 

O(s) Agosto(s) da minha infância!*



Nos anos 60 Arronches era, como a maioria das nossas vilas e aldeias, um espaço aberto de liberdade e de descoberta para crianças e adolescentes.

Claro que não o era para todos. Era-o para quem, crianças e jovens, ainda não sabia que a guerra colonial os esperava, que o controle social e político imposto aos seus pais e avós ainda estava de “pedra e cal”.

Mas isso são outros contos!

Agosto era então o mês livre das obrigações escolares, mês em que a vigilância paternal afrouxava, o mês em que chegavam os “primos de Lisboa”, que a hortas e pomares da vila os desafiavam que os campos, ali à porta de casa, eram parque de diversão e esconderijo e os rios e ribeiras que cercam a vila espaço de aprendizagem e fruição.

Era também o mês das festas anuais e em particular da festa da Santa Casa a maior e mais representativa festa dos arronchenses.

A praia estava ao alcance de pouquíssimas famílias (contavam-se pelos dedos da mão) os que iam à praia. Só as famílias proprietárias das terras e das gentes “iam a banhos para a Figueira” levando consigo família e “serviçais” e por lá se ficando (em casa própria ou alugada), o mês inteiro.

Para a maioria a “praia”, o local para onde iam a banhos tinha nome mais familiares: açude do Porto Manes, açude d´el Rei, pego da nora, etc.. etc… locais que pela sua profundidade ou pela existência de represas não secavam no verão como sucedia com a maior parte das ribeiras e riachos.

Aos bandos (só os rapazes porque às meninas estavam proibidas essas veleidades) era vê-los, quase sempre sem o conhecimento e muito menos autorização dos pais, escaparem-se para a “banhação”.

Os mais velhos eram os professores e vigilantes. Eram eles quem ensinavam as primeiras braçadas, quem não permitia aos mais novos aventurarem-se para locais onde “não tivessem pé” e muitas vezes quem os transportava (às costas) aos locais destinados apenas aos “eleitos”: os mergulhos da parede da nora da horta do vassalo, para os locais de grande profundidade daquele troço do rio Caia que a represa criada para garantir água aos lagares ali existentes, garantia igualmente a melhor e mais frequentada piscina natural.

E tudo estava bem definido de acordo com a idade dos seus utilizadores. Os mais novos no “açude de cima”, no canal que levava a água ao lagar do Grémio da Lavoura, ali onde hoje está o Centro Interpretativo da Realidade Agrícola – CIRA. Os que já tinham alguma prática, mais à frente junto ao “escamado” e só os mais velhos e já exímios nadadores, com “licença” para mergulharem no “açude de baixo” e mergulharem e nadarem no pego da nora.

Não eram raras as vezes em que, por se “esquecerem” de voltar a casa durante todo o dia ou de informarem sobre a banhação, o regresso era feito descalços, e muitas vezes sem roupa, à frente do chinelo ou do cinto, consoante fosse a mãe ou o pai quem comandava a operação.

Mas ir a banhos era apenas uma, talvez a mais frequentada, das atividades de Agosto. As festas anuais e particularmente a Festa da Santa Casa, eram o ponto alto do verão dos arronchenses. E estas, “mexendo” com todos, jovens e adultos, homens e mulheres de todos os extratos sociais.

A sua importância na vida da comunidade ultrapassava em muito a finalidade de proporcionarem o financiamento da instituição que as promovia e do seu hospital concelhio. Era o momento do reencontro das famílias – aos que permaneciam no concelho, e eram então o triplo do que somos hoje, juntavam-se os que haviam partido para a zona de Lisboa em busca de melhores condições de vida e era também o momento dos “ricos” afirmarem o seu “estatuto e poder” fosse fazendo integrar no cortejo os carros de tração animal carregados de oferendas, (lenha, trigo, etc…) e era, principalmente para os mais jovens, o tempo em que se abriam brechas no controlo social e se permitia o convívio entre rapazes e raparigas.

