quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Triste fado...




Ontem rei, hoje sem trono
cá ando outra vez na rua
entreguei o fato ao dono
e a miséria continua!
(António Aleixo)

Esta quadra de Aleixo ilustra na perfeição o nosso distrito neste início de Setembro.

Terminadas as festas em Campo Maior e no Crato, encerrada a "escolinha dos jotas" em Castelo de Vide, as diferentes figuras e em particular os figurões voltaram à "cidade grande" e procuram criar "factos novos" enquanto a comunicação social nacional, que só nos descobre quando os figurões por cá poisam, apontam os holofotes para os locais onde, dizem, a notícia acontece, mesmo que a "notícia" seja apenas o eco do que os poderosos gritaram.

Por cá  ficamos os de sempre: os norte alentejanos. Mais envelhecidos e fragilizados, mais pessimistas e cada vez menos disponíveis para acreditar que temos futuro. 

Os que há décadas nos enganam ou, no mínimo, exercem o papel de capatazes dos mandantes e na esperança de conseguirem algumas migalhas, procuram manter-nos dóceis seja pelo medo, pela cobiça ou pela descrença afadigam-se já na construção de discursos eloquentes, rebuscam a mil e uma promessas eleitorais nunca cumpridas, procuram junto dos generais partidários "a graça" de nova visita do(s) chefe(s).

Em tempo de campanha eleitoral (por isso tanto figurão nas festas do distrito)  os partidos do "arco da (des) governação apostam todas as fichas na procura de diferenças (inexistentes) nas propostas eleitorais, na leitura da situação do distrito, nas responsabilidades pela situação a que chegamos. 

Os partidos à esquerda procurarão fazer chegar as suas propostas a uma população cada vez mais descrente e eles próprios sabendo que num distrito que só elege dois deputados romper a teia do conformismo e o poder que o Jobs dão aos partidos que há quarenta anos repartem entre si as benesses do poder.

Tarefa hercúlea que tem que ser, de novo, desenvolvida.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Em jeito de conversa!


Castelo de Vide volta a ter  a “sua” universidade!

Iniciou-se na passada segunda-feira e durará até domingo a iniciativa que o PSD apelidou de Universidade de Verão e através da qual algumas dezenas de meninos e meninas filiadas naquele partido ou nas suas secções juvenis, tomam contacto com a nossa região e em particular com os bares de Castelo de Vide.

É uma semana dura, não tanto pelo trabalho ou pelo estudo mas porque as noites são longas e não fica bem dormitar quando uma qualquer tia ou um outro tio vem falar aos "universitários", particularmente se o tio/a ou tia for membro do governo. É que, o mais inocente cabecear pode pôr em causa o “tal emprego catita” muito bem remunerado e óptimo trampolim para voos mais arriscados.

Resultados práticos, existem sempre. Seja para a economia local que não fica indiferente à permanência de umas dezenas de jovens e aos “senhores professores” que por cá passam, seja para o partido organizador que sempre garante mais uns largos minutos de tempo de antena.

No distrito nada fica, nem sequer a certeza de que os ministros que durante esta semana por cá passam ficam a conhecer a trágica situação de quem cá vive.

Numa semana em que o distrito se afirma através da cultura do seu povo e da organização de eventos culturais capazes de atrair  muitos milhares (Festa do Povo – Campo Maior e Festival do Crato), este ajuntamento dos betinhos do PPD só não passa despercebida porque os grandes meios de comunicação social sabem bem que é preciso dar importância mesmo ao que a não tem!

Estamos conversados!

d.s.

sábado, 22 de agosto de 2015

 
Festa dos Artistas/festa de "artistas"

