quinta-feira, 8 de junho de 2023

A Situação de Seca no Alentejo

 


A Situação de Seca no Alentejo

Mais que propaganda importam soluções!

 Nos últimos anos tem sido recorrente a existência de períodos de seca, com maior ou menor incidência em situações de escassez hídrica dependendo dos recursos hídricos existentes. Uma situação cuja gravidade é reconhecida por todos os quadrantes políticos mas que tem merecido importância diferente dos diferentes atores políticos com intervenção no Alentejo.

O Governo parece acordar periodicamente para este problema repetindo diversas promessas que nunca cumpre, colocando a ênfase na questão do valor da água, apelando ao aumento do seu preço a nível do consumo doméstico, mas sem colocar o mesmo tipo de argumentação a nível da utilização da água para a agricultura que representa cerca de 90% do uso total da água e onde o preço praticado é muito inferior ao preço de custo. À boleia deste problema o governo insiste em criar o caldo de argumentação para retirar a competência municipal na gestão das águas e do saneamento, começando por impor a sua agregação, avançando no caminho que visa desaguar no aprofundamento da lógica do negócio da água e da sua privatização, a exemplo do que já iniciou na área dos resíduos.

Esta não é, como a vida nos mostra, a solução para tão grave problema. Este tem de ser enfrentado em todas as suas múltiplas dimensões desde a definição da política da gestão global dos recursos hídricos, iniciando-se na questão das massas de água, da sua disponibilização, da definição sobre quais devem ser os seus usos prioritários, e pressupondo também uma adequada política de gestão de solos e de ordenamento do território, que minimize os efeitos da progressiva desertificação que se tem verificado.

A gestão pública deve afirmar-se como o princípio de assegurar uma clara perspectiva de eficiência hídrica inseparável da aplicação do conceito de rede de infra-estruturas hidráulicas, aumentando-se assim a capacidade de armazenamento para fazer face a períodos de seca e de eventual escassez.

É fundamental a aprovação e o financiamento da execução do Plano de Eficiência Hídrica do Alentejo e ter em consideração a Iniciativa Territorial sobre a água que envolve o Alentejo e o Algarve cujos contornos se desconhecem e que pode representar riscos para a gestão da água na região e também para o destino dos recursos financeiros.

Esta questão da água é inseparável da questão agrícola e uso da terra, e também dos perímetros de rega que foram alvo de decisões recentes relativamente ao Alqueva e é tão mais importante para o nosso distrito agora que se perspectiva (finalmente) a construção do Pisão.

Um dos grandes problemas é que parte muito significativa do consumo de água, nomeadamente a água armazenada no Alqueva, é direccionada para as culturas super-intensivas, designadamente olival e amendoal. O mesmo se passa nas albufeiras do litoral alentejano e os frutos vermelhos. Tendo em conta as quantidades e o preço podemos dizer que a gestão dos recursos hídricos está na prática a financiar grupos económicos que usam o solo e a água do Alentejo como um activo financeiro.

É uma situação que não nos é desconhecida tal qual a intensificação das culturas intensivas e a inundação de pesticidas nos concelhos de Campo Maior, Elvas e Avis.

As visitas do Deputado João Dias ao distrito e a intervenção política que originaram na Assembleia da Republica e no Parlamento Europeu ajudaram a dar visibilidade à grave situação que se vive na região mas é necessário ir mais longe. É fundamental o envolvimento dos actores locais, reclamando medidas compensatórias para os pequenos e médios agricultores atingidos pelos efeitos da seca e da escassez hídrica e exigindo das autarquias uma postura de intervenção que dê centralidade à gestão da água, tomando as melhores opções para garantir a eficiência hídrica, a gestão pública e a exigência da disponibilização de fundos para os investimentos a realizar.

Construamos o Futuro!

Diogo Júlio Serra

MAIO, MADURO MAIO

 



Maio maduro Maio

Sim, Maio é um mês que sempre me encantou. Ainda criança por ser o “mês de Maria” com toda a agitação que impunha na criançada das famílias mais familiarizadas com os ritos da religiosidade cristã e sobretudo por ser o mês da mais importante e divertida feira da vila onde nasci e cresci: a Feira de Maio de Arronches.

