quarta-feira, 2 de março de 2016

(Mais) UMA PEDRADA NO CHARCO

(Mais) UMA PEDRADA NO CHARCO*



   O Alentejo, um terço do território continental português continua a definhar e a empobrecer.
     Apesar dos avanços verificados no reconhecimento nacional e internacional das suas inúmeras potencialidades e que vão da cultura à paisagem, ao saber estar e partilhar das nossas gentes, o Alentejo continua a ser espoliado da sua maior riqueza: as suas gentes.
    Os dados conhecidos são assustadores. Em cada dia que passa o Alentejo perde 9 habitantes e os que ficam são mais velhos e detentores de menores rendimentos, numa escalada que leva os autarcas locais a assinalarem o despovoamento como o principal bloqueio ao desenvolvimento dos respectivos concelhos.
    Certamente por melhor conhecedores da nossa realidade os autarcas estão em maioria no AMALENTEJO – um espaço de discussão e trabalho apostado em “recuperar” a necessidade de dar cumprimento à Constituição da República e em particular á construção do último pilar do poder local democrático – as Regiões Administrativas.
    Personalidades e organizações de diferentes quadrantes ideológicos e sociais colocaram com aglutinador o seu amor ao Alentejo e assumiram a tarefa de pôr de pé um novo congresso dos alentejanos e alentejanas que não só recupere o espólio deixado pelos anteriores congressos mas possa no século XXI, homenagear o poder local democrático e assinalar os seus êxitos. Êxitos por todos reconhecidos e que permitiram alterar radicalmente as condições de vida das suas populações.
    Mas, o AMALENTEJO e o congresso marcado para Tróia pretendem também recordar que o poder local democrático não está cumprido, faltando-lhe a concretização do terceiro pilar – as Regiões Administrativas.
     O Congresso deverá, por isso, reafirmar a necessidade da Regionalização. Fá-lo-á com a autoridade que nos advém de termos sido uma Região (a única) onde o SIM à Regionalização saiu vencedor mas também porque aqui e em todo o país, o Poder Regional existe e tem vindo a ser desenvolvido.
     No Alentejo o Poder Regional já existe através da CCDRA – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo e nas diferentes estruturas descentralizadas. Só não é um Poder Regional Democrático, nem Plural, nem Representativo uma vez que os seus dirigentes são nomeados pelos governos que lhes exigem total obediência.
  Ao contrário do que os adversários da Regionalização procuram fazer crer a implementação do Poder Regional Democrático não trará “o despesismo”. A substituição do Poder Regional concentrado nas direções da CCDRs e noutras estruturas descentralizadas do poder central por um Poder Regional Democrático, Plural e Representativo não acarretará quaisquer custos adicionais, pois já existe.
  O Congresso de Tróia convocado para o próximo dia 2 de Abril, dia em que comemoramos o 40º aniversário da Constituição de Abril, não poderá deixar a ideia, errada, de que a Regionalização será só por si a solução para os muitos problemas que nos afectam. 
   Todos sabemos que não basta a criação das regiões administrativas para que os inúmeros problemas do Alentejo e de todo o interior sejam resolvidos. Mas a substituição dos dirigentes nomeados pelos governos por dirigentes eleitos, será um contributo fundamental para que consigamos impor ao Poder Central uma Política Nacional de Desenvolvimento Regional sem a qual, muito dificilmente poderemos contrariar as actuais tendências para o aumento das assimetrias entre o interior e o litoral.
Diogo Serra
* publicado no Jornal Fonte Nova de 1/3/2016

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Alentejo tem sede de “gente”!

O Alentejo tem sede de “gente”!



