“A Europa
contra os EUA e contra a paz! Quem diria?!”
Também eu, que sempre assumi
publicamente que importa fazer guerra à guerra, e contesto quer as posições
incendiárias dos dirigentes da União Europeia, quer o seguidismo quase doentio
das autoridades portuguesas, fico surpreendido com a sua incapacidade de
acompanharem o pragmatismo de quem até há poucos dias seguiam sem pestanejar.
Essa incapacidade é notória
quando persistem no estado de negação da realidade face às mudanças ocorridas
nos EUA e à sua própria importância no jogo dos poderosos.
Em Portugal essa situação chega
a ser confrangedora. Desde as principais figuras do estado aos partidos
políticos da direita (os que o assumem e os outros) à comunicação social dita
de referência… passaram da maior das subserviências aos interesses e ordens do
Tio Sam para uma arrogância parola de encher o peito e debitar slogans contra o “patrão” de ontem e de
incentivos à guerra até ao último dos ucranianos ou dos filhos e netos dos
outros.
O desvario é tal, também por
cá, que é normal termos opinadores a defenderem a guerra a todo o custo, com ou
sem o chapéu onde sempre se abrigaram todos os europeus ditos democratas e para
onde sempre, sem pestanejar, canalizaram o produto do trabalho das suas
populações.
O próprio Presidente da
República, há muito desaparecido de cena, não se coibiu de tratar publicamente
o até há pouco “rei sol” como antigo aliado.
E a questão é, como sempre foi,
mais do que travar a luta fratricida entre Rússia e EUA pela conquista dos
comandos da ordem mundial imposta pelos vencedores da segunda grande guerra e
que foi substancialmente alterada pelos vencedores da chamada guerra fria,
refrear os sonhos de grandeza das extremas-direitas no poder em ambos os Estados:
O partido republicano de Trump nos EUA e o Partido da Nova Rússia de Putin, na
Federação Russa.
Mais, garantir como gostam de
dizer, uma paz justa e duradoura o que se consegue não ameaçando a
sobrevivência de um dos lados, cercando-os de base militares, plantando-lhe
inimigos à porta.
O resto, os discursos da
afirmação dos princípios ou a “defesa das liberdades e das democracias pouco
mais são que propaganda para os papalvos. Ou alguém acredita que a Ucrânia
corrupta e totalitária que ninguém queria sequer a bater à porta da U.E. passou
a ser “séria” só porque lhe passaram a enviar carregamentos de dólares, e os
seus dirigentes permitem a matança dos seus jovens para fazerem uma guerra que
não é sua? Ou passou a ser uma democracia só porque ilegalizou partidos
políticos e prendeu os seus dirigentes?
Alguém pode acreditar que a
guerra é pela defesa de valores e da democracia quando quem se opõe ao
“totalitarismo” de Putin é a França de um Macron que perdeu as eleições e
recusou passar o poder aos vencedores? É a União Europeia que impôs a anulação
das eleições da Roménia porque o seu candidato foi derrotado? Que alimentou e
financiou o golpe de estado que depôs o Presidente Eleito da Ucrânia e que
tornou constitucional a classificação de ucranianos em “puros e impuros”?
A situação com que nos
deparamos na Europa e no Mundo é grave. Os tambores da guerra fazem-se ouvir,
também no nosso país e temo que os nossos governantes não consigam já
afastar-se do discurso inflamado tipo clubismo que nos tem proporcionado nos
últimos dias e continuem a arrastar-nos para a guerra. Uma guerra que já nos
custa qualidade de vida e desafogo económico e que se não for travada pode
também custar-nos filhos e netos.
A situação é muito muito
perigosa mas, apesar disso, permitam-me o desabafo: dá um certo gozo ver os
“direitolas” do meu país de dedo esticado contra os EUA!
Diogo Júlio Serra