     Há hora em que escrevo, Campo Maior fervilha, estou certo, com a alegria dos homens e mulheres que mostram finalmente o resultado de milhares de horas de trabalho.
     A alegria da noite de enramar as ruas só é "travada" pelas dificuldades funcionais que a presença dos "mirones" acaba por impor. 
     A visão do que estará a ser essa noite faz-me retornar aos tempos em que, ainda criança, visitei pela primeira vez a Festa dos Artistas. Com os meus pais, junto a alguns outros arronchenses, envergando os fatos guardados para as grandes ocasiões, lá tomámos assento na "caminete da carrera" e rumámos a Campo Maior.
     Recordo o deslumbramento em que me colocaram quer a multidão onde me integrei, quer a beleza que emoldurava a vila que eu já conhecia mas despida de papel.
     Era um tempo em que a festa se realizava de sete em sete anos. Um interregno enorme mas que se justificava quer pelo custo das festas, em gente e em materiais, quer pela necessidade de não a banalizar.
     Por razões perfeitamente compreensíveis: a entrada em cena dos meios de comunicação que a proximaram do mundo, uma maior facilidade de angariar os meios económicos necessários, a afirmação do poder local democrático e a manutenção da vontade dos e das campomaiorenses entre outros, levaram à diminuição desse tempo de espera entre uma e outra edicção.
     Recordo algumas das sessões em que o mau tempo conseguiu num único dia destruir toda a ornamentação feita e a vontade inquebrantável daquele povo que teimava em repor nas ruas a beleza saída das suas mãos.
     Era esta a Festa dos Artistas. A festa feita pelo querer da população organizada rua a rua, a força da tradição e cultura de um povo de antes quebrar que torcer.
     Nos últimos anos a FESTA mantendo os mesmos níveis estéticos e artísticos, e o envolvimento das populações acabou por "mudar".
     A periodicidade que passou a estar ligada aos ciclos eleitorais e aos interesses partidários de quem pode decidir da sua realização, a "profissionalização" da sua gestão e promoção, começam a enredá-la em teias de interesses que extravasam a tradição e a cultura de um povo e, na minha modesta opinião, deixaram de ser a Festas dos Artistas para passarem a ser festas de "artistas".
     E no entanto, continuam lindas!

ds

domingo, 16 de agosto de 2015

Quando uma porta se fecha abre-se sempre uma janela!


Quando uma porta se fecha abre-se sempre uma janela.
Será?

     A afirmação que assumo como título deste texto, o último a ser subscrito como Coordenador da USNA/cgtp-in é a transcrição de um ditado popular usado na nossa região.
     A dúvida colocada é justificada tão só pela proximidade da data em que deixo a coordenação da União e procuro "acertar o passo" com o que quero que seja o meu futuro imediato.
     Os projectos, em particular os que deixaram de ser projectos de vida para se assumirem como o projecto de uma vida, como foi o caso, marcam-nos sempre, mesmo que o não queiramos admitir. Este não foi diferente, tanto mais que o Movimento Sindical de classe e a União fazem parte da minha vida desde a juventude. Foram a  família mesmo antes de ter constituído a minha família.
     Quando casei em 1980, quando nasceram os meus filhos, hoje com 34 e 31 anos, os meus dias ( e tantas vezes as noites) eram guiados a partir da velha sede da União, na travessa da liberdade, no edifício onde hoje está sedeada a delegação local do Novo Banco.
     Ali, com outros camaradas e amigos, desenhei o programa das comemorações do 1º de Maio de 1978 e com o Joaquim Miranda então à frente do Secretarado Distrital das UCP's e Cooperativas e o António Ramos do Sindicato Agrícola, preparámos a vinda e distribuição das máquinas agrícolas oferecidas pela União Soviética às cooperativas do distrito.
     Ali, com dezenas de outros camaradas, defendemos o edifício perante a turba enraivecida convocada pela CAP para o Rossio, naquela que seria a primeira manifestação da CAP a sul do Tejo.  
     Foi ainda a partir daquele edifício, onde estavam sedeados o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura, o Secretariado das UCP´s e Cooperativas e a União dos Sindicatos do Distrito de Portalegre, que planificámos, coordenámos e dirigimos a primeira Greve Geral realizada no pós 25 de Abril.
     Foram trinta e sete anos de intensa actividade em que percorri com muitos outros o caminho que une a minha condição de jovem acabado de deixar o serviço militar obrigatório (os vencedores do 25 de Novembro passaram-me de forma compulsiva à disponibilidade a 2 de Dezembro de 1975) e profundamente empenhado no processo revolucionário e em particular no desenvolvimento das Unidades Colectivas de Produção Agrícolas, ao homem que ultrapassou os sessenta, marido, pai e avô que continua a acreditar que os homens e mulheres, todos e todas hão-de um dia libertar-se das grilhetas e, como dizia o poeta refereindo-se ao Alentejo, hão-de cantar!
     Agora aos 24 dias de Junho de 2015, 37 anos depois daquela noite de Fevereiro de 1978, é preciso aprender a gostar de mim. Aprender a libertar-me dessa carapaça que me acompanhou ao longo de décadas e a tornar possível que sejam outros e outras, jovens, entusiastas e sonhadores a assumirem o seu papel.
     Procurar ( acreditem que não vai ser fácil ) estar disponível se solicitado sem atrapalhar quem ficou e assumir novos projectos e batalhas.
D.S
2015-06-24 
 