Estrear roupa nova, poder ir ao circo (na noite em que as empresas Cardinali ou Mariani decidiam fazer “dama e cavalheiro” – cobrarem um bilhete com entrada para duas pessoas, banquetear-me com o “brinhol” (massa frita) da menina Judite ou os quadrados de torrão branco vendidos na barraca do Araújo eram então motivo mais que suficiente para eleger Maio como o melhor dos doze meses.

Perdida a inocência do menino de escola, “matriculado” na oficina da família, primeiro, e mais tarde como empregado de mesa ou escriturário numa editorial, mantinha-se a catalogação de Maio ou não fosse ele o único a iniciar-se com o dia dedicado aos trabalhadores de todo o mundo. Incluindo o mundo, onde Portugal então se integrava, em que Maio só por impossibilidade mantinha o seu dia primeiro.

E chegou o tal dia “inicial inteiro e limpo” e com ele a explosão de Maio. E, juntou-se-lhe o 23, dia de festa da cidade para onde “me transferi”. E continuei a ter em Maio o melhor e mais simpáticos dos meses.

Certo que este Maio tinha um tal nº 28 de má memória mas esse, era olimpicamente esquecido.

E assim chegamos ao ano de 2023 da era cristã. Estamos a terminar a sua vigência e de novo, Maio continua como o Mês primeiro das minhas preferências e vivências.

               Vejamos.

Como sucede em Portalegre, a cada ano desde a decisão tomada pelo Congresso da Internacional Socialista reunido em Paria no ano de 1889, com o interregno imposto pelo salazarismo, voltamos a comemorar o dia Internacional do Trabalhador. Depois a 3, no Páteo da Casa, apresentei o Livro Salgueiro Maia do escritor Moisés Rosado e três dias depois no CAEP, Jerónimo de Sousa colocava-nos a importância de defender a Constituição de Abril.


Na semana em que voltámos a viver as Festas da cidade a 23, na Sessão Solene que assinalava os 473 anos da elevação de Portalegre a cidade, o seu executivo entregou a medalha de ouro da cidade a uma instituição da cidade cujo merecimento é por todos reconhecido: o Grupo  de Apoio de Portalegre da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

A 26 a Companhia de Instrução de Praças da GNR assinalou os 50 cursos de guarda ministrados em Portalegre e no dia seguinte o “meu Benfica” conquistava o seu 38º título de Campeão de Portugal. E pasme-se, até o 28 em que, normalmente procuro nem reparar, este ano marcou muito positivamente a minha vida. Não, claro que não tem nada a ver com o golpe que derrubou a Primeira Republica e abriu caminho ao fascismo salazarista. A razão é bem diferente; O meu neto mais novo, “arrastou-me” ao campus do Benfica no Seixal onde ele mais umas dezenas de miúdos foram mostrar os seus dotes de guarda-redes.

No momento em que escrevo o presento texto (na noite de 28) poderia garantir-vos que foi um mês excelente mas já sei que não vai ficar por aqui.

Maio vai fechar com o brilhantismo como se iniciou e a 31, em Beja, verá iniciar-se o Congresso do Turismo do Alentejo.

E sim, de novo, Maio Maduro Maio, de novo a encantar-me!

 

Diogo Serra

quarta-feira, 17 de maio de 2023

ALIMENTAR A ESPERANÇA, FAZER GUERRA À GUERRA!

 





Alimentar a Esperança

Fazer Guerra à Guerra

O belo lema que o Banco Alimentar contra a Fome escolheu para a campanha que tem em curso, ilustra na perfeição uma das maiores necessidades com que nos debatemos, também na nossa cidade e região.

Faltar-lhe-á, talvez, incorporar a segunda frase que coloquei no presente título para tornar mais perceptíveis as razões que nos têm vindo a roubar a esperança e levado muitos à desistência… dos sonhos e dos valores que nos devem nortear mas, diz o nosso povo, “para bom entendedor meia palavra basta”.