Na verdade as festas da Santa Casa tinham uma particularidade que, naqueles tempos, fazia toda a diferença: o cortejo de oferendas e as marchas que o integravam. Estas integravam dois grupos distintos. À frende e escalonados por altura as crianças. Eles trajados de campino (vá-se lá saber porquê) levando ao ombro um bordão decorado tendo à ponta um lenço onde se levava uma oferta. Elas com trajes garridos levando no braço uma pequena cesta e nela uma pequena oferenda. Seguia-se o grupo dos “adultos” eles de calça e colete pretos, camisa branca e com cinta vermelha. Elas com vestes minhotas transportando à cabeça um cesto de verga contendo as fogaças que mais tarde, no arraial, seriam leiloadas. Marchavam eles e elas separados pela rua acompanhados pelos acordeonistas e cantando a marcha das festas.

As marchas, uma aposta do então provedor Frederico Santos, impunham um mês de ensaios. Um mês inteiro em que noite após noite rapazes e raparigas sob o olhar benevolente das mães ensaiavam sob a batuta do austero provedor e ao som do acordéon do João Gravito e do pai (o sr. Francisco Chambra) aprendiam a cantar a marcha  (a música da marcha vencedora desse ano do Santo António em Lisboa e para a qual um letrista do concelho – quase sempre o mestre Cleto – escrevia o texto ressalvando Arronches e a sua “Casa Santa”).

Os ensaios tinha lugar no Salão de Festas (espaço único de então) onde hoje está instalado o museu de A Brincar. E, porque as mães ainda conseguiam lembrar-se de serem jovens e o João Gravito era ele próprio um jovem, facilmente se deixavam convencer (umas e outro) para que no final do ensaio e após a retirada do Sr. Frederico Santos, se organizassem animados bailes onde até as mães “davam um pezinho de dança.

Depois, depois eram os três dias de festa. Com o cortejo de oferendas, a tourada - o único momento anual em que a Praça de Touros recebia um corrida de touros com os cavaleiros, forcados e demais participantes a ofertarem a sua atuação e os ganadeiros o oferecerem o curro e o arraial realizado no Largo da Cadeia onde hoje está o jardim com serviço de restaurante e bar instalado na garagem do Sr. Bigares, muitas mesas ocupadas por quem as podia pagar, um estrado onde os mais jovens e mais abastados pagavam para dançar ao som da orquestra vinda de fora e instalada no coreto de ferro previamente montado.

Os mais pobres também tinham espaço nas festas. As mulheres levando cadeiras de casa sentavam-se na parte que dá ao convento da Luz e desse local seguiam o desenrolar de toda a festa. Os homens encontravam espaço para uma bebida nos balcões que ladeavam o Bar e os mais jovens e menos endinheirados criavam fora do recinto um espaço onde podiam dançar sem pagamento. Porque o recinto que os impedia de entrar não impedia a música de sair.

Foram assim os Agostos da minha (nossa) infância.

 Diogo Júlio Serra

*publicado no Noticias de Arronches de Agosto2021


REENTRAR É SÓ PARA QUEM SAÍU!

 


REENTRAR É SÓ PARA QUEM SAÍU!

A comunicação social habituou-nos a pensar que em cada ano o país “fecha para férias” e só nos últimos dias de Agosto retoma a actividade. É a rentrée, dizem-nos!

Como quase sempre, tomam o “seu mundo” pelo mundo de todos e fazem o calendário de acordo com as agendas politicas dos partidos que se habituaram a promover e das “elites” que os suportam: os tais partidos e a muita comunicação social dita de referência.

Generalizam como se todos os partidos (e instituições aparentadas) fossem iguais, como se toda a gente tivesse férias e tendo-as todos as “gastassem” fora do local da residência.

Em ambos os casos erram. Esse pequeno mundo que idealizam é isso mesmo, o mundo de muito poucos. A maioria não “reentra” pelo simples facto de nunca ter deixado de estar.

Nessa imensa maioria estão, também em Portalegre, os que mantêm a(s) cidade(s) viva(s). Os que mantém as fábricas e oficinas a produzirem, os comércios a funcionarem e a produção dos bens que nos alimentam. Os trabalhadores da saúde, as forças de segurança e da proteção civil, entre muitos outros.

Nas forças políticas, na rentrée como na acção diária e nos objectivos, não há unanimismo. Não, também aqui não são todos iguais e mesmo num ano, como o actual, em que as eleições autárquicas impõem tempos diferentes, as diferenças são notórias.