 
 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

            A situação (gravíssima) vivida/sofrida na região Alentejo não se confina apenas a este território. A “crise “ económica e social atravessa “fronteiras” e ataca, também, com particular violência o território extremenho que é, sempre o foi, a continuação do Alentejo.
            Alentejo e Extremadura, mais concretamente os alentejanos e extremenhos, estiveram desde sempre irmanados pelas necessidades de sobrevivência. Primeiro face às guerras ditadas pelos interesses dos senhores feudais, depois, pelas politicas de rapina das periferias ditadas ao longo de décadas pelos governos centralistas de Espanha e Portugal.
            É verdade que derrubadas as ditaduras que durante décadas subjugaram os povos de Portugal e Espanha, os extremenhos conquistaram a autonomia politica para as suas gentes mas a recente chegada ao poder regional da direita politica já detentora do poder nacional, acabou por esmagar os muitos avanços alcançados pelos extremenhos.
            A situação é, também ali, de grandes dificuldades com 151.000 desempregados (30% da população activa) e uma elevada taxa de desemprego de longa duração (60%).
            Hoje 46% dos desempregados não auferem quaisquer apoios sociais e as famílias com todos os seus membros no desemprego atingem já 50.000 e estima-se que os desempregados em risco de pobreza atinjam os 40%.
            Extremadura é, actualmente a segunda região de Espanha com maior taxa de pobreza e a terceira com maior taxa de desemprego.
            Este retrato que não é diferente da situação que vivemos no Alentejo, é o resultado das politicas de roubo dos direitos dos trabalhadores e das populações que não só têm provocado um aumento significativo da pobreza e da desigualdade em amplas camadas da população como significam uma dramática deterioração dos serviços públicos e põem em causa as próprias instituições democráticas.
            Observando o que se passa na euro-região é fácil constatar que as politicas impostas por Madrid ou por Lisboa não têm quaisquer diferenças porque são iguais os objectivos de quem as impõe e são os mesmos os que delas se aproveitam.
            Hoje é claro, para extremenhos e alentejanos que a destruição de uma importante parte da estrutura produtiva da euro-região, a queda do investimento público e o aumento substancial da dívida pública de ambos os países, vão impedir a saída da crise e o futuro de várias gerações.
            Por todo o território a precariedade, a temporalidade a parcialidade involuntária foram-se apropriando do mercado laboral, provocando o aparecimento de situações de pobreza mesmo entre os que apesar de trabalharem não auferem o rendimento mínimo necessário para sobreviverem com dignidade.
            Num e outro lados da antiga fronteira politica as cada vez mais alargadas politicas de privatização (directas ou encapotadas) dos serviços públicos essenciais e o desbaratar do património do estado são instrumentos para favorecerem a acumulação e concentração do capital nas mãos privadas l e desvincular cada estado das suas funções sociais.
           As “reformas laborais” cujo objectivo confesso foi facilitar os despedimentos, a baixa dos salários, o roubo de direitos, o aumento da jornada laboral e o desmantelamento da contratação colectiva foram num e noutro lado da “fronteira” um ataque sem precedentes a um conjunto de direitos laborais e sociais consagrados constitucionalmente.
            A intensa ofensiva de ataques e acusações à acção sindical de classe, violando convenções internacionais mereceram denuncias junto da OIT e têm unido em sua defesa os trabalhadores extremenhos e alentejanos e os seus sindicatos de classe.
            A luta desenvolvida em toda a euro-região tem exigido a urgente implementação de politicas de crescimento económico, de estímulo à procura e de crescimento dos salários.
            Tal como no Alentejo, também na Extremadura existem recursos suficientes para recolocar a região nos caminhos do desenvolvimento económico e do progresso social e por isso, os sindicatos de ambos os lados da “fronteira” reunidos em Portalegre a 10 de Março último definiram desenvolver acções e lutas comuns em quatro direcções fundamentais à recuperação económica e social.