As diferenças existirão (ainda bem que existem) na perspectiva de cada um face aos caminhos para alimentarmos a esperança, num tempo e num território em que para a maioria de nós, cada vez mais, sobra mês e faltam rendimentos para garantirmos uma vida minimamente confortável.

Para alguns, geralmente os que não são afectados pelo “crescer do mês e diminuição do rendimento” ou sendo-o não conseguem libertar-se da cegueira imposta pelo preconceito ou das amarras com que a comunicação dita de referência os vão enredando, a culpa é da guerra, do “socialismo” (encarado como o governo do partido socialista) ou para os mais “contaminados” do 25 de Abril. Como se a Guerra nascesse de forma espontânea, o partido do governo aplicasse políticas de esquerda ou os caminhos de Abril não tivessem sido bloqueados pelos que saíram da gaveta, porventura a mesma onde Mário Soares colocou o “socialismo”.

Para os que conseguem resistir à formatação do pensamento e da acção que os papagaios do capital persistem em impor-nos, a “desesperança” que se está a apoderar da nossa sociedade tem razões e responsáveis que urge combatermos. Só assim estaremos a Alimentar a Esperança, a garantirmos-lhe a sobrevivência.

E a hora é de agir!

Até porque são cada vez mais (no Alto Alentejo e na nossa cidade, também) os que não conseguem pôr comida na mesa, os que não conseguem pagar a casa, seja a renda ou a prestação. Os que apesar de trabalharem (particularmente os jovens a quem se aplica a mais feroz precariedade) não conseguem o empréstimo bancário para a compra de casa ou tão só a garantia que o senhorio exige para proceder ao arrendamento. Os que apesar de trabalharem todos os dias do mês, são abrangidos pelo RSI porque o salário que auferem não lhes permite garantir o sustento da família.

Se a culpa é da guerra que as potências capitalistas impuseram, de novo em solo europeu, combata-se a guerra em vez de alimentá-la.

Se a culpa é da falta de meios para gizar e aplicar politicas que combatam as dificuldades que atormentam as famílias e criam a desesperança, que se distribua a riqueza produzida, que se combata a concentração das benesses e da riqueza não mãos de muito poucos e se apliquem no reforço do Serviço Nacional de Saúde, na Educação, nas acessibilidades, na melhoria dos salários e das pensões.

Que se trave e inverta a vergonhosa política de nacionalizar falências e privatizar lucros e, já agora, que se trave a vergonhosa decisão de reprivatizar a TAP onde foram injectados milhões saídos diretamente dos impostos dos portugueses e dos salários dos seus trabalhadores.

E não, a culpa não é do Socialismo porque uma palavra não tem qualquer culpa ou mérito pelas políticas aplicadas em cada território. Ninguém é lindo só porque se chama Belo!

Muito menos a desesperança pode ser atribuída ao 25 de Abril como os mais saudosistas proclamam. É precisamente o contrário! É o incumprimento dos valores que o 25 de Abril nos trouxe e a Constituição, mesmo amputada, consagra, que nos tem conduzido à situação que hoje vivemos.

Importa por isso exigir de quem tem a responsabilidade (porque o jurou) de cumprir e fazer cumprir a Constituição, que cumpra o seu dever. Importa, também, exigir de quem solicitou e obteve uma maioria absoluta para governar, que governe!

A hora é de exigência e acção!

Não podemos permitir que as guerras de Alecrim e Manjerona se substituam à obrigação de garantir ao país e aos portugueses as condições e os direitos que merecemos e de que não podemos/queremos abdicar.

É tempo de exigir dos governantes -Presidente da Republica, Governo, Assembleia da Republica- que deixem de “olhar para o seu umbigo” e cumpram as obrigações que os cargos lhes impõem.

É tempo de exigir da Comunicação Social que se liberte das amarras de quem lhes paga, deixe de ser megafone dos poderes e cumpra o seu papel imprescindível de dar voz aos desejos e necessidades do povo e do país.