O Alentejo, como a generalidade do interior português, é um território onde se acentuam o despovoamento e o envelhecimento dos que persistem em ficar.
De 1960 a 2011 a situação não parou de agravar-se, como confirmam os censos realizados.
No ano de 1960 residiam nos 47 concelhos alentejanos, 770.965 pessoas enquanto em 2011, último censo realizado, esse número era de apenas 509.149. Ou seja, em apenas cinco décadas o Alentejo perdeu 33,56% da sua população.
A perda de população tem vindo a intensificar-se em todo o território. Os censos de 2011 mostram que em toda a região apenas cinco concelhos registaram, entre 2001 e 2011, ligeiros aumentos populacionais: Sines (5,03%); Campo Maior (4,8%); Viana do Alentejo (2,33%); Vendas Novas 1,88%) e Évora (0,98%).[1]
Acresce que a perda contínua da população atinge fundamentalmente os alentejanos em idade ativa o que contribui para o acelerado envelhecimento da população residente. Tanto mais, que no mesmo período em que baixava a população total, baixava igualmente a população ativa e crescia exponencialmente a população residente com mais de sessenta e cinco anos.
A questão demográfica é hoje um dos principais problemas que se coloca ao Alentejo que já não tem capacidade de se auto regenerar, seja no contexto natural, seja pela incapacidade de atração de novos residentes pelo que importa encontrar caminhos capazes de parar e inverter o trajeto que nos tem impelido para esta situação.
Refletir sobre as razões e as políticas que são a origem do problema vem sendo feito desde há muito. Aliás, no Alentejo o que não faltam são bons diagnósticos. Onde sistematicamente se tem falhado é na definição de estratégias fruto, sobretudo, do medo que o Alentejo desenvolvido e com gente sempre provocaram nos detentores do poder.
O que nos tem condenado a uma situação de marginalizados é a postura latifundista que nunca deixou os governantes e as chamadas elites regionais. Só esse sentimento alicerçado nas políticas impostas pode justificar as dificuldades em mantermos e atrairmos jovens e menos jovens quando dispomos na região de tudo o que de melhor existe no país no que respeita a qualidade ambiental, riqueza cultural e patrimonial, segurança, infraestruturas de ensino e de lazer.
O Alentejo tem sede de gente mas tem todas as condições para a atrair e fixar. Para tanto basta adicionar às excecionais condições naturais e culturais um projeto de desenvolvimento que garanta emprego de qualidade aos que aqui vivem e aos muitos que gostariam de aqui viverem.
Potenciar as condições existentes e transformar o território garantido o bem-estar das suas gentes tem sido e continuará a ser o combate de quantos, pessoas e organizações, desde há muito reclamam para o Alentejo um tratamento em pé de igualdade com o que recebem outras regiões do país.
O Alentejo não precisa de “favores”. Precisa e exige ser tratado com justiça!
Não reclama tratamento de favor quando exige o direito a ter vias rodoferroviárias que quebrem o isolamento a que foi votado. Vias que permitam a entrada no território e potenciem as excecionais condições para o turismo mas que permitam também, o contacto célere dentro da região e desta para o exterior.
Vias rodoferroviárias que potenciem a privilegiada situação geográfica da região entre as áreas metropolitanas de Lisboa e Madrid e corredor privilegiado para o comércio entre o arco atlântico e a Europa (corredor Sines/Badajoz).
Não reclama tratamento de favor, mas justiça, quando exige aumento do investimento público em infraestruturas, nomeadamente na ferrovia (passageiros e mercadorias) e nos portos. Não só por ser necessário inverter o desequilíbrio existente a favor da rodovia, patente quer no movimento de passageiros quer no de mercadorias, e do transporte individual quer pela necessidade de reverter as politicas erradas que levaram a que vastas áreas do território tenham no que ao transporte de passageiros diz respeito, regredido ao ano de 1862. [2]
O Alentejo pode e quer contribuir para o seu desenvolvimento e para o desenvolvimento do país.
O território tem condições de contribuir para o aumento das exportações e a diminuição das importações em particular no sector alimentar, onde o país não é autossuficiente. A nossa dependência alimentar é mais elevada nas leguminosas secas onde a produção só chega para satisfazer 8,5% das necessidades do país, mas é igualmente muito significativa nos cereais e arroz (produzimos apenas 28,7% do que consumimos), nas raízes e tubérculos (56,7%), nas carnes e miudezas (71,8%) e nos frutos (76,3%).
A produção agroalimentar é um dos eixos de desenvolvimento em que a região tem condições e competências para ajudar a satisfazer as necessidades nacionais (dispensando as importações) e ainda exportar como já acontece com os vinhos de enorme qualidade que aqui produzimos e garantindo a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e das populações.
O Turismo é outro dos eixos fundamentais para o desenvolvimento que queremos. Temos todas as condições para o atingir: mar, sol, montanha, planície, cultura, património natural e construído, formação de excelência e reconhecimento internacional precisamos tão só de políticas que apostem em infraestruturas, em particular aeroportuárias e ferroviárias, que quebrem o isolamento a que temos sido votados e permitam a entrada e saída rápida e segura para os alentejanos e para os visitantes.
Porque certos de que é possível inverter a situação que nos foi imposta os trabalhadores alentejanos e as suas organizações de classe tem vindo a lutar por um conjunto de mudanças que entendem necessárias e em particular:
Uma política económica alternativa para o país, com base no desenvolvimento do tecido produtivo, na dinamização do mercado interno, através do aumento dos salários e das pensões, no crescimento das exportações e na substituição de importações, condição indispensável a podermos diminuir a nossa dependência face aos défices externos (alimentar, tecnológico, energético).
A adoção para o Alentejo de um Plano Imediato de Intervenção Económica e Social capaz de desenvolver e modernizar o sector produtivo, que inclua a agricultura, a pesca e a reindustrialização bem como os sectores de ponta como as energias renováveis, a aeronáutica e as chamadas atividades verdes e garanta mais e melhor emprego na região e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e das populações.
Pela primeira vez em muitos anos, fruto das alterações politicas verificadas com a criação de maiorias aritméticas e politicas que apostam num novo paradigma de desenvolvimento para o país, o Alentejo pode retomar o sonho!


