quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

 50 ANOS DEPOIS – Olhemos a Reforma Agraria

 


Nos dias 26 de Janeiro e 2 de fevereiro em Beja e em Évora em diferentes iniciativas assinalar-se-ão os 50 anos da “Reforma Agrária” ou, sendo mais rigoroso, o início da revolução social havida em terras do Alentejo e Ribatejo e que pôs em confronto o modelo de agricultura secular, latifundista e caciqueira e o modelo coletivista sonhado por gerações de trabalhadores rurais sem terra e, muitas vezes sem trabalho.

A primeira dessas ações celebra o 50º Aniversário da Assembleia Distrital de Delegados Sindicais do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Beja, que teve lugar no dia 26 de Janeiro de 1975, na Sociedade Capricho Bejense e decidiu "Dar início imediato à Reforma Agrária..." A segunda, em Évora evocará a 1ª Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, que a 9 de fevereiro de 1975 realizada naquela cidade e que reuniu quatro mil delegados de todo o Alentejo. Ali se decidiu o inicio do processo de tomada das terras por coletivos de trabalhadores e no dia seguinte “realizaram-se plenários para se escolherem as herdades a ocupar e os coletivos para dirigir as ocupações.”

Esta ação que alguns consideraram a Revolução dentro da Revolução e que passaria à história com a denominação de Reforma Agrária e com a fama, e o proveito, de ter transformado radicalmente a agricultura e a vida social dos territórios onde foi desenvolvida continua, ainda hoje, a ser objeto de diferentes leituras quer nos seus objetivos, quer nos seus resultados, quer ainda nas motivações que a justificaram.

50 anos após o seu início e 35 anos depois do seu “assassinato” ainda não é claro que os portugueses, em particular os oriundos e residentes nos territórios que integram a ZIRA já conseguem o distanciamento necessário que permita analisar as razões que a justificaram, os resultados que alcançou e os custos e/ou benefícios da sua extinção.

Meio século depois reunir-se-ão condições emocionais e técnicas para podermos, no nosso distrito, proceder a um balanço, não emocional, dos custos e ganhos económicos e sociais de termos vivido também no nosso distrito um processo revolucionário que colocou nas mãos dos trabalhadores organizados em Unidades Coletivas de Produção, milhares de ha de terras, que acelerou a modernização da agricultura com a introdução de maquinaria e de novas culturas, aumentou o emprego e a produtividade, como afirmam os seus defensores ou, como defenderam os seus adversários, foi fator de desorganização, de desmandos e de desrespeito.

Importa igualmente aferir se estamos ou não em condições, 50 anos passados, de procurar encontrar as verdadeiras razões para o início das ocupações das terras em janeiro de 75 quando a lei que as consagrava só apareceu em Julho desse ano. Foram os interesses políticos do PCP e a vontade dos militares revolucionários como alegavam os proprietários expropriados ou foram as ações de sabotagem económica, os despedimentos e o não pagamento dos salários a acelerarem o processo, conforme foi e é defendido pelos trabalhadores, os sindicatos agrícolas e os militares revolucionários?

Sei que pode, ainda, ser difícil para muitos. Sei-o por experiência própria e pela dificuldade que ainda tenho em ouvir comentários que vão contra a minha verdade e narrar como verdades acontecimentos que sei, porque os vivi, serem mentiras. Mas penso estar na hora de fazermos o que for necessário para podermos “ficar a bem” com a nossa história.

Reconhecer que nas nossas vilas e aldeias foi com este processo que se denominou de Reforma Agrária que se pôs fim (embora apenas pelo pouco tempo que esta resistiu), com o flagelo do desemprego, que na maioria das habitações entrassem os primeiros eletrodomésticos, que houve creche para as crianças e apoios dignos para os mais velhos.

Se o conseguirmos já valeu a pena assinalar o cinquentenário da Reforma Agrária e será em minha opinião uma forma ponderada e justa de dizermos a Casquinha e Caravela que sim, valeu a pena!