É tempo de exigir alto e bom som que em vez de se amputar, se cumpra a Constituição da Republica Portuguesa, se CUMPRA ABRIL!

 

Diogo Júlio Serra

quinta-feira, 27 de abril de 2023

EM ABRIL, FALAR DE ABRIL!

Em Abril, Falar de Abril!

 



Quarenta e nove anos depois, o país ainda encontra razões para Comemorar Abril. E tem razão!

Apesar dos inúmeros golpes que o mutilaram, dos atropelos e dos desrespeitos continuados, Abril e os sonhos que nos permitiu, continua vivo no coração e no dia-a-dia das pessoas.

Também por isso a razão de se multiplicarem festejos e comemorações. Tantos a afadigarem-se para garantirem a pose na foto do dia e muitos outros, os que nunca lhe perdoaram, a intensificarem as manifestações de ódio, mesmo que escondidas por detrás de mil diferentes justificações.

De registar ainda haverem entre os que o comemoram, quem não se cansa de concentrar elogios nos que designam (agora) como heróis quando, tantas vezes, ofenderam e maltrataram esses mesmos que agora dizem venerar.

Entre as sinceras manifestações de apreço e a histeria de colagem a um dia que passadas 24 horas irão esquecer, registe-se a voz de um dos mais prestimosos membros do MFA a colocar a verdade que alguns teimam em esquecer:

“Movimento Coletivo…é a essência do MFA. Nada mais. Há militares com coragem e força de aço…Todos cumpriram…menos um tal JN…E o grande herói é o Povo Português”.

Tão verdade! Antes, durante e depois de Abril.

Antes quando com a sua resistência e luta manteve acesa a chama da liberdade e quantos dos seus filhos pagaram com a vida a manutenção dessa chama.

Durante o próprio dia quando souberam desobedecer aos comunicados do próprio Movimento que aconselhavam a ficar em casa e inundaram praças e avenidas colando-se aos militares, apoiando-os e desafiando-os a passarem da golpe militar à Revolução.

Depois, dia a dia, ano a ano, até hoje. Conquistando direitos, resistindo a cada golpe, defendendo Abril e a Constituição que o consagra, semeando e consolidando a democracia conquistada.

Que não tem sido tarefa fácil todos o reconhecemos.

Hoje, quarenta e nove anos depois, com as suas principais conquistas vertidas na Constituição da Republica e apesar do empenho popular e das necessidades do país, muitos dos direitos conquistados continuam sem serem efetivados e alguns foram mesmo “arrumados em gavetas” ou eliminados.

Ao arrepio da Lei Fundamental e dos valores de Abril, as politicas de direita recolocaram as regras do capitalismo, ou “do mercado” como gostam de dizer e foram mutilando os direitos até os “saudosistas” se sentirem, como agora, com o à vontade necessário para saírem da “clandestinidade” onde se moviam e virem abertamente exigir a destruição dos direitos e conquistas e a própria democracia conquistada com Abril.

Se dúvidas ainda houvessem bastar-nos-ia recordar os ataques movidos às próprias Comemorações de Abril na casa da Democracia.

Num ano a desculpa foi a pandemia, no seguinte foi a designação do Presidente da Comissão Organizadora do Cinquentenário, agora o convite a um Chefe de Estado. Tudo lhes justifica o combate porque o motivo é tão só o 25 de Abril e o que ele trouxe a Portugal e aos Portugueses.

Os valores que cabendo numa única frase preenchem a vida e os sonhos de todo um povo: O Pão, a Paz, Educação, Saúde, Habitação, a Liberdade de Mudar e Decidir e o sonho de que um dia seja dado ao povo o que o povo produzir!

Não lho permitamos. Comecemos hoje as celebrações do cinquentenário da forma como o vivemos no seu dia primeiro, com mil sonhos… e a capacidade de lutar por eles.

VIVA O 25 DE ABRIL!