  • Primeira prioridade, a luta contra o desemprego. Sem emprego não há recuperação possível. São necessários planos extraordinários para apoiar a criação de postos de trabalho de qualidade na euro-região.
  • Reactivar a economia da euro-região. Sem actividade económica, sem consumo, não há recuperação nem há emprego.  Importa tomar medidas para restaurar o poder de compra dos trabalhadores e das famílias e apostar, num e outro lado da “fronteira” na reindustrialização porque é inegável a necessidade de projectos industriais fortes e sólidos que funcionem como locomotiva das nossas economias.
  • As infra-estruturas são vitais para o desenvolvimento que queremos pelo que é fundamental dar continuidade a obras que nunca se iniciaram ou ficaram suspensas:
    • A linha ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Madrid;
    • A Plataforma logística do sudoeste;
    • O Trem de alta velocidade prometido entre Sines e Badajoz, com ligações a Beja e Portalegre;
    • A modernização da linha e recuperação do transporte de passageiros entre Abrantes e Badajoz,
    • A potenciação do comboio tradicional entre Alentejo e Extremadura com regresso do Lusitânia entre Madrid e Lisboa ao seu traçado original com a recuperação do ramal de Cáceres;
    • A finalização das estradas suspensas e em particular a IP8 e IP2, IC13 e estrada de ligação entre o Alentejo e Extremadura por Nisa/Cedillo;
    • A construção da Barragem do Pisão-Crato
    • Um plano de melhoria das transferências para Centros educativos e hospitalares
  • O reforço das políticas sociais e do Estado de Bem-estar que passa pelo fim da ofensiva contra os serviços públicos e o abandono ou desmantelamento dos serviços do interior em particular nos âmbitos sociais, da educação e da saúde.
            Todas estas acções podem e devem ser sustentadas pelos fundos comunitários, fundos do orçamento geral dos Estados e no caso extremenho, também da comunidade autónoma.
            Os trabalhadores de ambos os lados da “fronteira” e o seu movimento sindical não abdicam de serem actores do seu futuro.

Diogo Júlio Serra

(publicada na Revista Alentejo nº 38 de Junho > Novembro de 2015)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

 

CONTRA CORRENTE

            Desde há muito “virou moda” bater na Fundação Robinson.
            As diferentes forças políticas do concelho elegeram esta instituição da cidade como saco de areia para o seu apuramento enquanto boxeurs!
            As motivações não serão iguais mas o resultado é praticamente o mesmo: colocar sobre a Fundação Robinson as suas próprias frustrações e o resultado das suas debilidades técnicas e políticas.
            É também perfeitamente claro que muitas vezes a Fundação se tem “colocado a jeito”. Vejam-se a quase ausência de relações comerciais com as empresas do concelho, o “abandono” nunca explicado do que era o seu projecto inicial, a pouca informação e a “má imprensa” que cultivou ao longo dos anos, as dificuldades em explicar à cidade e ao concelho as diferentes opções que foi tomando, mesmo quando era fácil mostrar as vantagens de tais opções.
            Neste momento assiste-se ao incentivar das campanhas anti-Fundação, insistindo-se em apresentá-la como culpada pelo incumprimento permanente em que a autarquia se mantém: com as freguesias, com as instituições culturais e desportivas, com os seus fornecedores e os seus cidadãos. A Fundação é acusada de sugar os subsídios de outras colectividades e de, ela própria, ser subsio-dependente necessitando de subsídios da autarquia até para pagar os vencimentos dos seus trabalhadores.
            É tudo mentira? Não. Até porque como dizia o poeta,  “para a mentira ser segura/ e atingir profundidade/ tem que trazer à mistura/qualquer coisa de verdade”.
            Se a discussão (que deve/tem que ser feita) tivesse como objectivo a defesa do concelho e a necessária e desejável preservação da memória da “fábrica da rolha” e da actividade corticeira em Portalegre, muito diferente teriam que ser os discursos quer do Executivo Municipal quer das forças politicas nele representadas.
            O muito que há para dizer e sobretudo para (continuar a) fazer poderá não se inscrever nas estratégias politico-eleitorais de cada uma dessas forças mas ajudaria certamente à compreensão de todo este processo.
            Neste início de 2015, quando as diferentes forças politicas alinham já as suas agendas com os olhos postos nos diferentes actos eleitorais, não poderemos aspirar a posições diferentes das habituais tiradas demagógicas com que uns e outros visam fixar as franjas do eleitorado que cada uma elegeu já como seu. E no entanto todos ficaríamos a ganhar se o caminho fosse diferente.
            Todos os portalegrenses ganhariam se a Câmara Municipal quebrasse o ruidoso silêncio a que se remeteu e viesse explicar as causas que levaram a Fundação a ter que solicitar ao Executivo Municipal que assuma mensalmente o pagamento dos funcionários da Fundação.
            Deveria ainda informar os seus munícipes acerca dos projectos e das obras em que a Fundação se substitui à Câmara e quais as razões que o impõem. O facto da Fundação ter sido agora, mais uma vez, a entidade capaz de garantir o financiamento para as infra-estruturas do espaço Robinson, poderia a ajudar nesse esclarecimento.
            Também os partidos e movimentos que nas últimas décadas passaram pelos diferentes executivos deveriam substituir a guerrilha em que se têm envolvido pela informação séria e necessária a podermos avaliar o seu comportamento e em particular:
            - Quantos dos seus membros e durante quanto tempo participaram nos órgãos e nas decisões da Fundação?
            - Quantos dos seus membros e durante quanto tempo estiveram nos Executivos Municipais que (dizem) usou a Fundação para fugir ao controlo democrático do próprio Executivo e da Assembleia Municipal?
            - Que defendem, de facto, para a Fundação Robinson?
            Se assim agissem certamente todos (munícipes, autarquias, fundação) estaríamos melhor preparados para ajuizar os passos dados e definirmos o futuro da nossa comunidade.
            Já agora, seria igualmente interessante saber o que cada força política conhece e defende em relação ao ICTVR-International Center for Technology in Virtual Reality.