Uns, saindo para férias enquanto no terreno é o dinheiro que parece não faltar que lhes garante a proliferação dos cartazes de grande dimensão pela cidade e freguesias, outros afadigados no trabalho “de formiguinha” fazendo do contacto pessoal e da força das ideias, veículo de difusão das suas propostas e soluções.

Também aqui e agora, uns fazendo trabalho para encontrar soluções, outros fazendo “trabalho” para ampliar os problemas que nos afectam seja negando a sua existência, seja atirando-lhe para cima dinheiro (ou promessas), no intuito de os esconder.

Ainda há pouco em conversa de café, numa esplanada do bairro mais populoso da cidade, onde resido há trinta e sete anos, um amigo comentava que os partidos A, B e C haviam marcado a sua rentrée para os dias tais e tais e que os comunistas (referia-se ao PCP) só o fariam mais tarde na Festa do Avante.

Tive que contestar. Na verdade, dito assim, pareceria que a Festa é fato pronto-a-vestir, é uma “coisa” como as outras. É, como os seus detractores gostam de dizer, uma festa para recolher receitas para o PCP.

E é tão distante a realidade. Tão distante quanto a distância que separa a rentrée de alguns, suportada nos seus papagaios na Comunicação Social e nos megafones locais, do trabalho persistente do PCP e dos seus parceiros na CDU na construção das suas propostas eleitorais e na construção do maior acontecimento politico-cultural em cada ano – a sua e nossa festa, a Festa do Avante.

A festa é a maior afirmação do PCP na sua persistência e vontade em construir pontes que permitam soluções para os problemas do país. Uma construção colectiva que marca de forma indelével quantos a constroem e os que a vivem e que promove a amizade e a alegria de viver.

E é esse construir de amizade, alegria, companheirismo e futuro que gera o medo “entre os do antigamente” e naqueles que conseguem influenciar/enganar. É essa amostra do futuro que gera o ódio de quantos vivem do e para o passado.

Também aqui se mostram as diferenças existentes entre quem constrói o futuro e quem persiste em dinamitá-lo.

Quem tem que reentrar e quem nunca saiu. Quem é novo na idade e velho nas propostas e quem sendo centenário continua o caminho com cara levantada, orgulho no passado e olhos no futuro.

Reentrada? Não chegámos a sair!

Diogo Júlio Serra
(publicado no jornal do Alto Alentejo de 1-9-2021)

quarta-feira, 21 de julho de 2021

NÃO HÁ TERRITÓRIOS POBRES...

 



Não há territórios pobres. Há territórios sem projecto!(*)

A afirmação com que titulo este texto expressa o que há muito penso da nossa região e particularmente dos nossos concelho e cidade e que foi reforçado, nos últimos dias, por uma série de iniciativas em que participei.

Permitam-me enumerá-las: a assinatura do Protocolo de colaboração entre o IDECI e o Grupo angolano MOCAP; o 20º aniversário do Museu da Tapeçaria - Guy Fino; o Debate Temático Biodiversidade, Sistemas Produtivos, Trabalho com Direitos organizado pelo AMALENTEJO.

No primeiro destes eventos, realizado no passado dia 2 de Julho, a celebração de um protocolo de cooperação entre o Instituto sedeado em Portalegre e o Grupo Angolano que inclui a Universidade de Belas, o Instituto Politécnico Maria Osvalda, duas escolas de saúde (Escola Média Anuarite Kilamba e Escola Técnica MOCAP) e o Instituto Médio Agrário, foi-nos permitido saber do contributo do IDECI para a vinda do Centro de Desenvolvimento SOFTINSA/IBM para Portalegre e do reforço de alunos cabo-verdianos no Politécnico.

A segunda iniciativa e em particular as comemorações que o assinalaram e nas quais participei em representação da Entidade Regional de Turismo, permitiu constatar, a excelência da Tapeçaria de Portalegre e de quem garante o acrescentar arte à que ali lhes chega pelos cartões dos grandes pintores do nosso tempo. Serviu também, infelizmente, para constatar que aos elogios (merecidíssimos) de quem tem o poder de decidir não têm correspondência em ações e políticas capazes de colocar a jóia que aqui nasceu e aqui se mantém, no lugar que ela, a cidade e o país precisam e merecem.