 

Diogo Júlio Serra

quarta-feira, 12 de abril de 2023

SEMEAR ABRIL

 




SEMEAR ABRIL

Mais que o bonito título que o Grupo de Cantares de Portalegre escolheu para o espectáculo com que nos acolherá no CAEP no Dia da Liberdade para na companhia de João Santos, celebrarmos o 49º aniversário do 25 de Abril é uma necessidade.

Semear, tratar e colher são tarefas bem conhecidas de quantos como nós alentejanos, nascemos e crescemos neste território, bebemos e vivemos a sua ruralidade, brincámos junto aos campos semeados, partilhámos alegrias e cansaços de quantos se afadigavam em trocar a secura das terras em fartas e loiras searas e depois, garantiam a passagem de cada grão de trigo ao pão que alimentou e alimenta as nossas gentes.

É por conhecermos tão bem esse processo e por termos vivido a profunda transformação que Abril permitiu que estamos certos da necessidade, mas também da possibilidade de semear, tratar, colher e distribuir os seus valores e as suas conquistas.

E não vos falo da Revolução e dos sonhos que nos permitiu, nem dos ataques de que foi alvo desde a primeira hora. Muito menos de actos e pessoas que desde a primeira hora conspiraram, boicotaram e mataram para que não pudesse vingar. Não, falo-vos tão só desse dia “ inteiro e limpo” que abriu as portas das prisões, rompeu as mordaças da censura e do medo, trocou as chapeladas pelo voto directo secreto e livre, permitiu a livre associação de pessoas e organizações, descriminalizou o direito à greve e permitiu o início da emancipação da mulher.

Para que entendamos a necessidade de Semear Abril, falar-vos-ei tão só dos direitos, liberdades e garantias vertidas e mantidas na Constituição da Republica Portuguesa. A mesma que ciclicamente os cidadãos investidos no cargo de Presidente da Republica juram defender, cumprir e fazer cumprir… juramento que ciclicamente esquecem no imediato.

E, por isso mesmo, importa Semear Abril.

Semear, colher e disseminar os valores de Abril. Criar e formar cidadãos que intervenham e garantam que se cumpra Abril e a Constituição:

  • Que o direito a habitação, ao trabalho com direitos, à educação, à saúde, à paz não sejam apenas slogans mas sejam efectivados.
  • Que a Regionalização seja cumprida em vez dos “arremedos” anunciados como descentralização mas que de facto apenas descentralizam problemas enquanto centralizam o poder de decidir e os meios para agir.
  • Que o desenvolvimento harmonioso do país se concretize em vez do contínuo acentuar de diferenças entre territórios e populações.

Sejamos capazes de garantir essa seara. Consigamos provar a razão do poeta revolucionário quando escreveu no seu poema “As Portas que Abril Abriu”.

“… e se Abril ficar distante

desta Terra e deste Povo

nós temos força bastante

p’ra fazer um Abril Novo.”

Que viva Abril!

Diogo Serra

 

quarta-feira, 29 de março de 2023

Não somos um país pobre, somos um país que foi empobrecido.

 

Não somos um país pobre, somos um país que foi empobrecido.


Nos últimos dias nos diversos canais de televisão os chamados “opinadores” têm escalpelado os documentos ou as intenções do governo apresentadas com o objectivo de minimizar as enormes dificuldades de quem vive do seu trabalho em esticar o magro orçamento das famílias. Fazem-no, ao que parece, na esperança de o poderem descredibilizar não pelo que ele possa ou não valer mas pela sua (deles) necessidade de menorizar o governo num processo há muito denunciado de “o cozer em lume brando” até que encontrem à direita quem e como possam ser os actores para a alternância.

Cumprem apenas a vontade de quem os alimenta. Agora o alvo é o governo e a necessidade de o descredibilizar abrindo caminho à direita pura e dura tentando dar-lhe alguma credibilidade, que manifestamente não tem, e que impede o seu Presidente da Republica de avançar com a demissão da Assembleia.

