NUM
TEMPO (e num país) DO FAZ DE CONTA !
“Portugal caiu nove lugares no Índice de Percepção da
Corrupção 2024: ocupava a 34ª posição e está agora na 43ª, num total de 180
países analisados, com 57 pontos, o valor mais baixo de sempre.”
Esta a “notícia” que na passada semana
abriu telejornais, fez machetes em jornais ditos de referência, ocupou
políticos e opinadores e sobretudo, foi motivo avançado para abrir caminho ao
intensificar do discurso alarmista e as portas aos sonhos da direita em
normalizar o lobismo.
Só muito poucos se preocuparam em
descodificar a bombástica noticia e rapidamente esta era “vendida” como se a
corrupção em Portugal tivesse atirado o país para patamares só comparáveis a
países do considerado terceiro mundo.
Mesmos na classe política e nos
profissionais da comunicação social não se fizeram ouvir palavras e textos que
colocassem a “notícia” no seu devido lugar. Ninguém ousou dizer-nos que afinal
não tínhamos mais corrupção (a que existe realmente já é suficiente para nos
deixar envergonhados) tínhamos isso sim, gente mais mal informada ou menos
capaz de pensar pela sua própria cabeça. Que tinha aumentado, isso sim, a
circulação de mentiras, a capacidade de uns quantos, chamemos-lhes “influencers”
ou pantomineiros em semearem as notícias falsas e os “achismos”, em espalharem
lama e ódio por vastos setores da sociedade.
Na verdade, tanto na corrupção como na
segurança e insegurança ou nas questões de refugiados ou imigração, o que
aumentou foi percepção que se constrói a partir das narrativas construídas sobre
determinado tema, mesmo que, (quase sempre) baseada na repetição de mentiras e
na ampliação desmedida de situações verdadeiramente existentes.
Em Portugal já devíamos estar imunes às
narrativas e práticas de quantos usam e abusam das narrativas pensadas para
enganar os incautos, para transformar cenários em realidade aceite, para nos
levar a assumir as suas e dos seus mandantes verdades e vontades. E fazem-no
desde há muito, mesmo muito antes de terem ao seu dispor, como hoje têm, as
ferramentas que transforma em (quase) verdade a mais abjecta mentira.
Foi assim com a encenação da “matança da
Páscoa” que justificou o golpe militar de Spínola, derrotado pela aliança
Povo-MFA mas que provocou a morte de um militar no Ralis, voltou a sê-lo no
verão de 75 e pelo ano de 76, para justificar a ação das redes terroristas e
bombistas com que a direita trauliteira pôs Portugal a arder e semeou violência
e morte de norte a sul do país.
Foram também as percepções semeadas que
se apresentaram como suporte da destruição por Barretos, Portas e quejandos, da
Revolução Social e agrária nos campos do Alentejo e Ribatejo e os espancamentos
e assassínios de trabalhadores. Foi-o mais recentemente quando as percepções
construídas permitiram as campanhas de ódio contra a Festa do Avante e
alimentam hoje as campanhas de ódio contra imigrantes e minorias étnicas e
religiosas.
Todas elas com objetivos e autores
facilmente identificáveis. Todas elas a anos-luz da verdade. Todas elas
servindo como lebre, às aspirações de quantos não conseguem adaptar-se às
regras da democracia e à Constituição que as garante.