Diogo Júlio Serra 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Woke versus Anesthtize

 




Woke versus Anesthtize

 A extrema-direita totalitária, instrumento essencial ao capitalismo e ao imperialismo, tem uma agenda bem definida visando preservar até ao limite do possível, o seu caduco modo de vida e de poder.

As guerras (frias ou quentes), os extermínios seletivos ou em massa, são a parte mais visível dessa agenda que é bem mais vasta, embora mais subtil.

A propaganda, declarada ou escondida por detrás dos "estudos científicos", das palestras e artigos encomendados, o controlo absoluto dos meios de comunicação, das centrais de dados e da emissão de conteúdos com insinuações e mentiras, agora em fase de acentuação com a introdução da IA - inteligência artificial, são instrumentos que permitem manipular, formatar e comprar consciências, isolar e imolar quem ousa pensar diferente ou agir fora do formato estabelecido, impedir ação e protesto.

Se a guerra e o extermínio em massa só agora entraram no nosso quotidiano, mesmo assim seguindo os cânones que impõem a difusão do olhar dos "bons", com a guerra na Ucrânia e o extermínio do povo palestiniano, o facto é que, a agenda desta extrema direita imperialista está presente desde que os povos começaram a contestar a justeza da sua governação.

Foi esta agenda (pelo menos os mesmos objetivos) que arrastou a europa e o mundo para duas guerras mundiais, que alimentou a sua divisão em blocos e fomentou a conflitualidade entre eles (guerra fria), que dividiu povos, destruiu países e arrasou cidades. Lembremos tão só o assassínio de milhões em Hiroxima e Nagasaki, a invenção da "cortina de ferro" na europa saída da segunda grande guerra, a destruição, com guerra civil, da Jugoslávia ou o semear de "primaveras" no mundo árabe, na América Latina ou no leste da Europa.

É essa agenda, com os mesmíssimos objetivos e contando com os mesmíssimos agentes executores: a extrema-direita racista e xenófoba, organizada em partidos ou agindo de forma isolada, recrutando fiéis, "idiotas úteis" ou gente desatenta que se instalou e age à luz do dia em Portugal e na nossa cidade.

Os objetivos, as técnicas e os agentes são velhos de séculos mas usando ferramentas novas continuam a ser eficazes: as políticas de difusão do ódio e da intolerância a partir das próprias instituições do estado; a propagação do medo como fator de adormecimento de consciências e tolerância contra a perda de direito individuais e coletivos; a diabolização de quantos cidadãos e instituições, ousam questionar a narrativa oficial, fazer guerra à guerra e exigir a paz, exigem e usam os direitos constitucionais, persistem em pensar e agir conforme a sua consciência.

Exemplos não faltam.

O branqueamento do fascismo e a "condenação" da Revolução de Abril e dos que a concretizaram a par da glorificação dos que a traíram e hoje, ousam já defender o salazarismo, o colonialismo e a rede bombista que pôs o país a ferro e fogo.

A incorporação do discurso do ódio e da glorificação do racismo e da xenofobia nas politicas e ações do governo e do estado. Veja-se a vergonhosa iniciativa montada recentemente no Martin Moniz em Lisboa e também a ação repressiva contra os que se manifestam contra tais iniciativas.

As iniciativas de alarmismo em curso na nossa cidade visando multiplicar o medo com o papão da insegurança e levando-nos a aceitar restrições à liberdade individual e coletiva em vez de, como seria necessário e desejável dotar de meios e de pessoal as instituições de segurança da cidade.

A campanha de propaganda e intolerância, também na nossa cidade, contra os que ousam remar contra a corrente, tem a ousadia de denunciar, insistem em não fechar os olhos e as mentes face à intolerância, o ódio, o racismo e a xenofobia. Campanha que se faz boca a boca mas também na comunicação social disfarçada de inquietação intelectual. De combate, dizem, ao "Wokismo mais extremado" mas, de facto, de divulgação dos valores e vontades da extrema-direita retrógrada e arruaceira que Abril havia colocado na clandestinidade.

A receita já foi testada com êxito noutros períodos da história do país e do mundo.

Que saibamos e queiramos neutralizá-la enquanto (ainda) há tempo e vontade suficientes.

Diogo Júlio Serra