Num tempo em que os portugueses sofrem uma brutal inflação que os salários e pensões não acompanham e quando muitos deles, mesmo trabalhando, não conseguem garantir o pão, a habitação e a saúde enquanto os 5% mais ricos apropriam-se de 48% da riqueza produzida em Portugal, estes ataques ao governo não são, muito pelo contrário, a contestação das políticas de direita que este impõe a quem trabalha ou trabalhou.

Esta estratégia de descredibilizar o governo é tão só um detalhe no combate que movem a Abril e ao seu significado. Não querem perceber que a situação a que anos de rapina nos conduziram não pode e não vai continuar!

Acresce a isto que o actual governo não precisa que o descredibilizem. Ele próprio encarrega-se disso.

Ao recusar a continuação da convergência à esquerda e usando a sua maioria para retroceder nos caminhos e politicas que procuravam consolidar direitos de cidadania e menos desigualdades entre pessoas e entre territórios, o governo e a sua maioria escolheram ser reféns dos que agora em nome da alternância aguardam o momento certo para os afastarem do poder.

Optou por ser actor menor das políticas da EU e internamente, manajeiro dos interesses do grande capital de quem a própria União Europeia é instrumento e refém e, por isso, deixou de ter o “amparo” do mundo do trabalho sem conquistar o respeito dos sectores a quem verdadeiramente beneficia.

A sua posição face à decisão do BCE de voltar a aumentar as taxas de juro é ilustrativa.

O apoio a esta medida que está a infernizar a vida de mais de um milhão de famílias que têm empréstimos à habitação, ao mesmo tempo que os bancos anunciam lucros recorde, como se verificou no último ano com os cinco principais bancos nacionais: lucros de mais de 2,5 mil milhões de euros que representou uma subida de mais de 81% face ao ano anterior.

O mesmo no que respeita ao aumento especulativo dos preços e à perda do poder de compra face à inflação que já ultrapassou os 8 %. As políticas do governo têm como resultado a privação para milhares de trabalhadores e reformados em acederem a bens essenciais como a comida. Constata-se que para um número crescente de pessoas não é possível ter mais que uma refeição quente por dia.

À inflação de 8,1%, a maior das últimas décadas, acresce o facto conhecido que esta não afecta todos da mesma forma. Esta reflecte a evolução dos preços de um conjunto de bens e serviços. As famílias de baixos rendimentos são muito mais afectadas, porque há um conjunto de bens e serviços de que já não tinham condições de adquirir e aquilo que é básico, a alimentação, a energia, tiveram aumentos bem superiores ao aumento da inflação: os lacticínios aumentaram 25%; as frutas e legumes mais de 30%; a carne e o peixe mais de 20%.

Esta é uma realidade que contrasta com os colossais lucros obtidos pelos grupos económicos, alguns com valores recorde:

A GALP obteve lucros recorde de 881 milhões de euros.

A EDP obteve 681 milhões de euros de lucro.

Os lucros da Sonae e do Jerónimo Martins nos primeiros nove meses de 2022 aumentaram mais de 30%.

As seguradoras aumentaram os seus lucros em 39%, para 900 milhões de euros.

O Banco Santander duplica o lucro para 568 milhões de euros.

Os lucros do BPI aumentam em 50% para 207 milhões de euros.

Dizem-nos que é assim por causa da guerra, da inflação, como se não fosse possível fazer nada, como se fosse uma fatalidade. Dizem lamentar as desigualdades, mas que não há outra solução como se estivéssemos condenados a esta política de baixos salários e ao contínuo empurrar das famílias e dos territórios para o empobrecimento e a exclusão.

Não é verdade. A situação que vivemos é o resultado de opções políticas que apostam em priorizar o lucro, a acumulação da riqueza nas mãos de uns poucos mesmo que para isso empurre para a pobreza milhares de trabalhadores e as suas famílias.

Esta é a natureza capitalismo e de quem o defende e pretende perpetuá-lo. Não é, nunca será uma fatalidade!

Assim o queiramos!

sexta-feira, 3 de março de 2023

CONSTRUAMOS A PAZ!