 

Diogo Serra

quinta-feira, 1 de maio de 2014

1º de Maio em POrtalegre


 

Camaradas:
O 1º de Maio que hoje comemoramos acontece num momento determinante da nossa vida colectiva, num quadro em que aumenta a exploração na razão directa da acumulação e concentração de riqueza nos grupos económicos e financeiros e nos seus serventuários, em que cresce e alastra o empobrecimento para a generalidade da população ao mesmo tempo que disparam as desigualdades, em que os valores e conquistas de Abril são atacados tendo por base a mais vil campanha ideológica desde 1974.
É neste contexto que saudamos os trabalhadores, os jovens, os reformados e pensionistas e os desempregados que por todo o país, no Continente e Regiões Autónomas, comemoram o Dia do Trabalhador lutando, lembrando a memorável jornada de há 40 anos atrás, quando o movimento operário e os trabalhadores, firmes e unidos em torno da sua organização de classe, a Intersindical Nacional, ergueram e juntaram a sua voz ao povo nas ruas, marcando de forma indelével o curso da Revolução de Abril!
Saudamos aqueles que durante os 48 anos do fascismo, enfrentando com coragem a repressão, despertaram consciências, mobilizaram vontades, derrotaram fatalismos e forjaram as condições para acontecer Abril.
 
