Por estar fora do distrito não pude ser, como gostaria, mais um entre os muitos que não deixaram de ir dizer adeus a quem durante 17 anos foi um dos nossos, foi o pároco e o amigo.
O Padre Fernando Farinha construiu ao longo dos 17 anos que esteve connosco uma relação de confiança e proximidade com todos os habitantes independentemente das suas posturas e crenças. Foi assim em todos os locais que puderam usufruir da sua presença, da sua coragem, da sua palavra e da sua fé.
Foi assim comigo e foi-o mesmo antes de nos termos conhecido.
Decorria o ano de 1988. O Distrito de Portalegre vivia momentos de grandes dificuldades com milhares de trabalhadores no desemprego e a praga dos salários em atraso. Eu era o Coordenador da CGTP-Intersindical no Alto Alentejo e o Sr. Padre Fernando Farinha era o Diretor do Jornal O Distrito de Portalegre, o jornal da Diocese e também o coordenador da disciplina de jornalismo na Escola Secundária de S. Lourenço. Em quaisquer destas funções mas também enquanto padre já me eram conhecidas as suas excecionais qualidades.
No início de Dezembro desse ano, o Movimento Sindical que eu coordenava, desenvolvia intensa atividade sindical nas empresas e nas ruas denunciando a Praga dos Salários em atraso, o desemprego que não parava de crescer e os impactos no Natal dos trabalhadores e suas famílias. Entre as inúmeras ações foi emitido e distribuído à comunicação social um comunicado que identificava todas as empresas que não pagavam salários.
O Distrito de Portalegre, dirigido pelo Sr. Padre Farinha, publicou-o na primeira página sob o título " O outro lado do Natal ". Os patrões (particularmente os incumpridores) não gostaram e pressionaram quanto puderam o Jornal e a Diocese para que o assunto fosse desmentido.
O Diretor do jornal. o Sr. Padre Farinha, ripostou que números rebatem-se com números e se foi publicada alguma mentira que o provem e o jornal lhes dará razão. Assunto encerrado...apesar de para mim e muitos outros ter ficado sempre a "impressão" que foi essa corajosa atitude a decidir o seu afastamento da direção do jornal.
Só três meses mais tarde nos encontrámos pessoalmente, absolutamente por acaso.
Na Rádio Portalegre, ainda a funcionar em Santa Clara, eu era o convidado de um programa dirigido e apresentado pelo António Milheiros, então diretor da Rádio e que previa que o convidado levasse música que gostava de ouvir e pudesse explicar a sua opção. Pois bem apareceu um segundo convidado com vários discos debaixo do braço. Era o Sr. Padre Farinha com discos do Zeca Afonso e assinalando que nesse dia, 23 de Fevereiro de 1989, se cumpria o segundo aniversário da morte do Trovador da Liberdade.
A partir daí voltámos a encontrar-nos várias vezes em Portalegre e em Arronches.
Aqui, quase sempre por "más razões", nos funerais de amigos e conhecidos exceto a última vez que estivemos juntos, desta vez na Igreja Matriz.
Foi já este ano, a 28 de Fevereiro, com a Igreja ainda mais linda porque extraordinariamente iluminada a acolher um concerto sublime proporcionado pela embaixada da Polónia e integrado no festival "Terras sem sombra".
Até sempre Senhor Padre Farinha!
Diogo Serra