 

Façamos Guerra à Guerra. Construamos a PAZ!

“À guerra não ligues meia

Porque alguns grandes da terra

Vendo a guerra em terra alheia

Não querem que acabe a guerra.”

 


Cumpre-se hoje, data em que escrevo, um ano desde o dia em que o exército russo invadiu a Ucrânia dando inicio ao que a Federação Russa apelidou de “operação especial para a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia” e acabar com oito anos de guerra”.

Mais um capítulo do que sabemos hoje, dolorosamente, tratar-se de uma guerra entre a Rússia e o chamado Ocidente alargado (USA, Nato, EU). Uma guerra (mais uma) em que os falcões nos arrastaram e que volta a ter como palco o território europeu.

O “saldo” em mortes, destruição e pobreza ilustra a dimensão da tragédia e os “pagantes” são, como sempre, as populações dos territórios dilacerados, mais as vitimas dos chamados danos colaterais: as populações dos países, como Portugal, a quem o esforço belicista rouba o pão, o sossego e a segurança, atiçam e estimula ódios de um passado que muitos de nós não esquecemos.

Esta guerra que muitos portugueses só descobriram quando da invasão da Ucrânia pelas tropas russas ou quando os megafones do capital iniciaram a propaganda do ódio, tem por detrás vários anos de confrontações e de mortes.

É um processo que em nada difere do que foi montado na Jugoslávia, no Iraque, na América Latina ou que ainda decorre na Síria e na Palestina.

Na Ucrânia foram usados as mesmas “velhas” receitas: agitação social e violência orientada contra os poderes que não se submetem às diretrizes dos falcões, injeções de dinheiro para quem trai, rotulagem e sanções para quem resiste e de caminho, rapina de bens dos “inimigos”.

Todos conhecemos o processo. Foi usado nos Balcãs para destruir a Jugoslávia, na Síria, no Afeganistão e no Irão inventando nacionalismo ou criando o Daesh. Foi igual na Líbia inventando as revoluções coloridas, no Perú e na Bolívia e no Brasil derrubando os Presidentes eleitos e no Brasil impedindo Lula de concorrer e ganhar as eleições, na Venezuela inventando Gaidós, na Bielorrússia fabricando agitação “democrática”.

Na Ucrânia usaram métodos que nós portugueses conhecemos bem: o assalto à Casa dos Sindicatos, incendiando-a queimando vivos os 39 sindicalistas que a defendiam tem a marca fascista que em Braga incendiou o Centro de Trabalho do PCP, dos assaltos e das bombas que o fascismo aqui semeou em 1975/6.

 Ali, como por cá, eram pró-russos todos quantos se lhes opunham. Ali como por cá, todos sabiam quem eram os responsáveis mas nunca foram julgados. Ali, como por cá já se ensaia, são pró- russos os que se opõem à tentativa de hegemonização do imperialismo.

Hoje, quando é claríssima a necessidade de garantir a Paz é também conhecida a principal razão do seu início e manutenção: garantir o enfraquecimento estratégico da Federação Russa. São as autoridades norte-americanas quem o afirma e, talvez, seja essa a principal justificação para que se diabolizem todas as tentativas de garantir a PAZ se “descarreguem “ cada vez mais armas no teatro da guerra, se diabolizem e se rotulem de pró-russos todos os que exigem a PAZ.

O nosso país, que tenta sempre ser o menino obediente face às ordens de Ianques e U.E, aí está a canalizar o seu esforço para alimentar a máquina de guerra que o seu povo (nós) pagamos em inflação galopante, em aumento escandaloso dos preços de primeira necessidade, em perda acelerada do poder de compra a aumento exponencial da pobreza já bem visível por todo o território.

O Presidente da Republica dá o “toque final” ao decidir atribuir a Ordem da Liberdade ao “manajeiro” de tal estratégia em vez de homenagear os que sofrem com tais acções, os povos da Ucrânia e das regiões russófonas do Donbass.

Até quando?

Diogo Serra