Saudamos os capitães de Abril e o MFA, que abriram as portas à liberdade, à democracia e à participação do povo na construção da sua vida e destino colectivo.
Nas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril e do primeiro 1º de Maio em Liberdade, tem-se dito e escrito muitas coisas. Afirma-se que o Abril consolidado em Maio não tem donos, para tentar ocultar o carácter popular, de classe e de massas da nossa Revolução. Dizem que é de todos, para esconder que, sendo dos trabalhadores e do povo, Abril não é dos grandes grupos monopolistas, nem das sete famílias que detinham o poder no nosso país, não é dos exploradores, nem dos que subordinam a vontade popular à ditadura da finança.
Não são neutros os direitos conquistados.
Não são neutras as conquistas na área da educação e da escola pública, gratuita e de qualidade, na saúde com a edificação do Serviço Nacional de Saúde para todos, na segurança social, com prestações sociais universais e solidárias!
Não é neutra a construção da reforma agrária, as nacionalizações e todos os avanços consagrados na Constituição da República Portuguesa!
Por mais que tentem branquear os anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo expressos naquele 1º de Maio de há 40 anos, que também inundou Portalegre, aquilo que esteve e está em causa, é a opção entre a valorização do trabalho e a opressão do capital, entre a justiça social e a perpetuação das desigualdades, entre o desenvolvimento e a estagnação económica, entre um projecto soberano e a subserviência perante as grandes potências, entre o emprego de qualidade e o desemprego, a precariedade e a emigração forçada.
O que está em causa ao longo dos últimos 37 anos é a inversão destes valores, deixando a economia de estar aos serviço do povo, para estar subjugada aos ditames do capital, transformando os trabalhadores em mero instrumento de reprodução da força de trabalho, para satisfazer as necessidades e vontades dos ditos mercados.
Ao contrário do que os arautos do capital afirmam, não é Abril, nem os direitos políticos, económicos, sociais e culturais ganhos com a luta, que estão na origem da crise, mas sim o afastamento dos valores de Abril e a imposição da política de direita que foi prosseguida e está a ser continuada.
 As medidas de austeridade impostas aos trabalhadores e ao povo, quer na versão dos PEC,s quer pela aplicação do memorando das troikas, e que tanto o Governo do PS/Sócrates como o actual Governo do PSD/CDS apelidaram de  “êxito” e de  “sucesso”, são o exemplo acabado dos efeitos nefastos e brutais da opção em continuar a política de direita:
Um “êxito” para os agiotas que ganham milhões com a especulação de uma dívida pública insustentável, e para os defensores da redução do défice à custa do crescimento económico, com Portugal a ter, pela primeira vez na sua história, três anos consecutivos de recessão que já destruiu mais de 9 mil milhões de riqueza produzida.
Um “êxito” para os milionários que todos os anos aumentaram espectacularmente as suas fortunas, quando a pobreza e a exclusão social atinge 1 em cada 4 portugueses.
Um “sucesso” para os que vêem nos serviços públicos fonte de lucros e no direito à educação, saúde e segurança social importantes áreas de negócio, mesmo que tal hipoteque o desenvolvimento humano, a coesão social e territorial e inviabilize o urgente combate às desigualdades!
Um “sucesso” dizem os que vivem à conta das SWAP, PPP e dividendos livres de impostos, em relação a uma política que generaliza a precariedade laboral, que empurra mais de um milhão e quatrocentos mil trabalhadores para o desemprego, e força centenas de milhar a emigrar.
Um “sucesso” para os que engordam à custa da exploração, com o enfraquecimento e individualização das relações de trabalho e o ataque sem precedentes à contratação colectiva para reduzir as retribuições e libertar assim mais recursos para o capital, como é exemplo a redução das indemnizações por despedimento, o aumento da jornada de trabalho na Administração Pública e a transformação em definitivas de medidas que juraram ser provisórias.
Um “êxito” para o grande capital e as grandes potências com o aprofundamento do ataque à soberania nacional, com a situação de “protectorado” a manter-se por mais 20 anos.
Daqui, desta cidade de Portalegre que no longínquo ano de 1895, deu início às comemorações do 1º de Maio com acções de rua,  afirmamos com convicção:  da mesma forma que rejeitámos e derrotámos o papel colonizador do nosso país por ser injusto, rejeitamos e derrotaremos a colonização a que nos querem submeter, porque é ultrajante!
Se os trabalhadores não pararem quanto antes tal ofensiva a política que tem sido seguida contra todos os trabalhadores do sector público, do sector empresarial do Estado e do sector privado, vai ser continuada.
O aumento brutal do IRS suportado por quem trabalha e trabalhou, ao mesmo tempo que se reduz o IRC para as grandes empresas, é apenas mais um exemplo da opção por beneficiar os que muito têm em prejuízo dos muitos que pouco ou nada detêm.
Está visto que a ofensiva não cessa, enquanto não derrotarmos a política de direita e pusermos este Governo na rua. Para eles os sacrifícios nunca são suficientes e é sempre necessário mais cortes para os trabalhadores e a população!