publicado na REVISTA alentejo nº 39


[1] INE, censos 2011, resultados definitivos
[2] Ano em que o transporte ferroviário (Linha do Leste) chegou a Abrantes.  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Passo a passo sem o Passos!









Fruto das mudanças politicas impostas pelo voto dos portugueses e das portuguesas o Alentejo e os Alentejanos puderam retomar os sonhos.

Numa Região onde se adicionam as capacidades de atracção para quantos e quantas queiram usufruir das vivências de inigualável beleza e bem estar que a deslumbrantes paisagens natural e construída, a gastronomia de excelência e o seu património imaterial e a simpatia das suas gentes proporcionam, a mingua de infraestruturas essenciais é mais que desleixo, é crime.

Mas é esta a situação que as políticas de direita impostas por diferentes governos e partidos nos legaram.

No Norte Alentejano a situação é ainda mais visível. Aqui onde se podem absorver as belezas naturais que o o Parque Natural da Serra de S. Mamede ou as Portas do Ródão nos emprestam. Onde nos perdemos extasiados pelos campos de montado, nas praias fluviais  e nas inúmeras actividades que as nossas albufeiras permitem. Aqui em que ao imenso património construído juntamos uma cultura milenar e extremamente rica. Aqui, zona da Raya e de atravessamento natural para quem se desloca entre Lisboa e Madrid, vivemos acantonados, fora das rotas naturais de quantos se deslocam de e para a Europa, porque condenados  a não podermos garantir a quem nos visita e a quem cá vive acessibilidades confortáveis e seguras.

Fomos coleccionando records negativos.  Única capital de distrito que não é servida por auto-estrada e única região do país sem transporte ferroviário de passageiros; campeã no desemprego e nos baixos rendimentos, etc... etc...

Hoje, cortado o ciclo de empobrecimento da região e de roubo dos rendimentos da maioria dos seus habitantes, apesar de nada termos ainda concretizado do que respeita às nossas muitas e legítimas aspirações, ainda assim respiramos melhor.

À direita mais retrógrada que alguma vez em democracia, tivemos no poder, sucedeu um governo suportado numa maioria que tem em comum a sua vontade de inverter os caminhos que as politicas de direita impuseram ao distrito e ao país e pôr fim aos crimes que nos últimos quatro anos foram concretizados.

Ainda não temos resultados mas os caminhos começam a inverter-se.

No próximo dia 14 de Dezembro, por agendamento do PEV, a Assembleia da Republica é chamada a discutir a necessidade de recolocar nos carris do distrito, o transporte de passageiros. 

É um pequeno passo? Pois, mas o caminho faz-se caminhando.


dj


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

É a Hora!



É a hora! 
   