A terceira e última dessas iniciativas, o debate temático preparatório do Congresso que os Alentejanos marcaram para Estremoz e que a pandemia não tem permitido concretizar, foi a confirmação plena de que Portalegre, o distrito e a região têm produtos, competências e saberes que é quase criminoso não potenciar convenientemente.

O Debate que decorreu sob o Lema “Desenvolvimento Sustentável do Alentejo” e que tive a honra de moderar, foi elucidativo do muito de bom que não potenciamos devidamente e do muito mau que nos aflige e que não temos sabido (ou não nos tem sido permitido) ultrapassar.

Os Politécnicos de Beja e de Portalegre mostraram-nos pelas comunicações dos seus representantes – os docentes e investigadores Fátima Carvalho e Paulo Brito que também as instituições do saber instaladas na região estão na linha da frente e a partir daqui desenvolvem ideias e projectos do melhor que se faz no país.

Em Beja, os projectos de purificação, combate ao desperdício e reaproveitamento da água e em Portalegre com o trabalho desenvolvido para transformar os resíduos em energia e a sua disponibilização às empresas e instituições da região e adaptadas à sua dimensão e necessidades.

Também aqui, como já sucedera quanto às tapeçarias, a certeza absoluta que na Região se faz do melhor que se faz no país mas que a organização politico-administrativa teima em não perceber e valorizar.

As restantes comunicações, do Movimento Chão Nosso e dos Sindicalistas do distrito refletiram, no primeiro caso com a Arquiteta Inês Fonseca a trazer-nos uma interessante reflexão em torno dos impactes das culturas intensivas no Alentejo, dando voz às preocupações das populações e constatando que a ciência (ficou ali demonstrado) tem soluções para grande parte dos impactes mais negativos.

 Por último com os dirigentes sindicais a mostrarem o retrato da região (que afirmaram não é diferente do nacional) com uma economia baseado no trabalho barato e sem direitos e, por isso, incapaz de fixar e muito menos atrair a mão-de-obra jovem e qualificada que a região necessita.

No final a constatação que não somos os “pobrezinhos” que as estatísticas registam. Somos é sistematicamente despojados das ferramentas necessárias a potenciar os nossos (muitos) pontos em que somos claramente dos da frente.

Falta-nos Projecto! Seja ele corporizado por autarcas empenhados e competentes. Seja-o em políticas nacionais para a região, seja-o pela concretização do que a Constituição garante e os Alentejano tem mostrado querer - A Região Administrativa que consagre a “bandeira” que nos une: Alentejo - um Povo, uma Cultura, uma Região!

Diogo Júlio Serra

(*) Publicado no Jornal Alto Alentejo  de 21-7-2021

quarta-feira, 7 de julho de 2021

PORQUÊ?

 



Porquê?Porquê?Porquê?*

A Assembleia Municipal aprovou na última reunião, um conjunto de iniciativas que, são público reconhecimento do percurso de vida de algumas personalidades do nosso concelho ou que a ele estiveram ligados.

Alguns, infelizmente, através do voto de pesar pela sua morte, como foram os casos de José Manuel Barradas e do Padre Américo e outros dois, um deles igualmente já falecido, pela obra ímpar que nos legaram.

São os casos de Jorge Feliciano Arranhado a quem a Assembleia Municipal propôs homenagear, dando o seu nome ao edifício onde irá instalar-se o ninho de empresas e que foi sede da primeira instituição operária não mutualista, a Sociedade União Operária e mais tarde sede do Sport Clube Estrela, agremiação que Jorge Arranhado presidiu e de Fernando Soares, primeiro Presidente de Câmara eleito pelos portalegrenses e que, entre outras obras, nos legou o maior núcleo habitacional do concelho, o Bairro dos Assentos.

Honram o concelho e os seus órgãos democráticos, as posições então aprovadas pela Assembleia Municipal. A maioria delas por unanimidade dos presentes e só uma, estranhamente, contra a vontade do CLIP que votou em bloco contra este reconhecimento a Jorge Feliciano Arranhado e fê-lo sem qualquer explicação, sem ter feito qualquer intervenção durante a discussão da proposta, sem qualquer declaração de voto que nos elucide das razões do seu não.