Encenam preocupações sociais, mas aquilo que impõem e preparam são mais cortes nas prestações de desemprego, no abono de família, nas pensões de sobrevivência e querem aumentar ainda mais a idade da reforma.
Bem podem apelar ao consenso e à união nacional, que nós não confundimos o interesse nacional com a espoliação imposta pelo capital, não aceitamos o empobrecimento dos trabalhadores e do povo para alimentar os mesmos de sempre e combateremos e derrotaremos o aprofundamento da exploração e da alienação da soberania, porque temos propostas para uma política alternativa, de esquerda e soberana, de desenvolvimento e justiça social, de exigência de direitos, porque nós cumprimos com os nossos deveres!
Uma política alternativa assente no aumento dos salários, para dinamizar a procura interna e reequilibrar a repartição da riqueza!
Uma política que promova o aumento do salário mínimo nacional, para os 515€ já a 1 de Junho de 2014.
Os trabalhadores estão a ser roubados há 1215 dias, desde que o anterior e o actual Governo fizeram tábua rasa do Acordo em sede de Concertação Social! É hora de desmascarar o Governo e exigir que clarifique a sua posição, poise não aceitamos que continue a esconder as suas intenções.
Exigimos uma política que impulsione o emprego de qualidade e com direitos, para fixar a força de trabalho qualificada e combater a precariedade e a instabilidade profissional. A dinamização da contratação colectiva é um imperativo e um dos alicerces da democracia de Abril, consolidada em Maio.
Esta é a hora de derrotar a tentativa de aumentar o horário de trabalho na Administração Pública, respeitar a autonomia do poder local democrático e fazer vingar os mais de 200 acordos que contemplam as 35 horas semanais. É hora de estender este direito a todo sector público e progressivamente ao sector privado!
Reivindicamos a redução do tempo de trabalho sem perda de retribuição, para promover uma maior justiça social, com os trabalhadores a beneficiar dos enormes avanços científicos e tecnológicos introduzidos no sistema económico e produtivo.
Redução do tempo de trabalho para dinamizar uma melhor distribuição da riqueza e criar mais emprego para aqueles que hoje vêem negado o direito ao trabalho.
Exigimos a dinamização da produção nacional, o incremento do valor da produção e o investimento num aparelho produtivo moderno e de alto valor acrescentado. Sem produzir mais o país nunca estará melhor!
Defendemos uma nova política fiscal, que liberte os assalariados e pensionistas e incida sobre os rendimentos do capital!
Exigimos o reforço das funções sociais do Estado, da escola pública, do serviço nacional de saúde e da segurança social universal e solidária!
É hora de promover e desenvolver os serviços públicos e travar as privatizações em curso!
Temos de subordinar o défice ao crescimento económico e rejeitar as imposições do Tratado Orçamental!
Temos de renegociar a dívida, no seu montante, prazos e juros. Esta foi uma reivindicação que, durante muito tempo, só a CGTP-IN no plano social e muito poucos no plano político defenderam… de dia para dia crescem aqueles que constatam a insustentabilidade da dívida!
As propostas que fazemos, em cada um e em todo o seu domínio, implicam uma ruptura com o projecto de estagnação económica, regressão social e aumento das desigualdades, que a política de direita tem para o nosso país. Em simultâneo significa mais desenvolvimento económico, mais direitos para os trabalhadores e o povo.
Só com a força dos trabalhadores, organizados nas suas estruturas representativas será possível empreender a inversão de política! Só com uma CGTP-IN mais forte e interventiva, com a responsabilização de mais quadros e uma acção sem tréguas em cada empresa, em cada local de trabalho, será possível forçar a demissão do governo e derrotar a política de direita.
É este o nosso compromisso: continuar e intensificar a luta.
Luta que temos de levar até ao voto no próximo dia 25 de Maio, dia de eleições para o Parlamento Europeu, aproveitando esta ocasião para mostrar o cartão vermelho aos que lá, como cá, trazem a miséria, o desemprego, o empobrecimento e a desesperança para as nossas vidas.
Vamos rejeitar os apelos ao voto em branco ou nulo. Vamos votar em consciência, naqueles que defendem os nossos interesses, rejeitam inevitabilidades e que, de forma consequente, têm combatido e combatem a política de direita, apresentam soluções para o país e estão ao lado dos trabalhadores e do povo.
Luta que vai continuar, com uma semana, de 26 a 31 de Maio, para celebrar os 40 anos da conquista do SMN e exigir a sua actualização para os 515€, já a parir de 1 de Junho!
E nos dias 14 e 21 de Junho, no Porto e em Lisboa, vamos promover duas importantes manifestações, porque a nossa luta não vai parar, mas antes será intensificado o combate para derrotar o governo e a política de direita, abrir caminho à construção de uma política alternativa, de Esquerda e Soberana, que sirva os interesses dos trabalhadores, do povo e do país, afirmando os valores e as conquistas de Abril no futuro de Portugal.  
 

 VIVA O 1º DE MAIO!

VIVAM OS TRABALHADORES!

A LUTA CONTINUA!