50 ANOS DEPOIS – Olhemos a Reforma Agraria
Nos dias 26 de Janeiro e 2 de fevereiro em Beja e em Évora em diferentes iniciativas assinalar-se-ão os 50 anos da “Reforma Agrária” ou, sendo mais rigoroso, o início da revolução social havida em terras do Alentejo e Ribatejo e que pôs em confronto o modelo de agricultura secular, latifundista e caciqueira e o modelo coletivista sonhado por gerações de trabalhadores rurais sem terra e, muitas vezes sem trabalho.
A primeira dessas ações celebra o 50º Aniversário da Assembleia Distrital de Delegados Sindicais do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Beja, que teve lugar no dia 26 de Janeiro de 1975, na Sociedade Capricho Bejense e decidiu "Dar início imediato à Reforma Agrária..." A segunda, em Évora evocará a 1ª Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, que a 9 de fevereiro de 1975 realizada naquela cidade e que reuniu quatro mil delegados de todo o Alentejo. Ali se decidiu o inicio do processo de tomada das terras por coletivos de trabalhadores e no dia seguinte “realizaram-se plenários para se escolherem as herdades a ocupar e os coletivos para dirigir as ocupações.”
Esta ação que alguns consideraram a Revolução dentro da Revolução e que passaria à história com a denominação de Reforma Agrária e com a fama, e o proveito, de ter transformado radicalmente a agricultura e a vida social dos territórios onde foi desenvolvida continua, ainda hoje, a ser objeto de diferentes leituras quer nos seus objetivos, quer nos seus resultados, quer ainda nas motivações que a justificaram.
50 anos após o seu início e 35 anos depois do seu “assassinato” ainda não é claro que os portugueses, em particular os oriundos e residentes nos territórios que integram a ZIRA já conseguem o distanciamento necessário que permita analisar as razões que a justificaram, os resultados que alcançou e os custos e/ou benefícios da sua extinção.
Meio século depois reunir-se-ão condições emocionais e técnicas para podermos, no nosso distrito, proceder a um balanço, não emocional, dos custos e ganhos económicos e sociais de termos vivido também no nosso distrito um processo revolucionário que colocou nas mãos dos trabalhadores organizados em Unidades Coletivas de Produção, milhares de ha de terras, que acelerou a modernização da agricultura com a introdução de maquinaria e de novas culturas, aumentou o emprego e a produtividade, como afirmam os seus defensores ou, como defenderam os seus adversários, foi fator de desorganização, de desmandos e de desrespeito.
Importa igualmente aferir se estamos ou não em condições, 50 anos passados, de procurar encontrar as verdadeiras razões para o início das ocupações das terras em janeiro de 75 quando a lei que as consagrava só apareceu em Julho desse ano. Foram os interesses políticos do PCP e a vontade dos militares revolucionários como alegavam os proprietários expropriados ou foram as ações de sabotagem económica, os despedimentos e o não pagamento dos salários a acelerarem o processo, conforme foi e é defendido pelos trabalhadores, os sindicatos agrícolas e os militares revolucionários?
Sei que pode, ainda, ser difícil para muitos. Sei-o por experiência própria e pela dificuldade que ainda tenho em ouvir comentários que vão contra a minha verdade e narrar como verdades acontecimentos que sei, porque os vivi, serem mentiras. Mas penso estar na hora de fazermos o que for necessário para podermos “ficar a bem” com a nossa história.
Reconhecer que nas nossas vilas e aldeias foi com este processo que se denominou de Reforma Agrária que se pôs fim (embora apenas pelo pouco tempo que esta resistiu), com o flagelo do desemprego, que na maioria das habitações entrassem os primeiros eletrodomésticos, que houve creche para as crianças e apoios dignos para os mais velhos.
Se
o conseguirmos já valeu a pena assinalar o cinquentenário da Reforma Agrária e
será em minha opinião uma forma ponderada e justa de dizermos a Casquinha e
Caravela que sim, valeu a pena!
Diogo Júlio Serra