    Terminado o período em que Portalegre "fecha para férias" era expectável que a cidade mostrasse algum dinamismo.
   Porque os poucos que fazem férias fora de casa já retornaram, porque se iniciaram as matrículas nas diferentes escolas do IPP - Instituto Politécnico de Portalegre e este ano há mais de duas centenas e meia de caloiros admitidos, porque também as escolas do ensino não superior começam a preparar o novo ano lectivo, porque se iniciou uma nova campanha eleitoral, muitos acreditávamos nessa possibilidade.
   Não é assim. A cidade, e o concelho, continuam a arrastar-se sem motivação e sem esperança.
   Claro que vamos assinalar a Feira das Cebolas, que diferentes atores locais procuram pôr em movimento esta massa amorfa e indiferente em que se transformou a nossa gente mas a verdade é que tudo isso não chega para levar a cidade, e o concelho, a alterarem a postura comatosa a que se remeteu já há muito.
   Neste Setembro em que os elvense assinalarão mais um ano do "seu" S. Mateus e Arronches prepara um evento que lhes permita assinalar as cortes realizadas naquela vila. Quando Marvão assinala com dignidade mais um dia do concelho e a Fundação Robinson voltará a marcar o nascimento de George Robinson, o município de Portalegre repõe a Feira das Cebolas e apresenta um programa de animação interessante. No concelho, como no distrito há movimentações mas, nada é suficiente para retirar as gentes lagóias da hibernação a que há muito se remeteu.
   Os mais cépticos dirão que as festarolas são apenas  fogachos para fazerem esquecer a situação (péssima) a que chegamos. Não deixam de ter alguma razão. Tanto mais que é sabido o risco de o município ter que recorrer às "pequenas tróicas" que a troco "de uns trocos" não deixarão de impôr novas obrigações aos portalegrenses. 
   Mas então não há caminhos diferentes dos que temos vindo a percorrer?
   Numa cidade e num concelho que, dizemos/dizem, não tem governo local e está há muito abandonado pelo poder central. Que não tem atividade econômica digna desse nome, que tem vindo a ser encerrado fábrica a fábrica, rua a rua, loja a loja, onde a maioria dos residentes/resistentes somo velhos só existe o caminho da rendição?
   Não pode ser! Se não existem poderes com capacidade e vontade, apostemos nos contra-poderes. Expulsemos a indiferença e o "deixa-andar" abandonemos a ação politica de café ou nas redes sociais e empenhemo-nos em ação construtiva e eficaz: façamos nós o que tem que ser feito e não desistamos da nossa cidade, do nosso território, das nossas vidas.
   É agora o tempo certo. Está na hora!

Portalegre,10-09-15
D.J.




quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Triste fado...




Ontem rei, hoje sem trono
cá ando outra vez na rua
entreguei o fato ao dono
e a miséria continua!
(António Aleixo)

Esta quadra de Aleixo ilustra na perfeição o nosso distrito neste início de Setembro.

Terminadas as festas em Campo Maior e no Crato, encerrada a "escolinha dos jotas" em Castelo de Vide, as diferentes figuras e em particular os figurões voltaram à "cidade grande" e procuram criar "factos novos" enquanto a comunicação social nacional, que só nos descobre quando os figurões por cá poisam, apontam os holofotes para os locais onde, dizem, a notícia acontece, mesmo que a "notícia" seja apenas o eco do que os poderosos gritaram.

Por cá  ficamos os de sempre: os norte alentejanos. Mais envelhecidos e fragilizados, mais pessimistas e cada vez menos disponíveis para acreditar que temos futuro. 

Os que há décadas nos enganam ou, no mínimo, exercem o papel de capatazes dos mandantes e na esperança de conseguirem algumas migalhas, procuram manter-nos dóceis seja pelo medo, pela cobiça ou pela descrença afadigam-se já na construção de discursos eloquentes, rebuscam a mil e uma promessas eleitorais nunca cumpridas, procuram junto dos generais partidários "a graça" de nova visita do(s) chefe(s).

Em tempo de campanha eleitoral (por isso tanto figurão nas festas do distrito)  os partidos do "arco da (des) governação apostam todas as fichas na procura de diferenças (inexistentes) nas propostas eleitorais, na leitura da situação do distrito, nas responsabilidades pela situação a que chegamos. 