Terá aquela bancada razões poderosas para não se integrar na justa homenagem da Assembleia Municipal? Talvez, mas como não as elucidou, fica a dúvida que não sejam as mesmíssimas razões que levaram alguns, durante muitos anos da vida deste ilustre portalegrense a procurarem isolá-lo, retirarem-no ao convívios dos seus e da sua cidade, retirarem-lhe a liberdade e calarem a sua voz.

Os portalegrenses ainda estão lembrados das perseguições que lhes moveram mas também da sua (e de muitos outros) resistência. E lembram sobretudo o seu percurso profissional e social que o texto aprovado regista com exatidão: “Jorge Arranhado, empresário portalegrense já falecido, foi um empreendedor e impulsionador da atividade comercial em Portalegre, modernizando-a e conferindo-lhe um importante caráter social de promoção de emprego e prestação de serviços.

Um inovador, na sua época, Jorge Arranhado foi também um filantropo e benemérito de atividades culturais e desportivas das diversas associações portalegrenses, tendo presidido ao Sport Clube Estrela, mesmo quando esteve proibido devido às suas posições contra o regime do Estado Novo…”

Estarão aqui as razões que justificam o voto contra do CLIP? Ou o porquê de tal posição encontra-se no que aqui não está escrito mas que levou a que também a PIDE não gostasse da sua obra?

Ou porque, tão só, não sabem quem foi e o que fez? Porque não conhecem Portalegre e os portalegrenses?

Na verdade, são muitos os porquês que tal posição nos suscita. E não os conhecendo atrevo-me a vaticinar que independentemente desses porquês o CLIP resolveu dar (mais) um tremendo tiro no pé!

Diogo Júlio Serra

* publicado no jornal do Alto Alentejo de 7-7-2021

terça-feira, 29 de junho de 2021

PELA BOCA MORRE O PEIXE... E OS CANDIDATOS TAMBÉM!

 




PELA BOCA MORRE O PEIXE...E OS CANDIDATOS TAMBÉM!

 

Em Portalegre, cidade e distrito, o “aroma” é já de eleições.

Embora a data ainda não esteja marcada, o clima vivido já não engana ninguém. São as diferentes forças politicas que se afadigam para apresentar ou importar os rostos que, darão corpo às suas candidaturas, são os próprios candidatos a multiplicarem-se em aparições feitas de forma aberta ou escondidos por detrás de ministros e outros governantes que num repente, descobriram o Alto Alentejo, quer porque para aqui os trouxeram e aqui procuram afirmar-se, mesmo quando da região não têm outra noção que não seja o nome do concelho que lhe soletraram quando do convite/imposição, para aqui virem defender as cores com que agora se apresentam ou, quer ainda, os que aqui vêm sem outro objectivo que não seja “limpar cartões” e manter-se “vivo” até que possa retornar ao concelho de origem.

Alguns, porque mais experimentados ou avisados, evitam expressar-se para além das iniciativas que os seus aparelhos montam para mostrar os rostos e esconder as ideias (ou a falta delas) mas outros há, menos experientes ou mais emotivos, que não resistem a vir a terreiro dizerem-nos o que pensam ou pretendem e aí “a coisa complica-se”.

Um desses candidatos, (uma candidata) dos tais que vêem limpar “as faltas”, ou deu um tiro no pé, ou já prestou um importante serviço aos alentejanos. Num arrebatado discurso de campanha, afiançou ser Portalegre a única cidade capital de distrito que não é servida por uma auto-estrada e, de duas uma, ou a candidata anda muito distraída ou já conseguiu uma auto-estrada para Beja.

Outro, recentemente apresentado como candidato e por ventura entusiasmado pelo brilho mediático que nunca o tocara em anteriores desempenhos, fossem os da profissão, fossem os praticados em associações solidárias, resolveu postar o que pensava (acredito que verdades) sobre um empresário que não sabia ser próximo do partido que o candidatava. Soube-o quando recebeu a informação que já não é candidato.

Entretanto, outros mais “sabidos”, atrasam o anúncio da (re) candidatura mas intensificam a sua campanha, transformam o concelho num estaleiro de obras adiadas, multiplicam-se na vitimização e refinam as piores práticas partidárias, a coberto do falso estatuto de independentes.