Os partidos à esquerda procurarão fazer chegar as suas propostas a uma população cada vez mais descrente e eles próprios sabendo que num distrito que só elege dois deputados romper a teia do conformismo e o poder que o Jobs dão aos partidos que há quarenta anos repartem entre si as benesses do poder.

Tarefa hercúlea que tem que ser, de novo, desenvolvida.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Em jeito de conversa!


Castelo de Vide volta a ter  a “sua” universidade!

Iniciou-se na passada segunda-feira e durará até domingo a iniciativa que o PSD apelidou de Universidade de Verão e através da qual algumas dezenas de meninos e meninas filiadas naquele partido ou nas suas secções juvenis, tomam contacto com a nossa região e em particular com os bares de Castelo de Vide.

É uma semana dura, não tanto pelo trabalho ou pelo estudo mas porque as noites são longas e não fica bem dormitar quando uma qualquer tia ou um outro tio vem falar aos "universitários", particularmente se o tio/a ou tia for membro do governo. É que, o mais inocente cabecear pode pôr em causa o “tal emprego catita” muito bem remunerado e óptimo trampolim para voos mais arriscados.

Resultados práticos, existem sempre. Seja para a economia local que não fica indiferente à permanência de umas dezenas de jovens e aos “senhores professores” que por cá passam, seja para o partido organizador que sempre garante mais uns largos minutos de tempo de antena.

No distrito nada fica, nem sequer a certeza de que os ministros que durante esta semana por cá passam ficam a conhecer a trágica situação de quem cá vive.

Numa semana em que o distrito se afirma através da cultura do seu povo e da organização de eventos culturais capazes de atrair  muitos milhares (Festa do Povo – Campo Maior e Festival do Crato), este ajuntamento dos betinhos do PPD só não passa despercebida porque os grandes meios de comunicação social sabem bem que é preciso dar importância mesmo ao que a não tem!

Estamos conversados!

d.s.

sábado, 22 de agosto de 2015

 
Festa dos Artistas/festa de "artistas"

     Há hora em que escrevo, Campo Maior fervilha, estou certo, com a alegria dos homens e mulheres que mostram finalmente o resultado de milhares de horas de trabalho.
     A alegria da noite de enramar as ruas só é "travada" pelas dificuldades funcionais que a presença dos "mirones" acaba por impor. 
     A visão do que estará a ser essa noite faz-me retornar aos tempos em que, ainda criança, visitei pela primeira vez a Festa dos Artistas. Com os meus pais, junto a alguns outros arronchenses, envergando os fatos guardados para as grandes ocasiões, lá tomámos assento na "caminete da carrera" e rumámos a Campo Maior.
     Recordo o deslumbramento em que me colocaram quer a multidão onde me integrei, quer a beleza que emoldurava a vila que eu já conhecia mas despida de papel.
     Era um tempo em que a festa se realizava de sete em sete anos. Um interregno enorme mas que se justificava quer pelo custo das festas, em gente e em materiais, quer pela necessidade de não a banalizar.
     Por razões perfeitamente compreensíveis: a entrada em cena dos meios de comunicação que a proximaram do mundo, uma maior facilidade de angariar os meios económicos necessários, a afirmação do poder local democrático e a manutenção da vontade dos e das campomaiorenses entre outros, levaram à diminuição desse tempo de espera entre uma e outra edicção.
     Recordo algumas das sessões em que o mau tempo conseguiu num único dia destruir toda a ornamentação feita e a vontade inquebrantável daquele povo que teimava em repor nas ruas a beleza saída das suas mãos.
     Era esta a Festa dos Artistas. A festa feita pelo querer da população organizada rua a rua, a força da tradição e cultura de um povo de antes quebrar que torcer.
     Nos últimos anos a FESTA mantendo os mesmos níveis estéticos e artísticos, e o envolvimento das populações acabou por "mudar".
     A periodicidade que passou a estar ligada aos ciclos eleitorais e aos interesses partidários de quem pode decidir da sua realização, a "profissionalização" da sua gestão e promoção, começam a enredá-la em teias de interesses que extravasam a tradição e a cultura de um povo e, na minha modesta opinião, deixaram de ser a Festas dos Artistas para passarem a ser festas de "artistas".
     E no entanto, continuam lindas!

ds