A cidade e o concelho assistem a um filme várias vezes visionado: o mesmo enredo, o mesmo objectivo, os mesmos actores só que por vezes trocando entre si os papéis a desempenhar e até, em alguns casos trocando de actores com concelhos vizinhos, “usufruindo” por força das imposições eleitorais as pequenas “mordomias” que lhes foram sonegadas ao longo dos últimos anos.

A limpeza das ruas de maior visibilidade, a repavimentação de algumas crateras em que se haviam transformado estradas e caminhos, as intervenções de alindamento em que a tinta ou a roçadora procuram fazer-nos esquecer o passado recente.

Estamos na fase do fingimento. A força política que detém o poder há quase duas décadas (os últimos 8, sob a capa de grupo não partidário) afadiga-se em mascarar a sua “falta de jeito” com a estafada tese de que não os deixam fazer e algumas forças ditas de oposição mas que foram durante anos, ombro amigo que o poder autárquico concelhio sempre encontrou disponível, aparecem agora empenhadas em apagar da nossa memória a forma ziguezagueante de fazer oposição, onde poucas vezes lhe foi possível manter a unidade de acção e votação entre os seus dois únicos vereadores.

O PSD de cujo ventre saiu a maioria que há duas décadas dirige a Câmara Municipal, volta a tratar Portalegre da mesma forma que alguns clubes de futebol encaram as competições menos conceituadas: voltam a Portalegre para limpar castigos. Foi assim no passado recente em que trouxeram um autarca de Sousel que “limpas as faltas” (o nº de mandatos que o impedia de se recandidatar no seu concelho), volta ao concelho de origem tentar retomar o lugar perdido. Assim vai ser de novo, outra vez.

Até o PS cujo historial na cidade e no concelho tornava perfeitamente dispensável tal comportamento não resistiu a partilhar desse “pecado”. Parece ter percebido o erro e não irá repetir, entretanto o seu autarca, limpas as faltas prepara-se para retomar ao seu concelho, embora sob a camisola do “independentismo”.

É assim a disputa eleitoral dir-nos-ão alguns. São todos iguais gritar-nos-ão outros. E no entanto, não é verdade e nada nos obriga a aceitar que seja assim.

Portalegre, cidade e concelho não pode nem deve continuar a definhar. Não pode nem deve continuar a perder população, empregos, serviços, juventude. Não pode nem deve continuar a assobiar para o lado, enquanto encerram empresas e se destrói o tecido produtivo. Não pode nem deve fingir que não vê e não sabe que se encerram museus por inépcia de quem deles devia zelar, se abandona património de cultura e de memória, se adiam sine dia investimentos fundamentais para a cidade e região, se mantenha a cidade capital do distrito arredada dos meios de transporte ferroviários e rodoviários, se assobie para o lado quando a cidade e a região são ofensivamente afastadas dos planos de distribuição de investimentos e milhões como esta a suceder com o PRR.

A electrificação da Linha do Leste em toda a sua extensão e com a alteração do traçado que permita a sua aproximação à cidade de Portalegre e a garantia de conexão para mercadorias e passageiros com a linha Sines/CAIA, a eliminação dos pontos negros do atravessamento do concelho pelo IP2 e a concretização do atravessamento de Estremoz, a par da concretização de outros importantes investimentos como a Escola da GNR, entre dezenas de outras medidas, são fundamentais para o nosso futuro colectivo e justificarão que desta vez, consigamos substituir a inércia pelo pró actividade, o preconceito pela razão e a indiferença pelo comprometimento e possamos inverter a marcha.

Podem não existir muitas mais oportunidades.

Diogo Júlio Serra

(publicado no jornal do alto alentejo de 24-6-21)


quinta-feira, 10 de junho de 2021

Viva o Santo António...

 


Viva o Santo António, Viva o S. João

Viva o 10 de Junho e a Restauração.

 

Os tempos que se aproximam trouxeram-me à memória a “Marcha do Pião das Nicas” que o saudoso Carlos Paião imortalizou.

Falava-nos de “chico-espertismo” e das disponibilidades sempre muito presentes de nos deixarmos levar por um qualquer “bem-falante” apostado em prometer o que os nossos ouvidos querem ouvir.

No nosso território, distrito e concelho, sabemos bem tratar-se da versão “tuga” do pão e circo usados pelos grandes do império romano. Sabemos também, confirmamo-lo no dia-a-dia, da existência de conterrâneos nossos que mantêm grande disponibilidade para ouvirem os cantos de sereia e, pior, confiarem nos “encantadores” de serviço o seu e nosso futuro.

Tem sido assim ao longo das últimas décadas.

As escolhas erradas, o sentimento de que “o que vem de fora é sempre melhor que o da casa”, o medo que alimenta o preconceito e esse sentimento “tão nosso” de fingir que está bem o que sabemos e sentimos estar pior que mal, colocaram-nos e mantêm-nos (distrito e concelho) no patamar de baixo do país, ele próprio nos últimos lugares dos países europeus, no que respeita a qualidade de vida, recomposição demográfica, trabalho com direitos, igualdade de oportunidades e níveis de rendimento.

Portalegre, cidade e concelho, são exemplo elucidativo desde desdenhoso deixa andar que nos tem caracterizado.

Concelho “fronteira” entre o Alentejo e as Beiras, ele próprio ostentando essa “divisão” com as freguesias a norte caracterizadas pelo minifúndio e pela agricultura familiar características Beirãs e as freguesias a sul onde imperava o latifúndio e as formas de concentração e exploração agrícolas marcadamente alentejanas. Viveu sempre dividido entre a geografia política e a “geografia religiosa e, tal “fidalgo arruinado” carregado de dívidas mas de nariz bem empinado.

A vida de Portalegre e dos portalegrenses desenvolveu-se sob um apertado controlo social exercido por meia dúzia de famílias que entendiam o isolamento como instrumento precioso para a manutenção do seu poder quase absoluto: as indústrias não eram bem-vindas porque “roubavam” braços aos campos e subserviência aos seus donos, mais tarde as novas fábricas eram empurradas para Castelo Branco, pelas razões anteriores mas também para que os salários de miséria aqui praticados não fossem abalados.

As mesmíssimas razões que já em democracia as auto-estradas nos tocaram ao de leve (a A6 em Elvas a caminho de Espanha e a A23 a norte a caminho de Castelo Branco) e agora o propalado maior investimento de sempre em transporte ferroviário tocará Elvas a caminho “das europas”, todas tratando o distrito e o concelho como barreiras e  não pontes, ao nosso desenvolvimento.

Vai ser (também) sobre isto que iremos de novo às urnas expressar a nossa vontade. Desta vez para decidir quem queremos ao leme do nosso concelho.

Todos, os que se empenharam na gestão da coisa pública fosse no governo do concelho ou na oposição. Todos os portalegrenses que aplaudiram, protestaram, propuseram e agiram nos locais próprios ou escondidos ao teclado do computador…voltam a ter a oportunidade de fazerem-se ouvir e decidirem do seu e do nosso futuro.

Não vai ser fácil a escolha? Claro que não vai ser fácil.

O que “o povo lagóia” tem que decidir é se quer ou não alterar os caminhos (logo as politicas), que nos colocaram em 2021 como capital de um distrito que é o menos desenvolvido, o menos populoso, o menos jovem …de todos os distritos do continente.

E, tomada esta decisão, como fazer para a alterar?

Insistir no “mais do mesmo“ e validar a falta de “jeito e de tino” para governar o concelho? Apostar nos que agora com megafones renovados, são os do “antigamente: os das fogueiras para purificar os hereges, da pide para os tais “safanões”, da masmorra para o que pediam pão? Chamar os que de novo insistem em tratar-nos como campeonato para “lavar cartões” e aqui apresentam quem vindo de “campeonatos de divisão inferior” quer tempo e palco para “fintar” a lei que lhe impõe limite de mandatos?

Dar, desta vez, oportunidade a quem nunca governou a nossa cidade e concelho e cujo passado e prática podem ser selo de garantia de autenticidade e competência?

São estas algumas das interrogações com que se irão confrontar os eleitores do concelho e será a cada uma destas interrogações que as candidaturas em presença deverão procurar responder.

Importa que nestas eleições possamos ter presente o poema de um portalegrense por adoção e possamos agir em conformidade: ouvindo sem preconceito, escolhendo o que pensamos ser o melhor para Portalegre e para as suas gentes e tendo sempre presente o desejo/acção de todo um povo – Fascismo nunca mais!

Assim “armados” procuremos a escolha acertada levando como ponto de partida as palavras de Régio: …Não sei para onde vou  … sei que não vou por aí!.

 

Diogo Serra

Publicado no Jornal do Alto Alentejo de 9-6-2021

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Nos 471 anos de Cidade!

 


QUE VIVA A FESTA!

Assinalámos no passado dia 23 o quadrigentésimo septuagésimo primeiro ano de elevação de Portalegre a cidade.

Em tempos de pandemia, e com o número de infectados de novo a crescer, foi-nos possível usufruir de um programa mínimo (ajustado aos tempos que correm) mas diga-se com o mínimo de dignidade que a efeméride e os portalegrenses merecem: uma componente cultural diversificada, uma componente política com a tradicional cerimónia do hastear da bandeira e a sessão solene com as também tradicionais atribuições de medalhas.

Nenhum reparo. Já no secretismo do programa ou no também tradicional afastamento dos eleitos, fora do círculo próximo da Sra. Presidente, há muitos reparos a fazer.

Na verdade, nada justifica o ensurdecedor silêncio durante as sessões de câmara a não ser a vontade de afrontar as restantes forças políticas representadas no Executivo.

Prática desde há muito cultivada e que teve recentemente duas exemplares manifestações: a não informação à vereação da vinda da Sra. Ministra da Cultura ao concelho de Portalegre e o agendamento para reunião de câmara, a decisão sobre uma pintura de um mural artístico … que estava a ser concretizada desde o dia anterior.

Também a atribuição de medalhas com que a autarquia anualmente reconhece o papel de instituições, personalidades e trabalhadores do município, não merecerá quaisquer reparos. Já a atribuição da medalha de ouro da cidade, quinze anos depois da entrega de igual honraria ao então Ministro da Administração Interna me causa alguma perplexidade. Não que o actual Presidente da República não tenha nada a ver connosco. Escolheu a nossa cidade para as comemorações do Dia de Portugal em 2019 e até já atribuímos uma medalha ao seu megafone nessas comemorações, mas não percebo (ou percebo muito bem) porquê só a ele, se outros Presidentes houve que trataram Portalegre da mesmíssima maneira que ele o fez.

Mas adiante. Fixemo-nos na necessidade de reaprender a viver, de iniciarmos percursos que permitam sarar feridas e minimizar estragos (muitos) que a pandemia nos impôs e em particular, procurarmos homenagear os resistentes e ajudar a que muitos dos mais atingidos não fiquem pelo caminho: refiro o nosso tecido empresarial e em particular as empresas familiares dos serviços, do comércio e da restauração.

Fixemos aí a nossa atenção e sejamos capazes de suprir o que o nosso executivo não fez por incúria, incapacidade ou deliberada má-fé. Mobilizemo-nos para tratar do que é nosso, comprando às nossas gentes, usando os serviços de quem aqui se instalou, animando a economia local e não calando a revolta de quem viu um executivo municipal olimpicamente mobilizado para aforrar meios que lhes permitissem “brilhar” nas batalhas eleitorais, multiplicando-se em obras e em distribuição de estatuária, fingindo não ver nem ouvir, quer os que no nosso concelho se agigantavam para não morrer, quer os seus pares que nos concelhos vizinhos arregaçavam mangas e lado a lado com os seus, participavam na minimização da catástrofe.

Falo-vos dos apoios municipais que os nossos comerciantes não tiveram, do tratamento desigual que levou apoios a uns (muito poucos) em detrimento da esmagadora maioria. Falo-vos da forma como foram tratados os trabalhadores do município e em particular os que em situação de risco nunca deixaram de cumprir o seu papel: nunca deixaram de recolher os lixos e garantir o saneamento, mantiveram o funcionamento do mercado municipal, os que estiveram presentes nas escolas e no apoio aos mais carenciados. Esses mesmos, a quem o nosso município recusou o pagamento desde Janeiro, do complemento de salubridade e risco pelo qual esperaram 13 anos.

Falo-vos ainda dos trabalhadores da Fundação Robinson e do seu núcleo museológico, obrigados a rescindirem os contratos por não pagamento do salário, do próprio museu encerrado por não ter sido pago o fornecimento de luz e que corre o risco de se ver destruído.

Mas retornemos ao 23 de Maio. Gostei!

Diogo Serra

Publicado no Jornal Alto Alentejo de 26-05-2021